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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

31 de Janeiro de 1891

31 de Janeiro 1891”
O princípio do fim
Em Agosto de 1891, o escritor Eça de Queirós desabafava com um amigo : «Eu creio que Portugal acabou. Só o escrever isto faz vir as lágrimas aos olhos – mas para mim é quase certo que a desaparição do reino de Portugal há-de ser a grande tragédia do fim do século». Todos sabemos que a época era pródiga em exageros, depois de um conflito diplomático com a Inglaterra em 1890, insurreição militar republicana  em 31 de Janeiro de 1891 e uma grave crise financeira em Maio desse mesmo ano, tudo parecia em causa: a independência do país , o regime constitucional, as finanças . A sequência catastrófica, tal como Eça vaticinava, fazia todo sentido.
O pessimismo era geral, tal como hoje, a pergunta impunha-se :«Há ou não há recursos bastantes, intelectuais, morais , sobretudo económicos, para Portugal subsistir como povo autónomo, dentro das estreitas fronteiras portuguesas ?
Neste tempo era esta a inquietação, a ansiedade fundamental que animou a última grande época do reformismo liberal e expansão ultramarina. Mas como todos sabemos nada terminou bem para o regime. “O princípio do fim”.
Nestes encontros e desencontros com as estórias da história, verificamos que o quadro social em Portugal, cada vez mais acentuava o desnível entre as classes. A miséria sentia-se menos quando todos eram miseráveis.
O cavador não tem reservas, escolas, crédito.. Não tem eira nem beira. Não faz parte das colectividades locais, como centro de convívio resta-lhe a taberna .
A bíblica paz dos campos afunda-se na luta de classes e ambas as classes se consideram exploradas : a dos que trabalham porque recebem menos do que precisam, a dos que possuem porque lhes exigem mais do que podem .. Diz um relatório oficial datado de 1887 :«Esse fermento leveda e entretém nas classes ínfimas o ódio surdo contra as superioridades sociais. Tal é a razão que o latrocínio não é, a seus olhos, muitas vezes delito ou crime, é apenas uma vingança » .
A ambição é a riqueza dos pobres dos mais desfavorecidos, os trabalhadores reagem às novas condições de vida no século XIX, fogem dos campos e procuram emprego nas cidades. Mas as reais possibilidades de emprego não são proporcionais à procura, a passagem do mundo rural ao mundo burguês é estreita, apertada e difícil: há muitos prédios mas poucas fábricas, portanto muitos lugares de criada, mas poucos de trabalho masculino, a catástrofe adivinhava-se, como única saída a emigração para o Brasil, talvez tenha sido o maior êxodo migratório de sempre .
A emigração verificou-se das regiões de pequena propriedade; quase não há alentejanos entre os emigrantes . A explicação está em que para a longa viagem, era preciso dinheiro , e isso só se verificava nas regiões onde a maioria da população rural mantinha ainda alguns vestígios de propriedade: Minho, Douro, Beira Alta , Baixa e Litoral, o emigrante vendia a courela ou legitima isto é a porção de bens , que não poderia deixar de herdar, partia quase sempre sozinho , deixando na terra a família e as dívidas, a catástrofe era uma evidencia .
O numero de emigrantes regressados a Portugal não foi grande .A grande maioria partiu pobre e regressou pobre. Dizia-se á época que o Brasil era o cemitério dos portugueses, era este o quadro social de um regime com um fim mais que anunciado, O descontentamento era generalizado.
Na manhã de 11 de Janeiro de 1890 , uma nota inglesa exigiu do Governo de Lisboa que, até à tarde desse dia, mandasse retirar as tropas portuguesas que se encontravam no vale do Chire. Um cruzador esperava a resposta . O governo cedeu.
Esse ultimato foi verdadeiramente um dos factos mais importantes do Portugal do século XIX. Nunca creio eu, houve, antes deste, momento em que o Portugal moderno estivesse tão acordado e atento.
Estes dois factores conjugados, com a propaganda patriótica tão bem evidenciada a quando das comemorações do centenário de Camões, a proliferação do jornalismo político, do crescimento dos grémios e lojas maçónicas, vieram engrandecer não só descontentamento, como as fileiras do partido Republicano.
Na mui nobre Invicta cidade do Porto, chamada por muitos na época de feitoria inglesa, que aproveitando o descontentamento corporativo dos sargentos do exército, e a ressaca das humilhações diplomáticas de 1890, conseguiram levantar uns 800 soldados , e ao som da Portuguesa ocuparam a camara e aclamaram a Republica, os sinos da Lapa tocaram a rebate, a guarda municipal, reprimiu violentamente, a república não resistiu mais que umas horas, alguns morreram , outros fugiram , à maioria esperava os ao largo de Leixões o navio Moçambique, que os iria  levar para o exilio.
Estavam consumados os primeiros mártires da republica, foi o princípio, a 5 de Outubro de 1910 seria o fim .
Hoje assinalamos os 120 anos da primeira tentativa revolucionária, com o intuito de derrubar a monarquia.
A evocação do 31 de Janeiro há-de ser para nós hoje, não uma simples nostalgia que continua a levar às campas dos Vencidos a fidelidade reconhecida dos correligionários irmanados dos ideais da liberdade, da igualdade, da fraternidade, mas também uma afirmação viva desta nossa Segunda República continuadora das lutas que ao longo de mais um século, deram ao povo português a sua dignidade e autonomia cívica, sem as quais, quer no plano político, quer no ético, não há Democracia digna desse nome.
É por acreditar e defender os mais nobres valores morais da república. Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que republicano me confesso!!
Bem hajam 
Carlos Fernandes

O milagre das rosas

Conta a lenda que o rei D. Dinis foi informado sobre as ações de caridade da rainha D. Isabel e das despesas que implicavam para o tesouro real. Um dia, o rei decidiu surpreender a rainha numa das suas habituais caminhadas para distribuir esmolas e pão aos necessitados. Reparou que ela procurava disfarçar o que levava no regaço. D. Dinis perguntou à rainha onde ia e ela respondeu que se dirigia ao mosteiro para ornamentar os altares. Não satisfeito com a resposta, o rei mostrou curiosidade sobre o que ela levava no regaço. Após alguns momentos de atrapalhação, D. Isabel respondeu: "São rosas, meu senhor!". Desconfiado, o rei acusou-a de estar a mentir, uma vez que não era possível haver rosas em janeiro. Obrigou-a, então, a abrir o manto e revelar o que estava lá escondido. A rainha Isabel mostrou, perante os olhos espantados de todos, as belíssimas rosas que guardava no regaço. Por milagre, o pão que levava escondido tinha-se transformado em rosas. O rei ficou sem palavras e acabou por pedir perdão à rainha que prosseguiu com a sua intenção. A notícia do milagre correu a cidade de Coimbra e o povo proclamou santa a rainha Isabel de Portugal.
Bem hajam 
Carlos Fernandes

sábado, 25 de janeiro de 2014

Lenda de São João da Beira Baixa

O montante cristão não dava repouso à cimitarra muçulmana. Mais fortes os Nazarenos, ou mais felizes, levaram de roldão os sequazes de Mafoma. Repelidos de combate em combate, perseguidos sem mercê, era-lhes impossivel transportar todas as riquezas adquiridas durante séculos. Recorriam então ao expediente de as ocultar nos sítios, que julgavam mais adequados.
 Principia aqui a dar largas à sua expansibilidade a imaginação popular. Esses tesouros eram, no dizer do povo, guardados por mouras encantadas.
 O rei agareno de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima. Era formosa como uma visão do paraíso prometido por Maomé e o pai estremecia-a como a fibra mais sensivel da sua alma. Os cavaleiros cristãos das vizinhanças empregavam os maiores esforços para se apoderarem dos seus estados, cativarem a filha e assenhorarem-se dos seus bens e jóias.
 O rei quis resistir, abrigado com as muralhas da cidade, mas como as hostes assaltantes eram em número descomedido e a resistência seria uma loucura, resolveu fugir pelos carreiros mais escusos da serra, levando a filha e o resto das riquezas, que ainda não tinham sido postas em lugar seguro.
 Andaram, andaram durante todo o dia, mas ao anoitecer Fátima não podia dar mais passada, morria de cansaço. A conjuntura era temível. Como socorrê-la naquele descampado, no sítio mais agreste da serra? De súbito, na sua frente, abre-se um esplêndido caminho todo florido, calçado de pedras finíssimas, e ao cabo dele, um foco de luz que iluminava tudo como se o Sol brilhasse no Zénite.
 Era como um milagre operado pelo Profeta, a salvação que surgia a alguns passos. Então o rei, a filha e a comitiva sentiram a esperança renascer-lhes no coração. Seguiram a estrada que se lhes abria na frente e entraram num palácio resplandecente, tão cheio de coisas magníficas que todos se quedaram deslumbrados.
 O que depois se passou nunca ninguém o soube, mas nos dias imediatos viram os serranos subir e descer pelas encostas diversos pastores, que ninguém conhecia na localidade. Demoraram-se algum tempo por aqueles sitios e faziam repetidas visitas ao Coruto de Alfátema, nome por que se designava o cabeço. Um belo dia desapareceram e nunca mais ninguém lhes tornou a pôr a vista em cima.
 Esses pastores eram mouros disfarçados, e foi por indiscrição deles que se soube que uma boa fada, madrinha de Fátima, a prometera guardar na sua vivenda encantada, sempre jovem e formosa até que os fiéis sectários do Alcorão conquistassem de novo Portugal.
 Esta crença estava arreigadíssima no ânimo dos camponeses, e durante os séculos XII e XIII era enorme o pânico, na persuação de ver chegar os esquadrões mouriscos em busca da linda Fátima.
 A lenda ainda tomou mais corpo no espírito crédulo dos simples aldeões quando, poucos anos depois de os Cristãos tomarem Manteigas, se deu o acontecimento que vamos narrar.
 Uma pobre mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar, de madrugada, no dia de S. João, pelo Corista de Alfátema. Sentindo-se fatigada, sentou-se num dos muitos penhascos que por ali abundam para descansar e comer algumas côdeas de pão que trazia.
 A boroa, dura de muitos dias, quase não se podia tragar. Quando a desventurada dizia mal à sua vida por ter de ingerir um tão pouco alimento, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.
 Comeu alguns, e, lembrando-se dos filhos que choravam longe, encheu deles uma cesta que levava.
 Dirigiu-se lépida para a choupana, gozando antecipadamente da alegria que ia proporcionar às crianças. Qual não foi, porém, o seu pasmo, quando, ao destapar a cesta, em vez de figos se lhe deparam diamantes e reluzentes moedas de ouro.
 Estava rica. Mas a mendiga que minutos antes dera graças a Deus por ter só pão para saciar a sua fome e a dos seus, sentiu mordedura da ambição. Um cabaz de pedras preciosas e de boas dobras de ouro já era pouco para ela! Queria ser riquíssima.
 Volta apressurada ao Coruto. Mas o Sol, que subira de todo no horizonte e que refulgia agora no imenso céu sem nuvens, arrancava da superfície polida dos fraguedos miríades de cintilações ofuscantes. O encanto quebrara-se, os figos tinham-se sumido.
Presa de uma grande aflição e desespero, arrepelando os cabelos, ia para blasfemar, quando ouviu uma voz suavíssima cantar:

Era teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
Fonte BiblioVASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.776-778
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

A Alheira de Mirandela

A Alheira surgiu nos finais do século XV ( Casa da Cultura do Conselho de Mirandela).
Teve como causa próxima do seu aparecimento uma acção político-económica do rei D. Manuel definida pela expulsão dos judeus do país (Martins, 1983; Fernandes, 1986; Casa da Cultura do Concelho de Mirandela 1988).
Que os judeus ricos ficassem na sua Pátria, e mesmo praticando a lei de Moisés, que o fizessem. Desde que, claro está, pagassem as volumosas contribuições para o caso expressamente estabelecidos e que assim os discriminavam ( Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
A isto muitos se sujeitaram, quer por interesse, quer mesmo por amor á terra que os vira nascer, se bem que outros menos conformistas, e ainda que vendo-se espoliados de substancial naco dos seus bens se fossem de abalada para as terras da Itália, da França e da Flandres, levando consigo apenas sobras do estorpulado mas toda a sua rica cultura (Casa da Cultura de Mirandela, 1988).
Mas e os pobres? E os Judeus pobres também os havia? Sem posses para pagar nem para tentar mudança de vida na estranja, outro remédio não tinham senão deixar encharcar a cabeça com as águas do Baptismo, aprender o Credo e o Padre-Nosso e reverentemente passarem a recitá-los, a maior parte das vezes com duvidosa convicção, nas sombrias naves das Igrjas Cristãs. E assim nasceram os Cristãos Novos( Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Mas, ou porque sentissem de perto o frio do cárcere ou o calor das chamas do Santo Ofício, aos poucos, com os seus familiares e teres, e foram os pobres filhos de Israel escapulindo de cidades e vilas, buscando a segurança e calma que o frio torna em solidão, em terras para além do Marão (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Não paravam, no entanto, os esbirros da Inquisição que infiltrando-se nos quais pequenos e distantes lugarejos transmontanos, secretamente procuravam saber quem não trabalhava ao Sábado, quem não comia peixe sem escama nem carne de porco (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Muitos Judeus houve que descobriram no fabrico das alheiras uma forma de enganar os perseguidores ( Martins, 1983; Fernandes, 1986; Conceição, 1995).
Começaram a aparecer no cimo das confortantes braseiras que amenizavam o rigor das invernias daquelas frígidas terras, uns doirados e roliços enchidos, parecendo ressumar farta gordura de cervo recentemente abatido, que, por entre ténues cortinas de fumaça se enfileiravam em ar de abastança (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988 ).
E os políticos e delatores miravam a luzidia comida, tocavam a sua untuosidade, e acabavam muitas vezes por se empanturrar de comum com os visitado, por entre nacos de pão centeio e camadas de vinho da última colheita, assim terminado por concluir que homem que come daquele enchido de porco, Judeu não é mas Cristão e dos bons(Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Os perseguidos Cristão Novos em lugar de meter na tripa seca a carne do animal que a lei mosaica vedava, antes usavam a gorda galinha criada no seu terreiro, o fugidio coelho do mato, a anafada perdiz, tudo amassado no grosseiro mas gostoso pão da região, servindo de excipiente doirado azeite de vestutas Oliveiras e de condimento agressivo do alho Silvestre (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Mas os tempos passaram. E a alheira foi-se metamorfoseando. E venceu o porco. (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
A verdade é que com o decorrer dos tempos foi este animal quem melhor sabor começou a fornecer a este alimento (Martins, 1983; Fernandes, 1986; Conceição,1995).

Assim, hoje a alheira é um enchido essencialmente confeccionado com carne de cevado, nado e carinhosa mas interesseiramente criado no âmbito doméstico (casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
Realmente a alheira é rigidamente um manjar transmontano e no paladar apenas difere um pouco de casa para casa, de família para família que lhe fica vizinha, donde a estimulante competitividade que leva convicta e vigorosamente a afirmar sempre que a “minha alheira é melhor do que a tua” (Casa da Cultura do Concelho de Mirandela, 1988).
O costume alastrou por toda a região e a fama das alheiras tornou-se conhecida em todo o país, e os pedidos deste produto passaram a ser muitos. As populações transmontanas, para os satisfazerem, traziam as alheiras á estação do comboio mais próxima, que era Mirandela.
Deste modo, as alheiras que chegavam a todo o país tornaram-se famosas e passaram a ser conhecidas como Alheira de Mirandela .
O espírito empreendedor das gentes de Mirandela levou a que o fabrico e a comercialização da alheira se desenvolvesse em torno da sua cidade, mantendo reservado o seu saber fazer local

As matérias-primas utilizadas na sua confecção e o processo de fabrico muito próprio, que inclui a tradicional fumagem com a lenha seca e compacta das árvores que se desenvolvem nas particulares condições endafo-climáticas da região, conferem á Alheira de Mirandela características organolépticas únicas.
A notoriedade, consequência das características únicas e muito apreciadas da Alheira de Mirandela , fez com que este produto atingisse a reputação de que goza hoje em dia. E também porque são de facto as Alheiras de Mirandela que continuam a fazer perdurar o sabor original deste enchido.

Fotos : Raul Coelho 
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Gerir o risco Turismo de aventura


A temática da segurança na vertente da prevenção é a principal preocupação que todas organizações e empresas  de turismo de aventura  devem ter.
Tendo em consideração que em qualquer actividade, principalmente nas actividades ao ar livre, as mesmas se desenrolam  num meio incerto, é sobretudo importante o domínio das técnicas e a aplicação das regras de segurança . Por isso nessa perspectiva , a consciência para esta situação para monitores e animadores é fundamental e deve ser transversal em qualquer momento de planeamento destas acções.
É imprescindível em qualquer actividade estudar previamente o risco, de modo a que posteriormente e em função do mesmo seja implementada a prevenção adequada, já que não basta falar de segurança sem clarificar o conceito e analisar se existe uma efectiva preocupação com esta questão , porque acima de tudo a segurança e o bem estar de todos em actividade devem ser a máxima prioridade, até porque são factores determinantes para o êxito das acções que lhes oferecemos .
O risco está directamente relacionado com a capacidade de intervenção para o eliminar ou pelo menos minorar estas situações .Se assim acontecer mesmo sabendo que ele está sempre iminente com o conhecimento antecipado pode-se gerir as hipóteses segundo os recursos de intervenção disponíveis .
O risco é pois a probabilidade de um acontecimento vir a ocorrer ou a probabilidade de o mesmo não ocorrer.Neste caso, conforme o nosso comportamento ou procedimento adoptado, podemos aumentar ou diminuir as possibilidades de algo acontecer.
A gestão de riscos é uma parte importante e integrante do planeamento das actividades e da construção dos procedimentos de segurança pois com o domínio e controlo do risco, podemos sempre implementar mais regras de segurança , diminuindo dessa forma o controlo sistemático e a tendência para o acidente .

Nunca devemos partir para uma actividade qualquer que seja a sua dimensão, com o pensamento de que não vale a pena grandes preocupações com a segurança , porque a actividade é fácil, curta e até vamos acabar por ter sorte e vai tudo correr bem .
Nada mais errado, não existe sorte na segurança , existe sim responsabilidade em acautelar as atitudes e comportamentos de prevenção, bem como o domínio e controlo de todas as situações de risco .
No planeamento de qualquer programa de actividade é fulcral ter em atenção a exposição dos participantes ao risco . A percepção de todos os intervenientes para eventuais riscos torna-se desde logo potencialmente um caminho para encarar o desfecho da actividade de forma positiva, mesmo que aconteça qualquer eventualidade,sendo nesta circunstância a mesma encarada como um factor integrante do próprio desenrolar da actividade , mas naturalmente com efeitos minorados e sem consequências dado o controlo adquirido na fase de observação e preparação .
As técnicas de gestão de riscos , sumariamente , dividem-se em quatro momentos: a identificação dos riscos e dos perigos , depois a análise dos mesmos, passando pela a avaliação e finalmente o tratamento que devemos adoptar em função das circunstâncias, para eliminar ou, pelo menos atenuar sem acidentes os seus eventuais efeitos .Neste sentido , existem procedimentos e factores que podem ajudar , como por exemplo a liderança do monitor e coordenação o domínio das actividades:conhecer o manuseamento dos materiais, ferramentas e sua resistência : conhecimento de primeiros socorros e capacidade para interpretar condições naturais e meteorológicas .Estes são alguns factores que podem ser decisivos, tanto numa situação de acidente presente , como na preparação de recursos para os evitar.
Ignorar e não dominar as normas de segurança pode eventualmente originar problemas graves para quem participa  e naturalmente responsabilidades para quem organiza .
Venha fruìr   novas experiências, mas não arrisque, participe mas só com empresas certificadas e monitores devidamente habilitados,não facilite e divirta-se !!
Bem Hajam 
Carlos Fernandes 



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lenda de Almaceda

Estranha e impressionante, simultaneamente, esta lenda. Estranha, pela sua própria concepção natural, tão diferente de outras histórias no género. Impressionante, por evocar o mundo do sobrenatural, sempre tão próximo e tão afastado do nosso pensamento. 
E, por singular coincidência, escutei-a pela primeira vez, era eu ainda bambino irrequieto, numa noite de tormenta. A certa altura, nem sei porquê, disse que tinha visto uma caveira a espreitar pela janela, iluminada por um relâmpago. Foi o suficiente para a minha velha criada, a Maria do Rosário, tremer, benzer-se e correr a fechar a janela. Depois, tremendo sempre, e benzendo-se de quando em vez, contou-me a história que eu vou tentar reproduzir. A história da sua terra...

Há muitos, muitos anos, nesses terrenos onde hoje fica situada a freguesia de Almaceda, existiam apenas enormes extensões despovoadas. E por ali costumava correr no seu cavalo favorito um fidalgo de nome Rodrigo — jovem, rico, mas bastante aventureiro. Era ele órfão de pai e mãe, e vivia com sua irmã, D. Madalena, numa casa senhorial, rodeado de criados. Tudo, porém, o aborrecia. Só os passeios de manhãzinha ou ao entardecer, nos dias em que a chuva não vinha alagar os campos, lhe davam certo bem-estar. E quando o tédio começava a assediá-lo, como tenaz a apertar-lhe a garganta, D. Rodrigo fugia para a Corte ou para onde pudesse divertir-se e gastar o seu dinheiro...

Certa manhã de Março, mal acabara o Sol de surgir no horizonte, D. Rodrigo e D. Madalena montaram a cavalo e saíram para o seu habitual passeio. Ainda não estavam longe de casa quando, de súbito, o fidalgo estacou a montada, olhando fixamente um ponto. D. Madalena, apercebendo-se de que seu irmão ficara para trás, parou também o cavalo e indagou, curiosa: 
— Que estás a ver? 
D. Rodrigo sorriu. 
— Ou eu estou ainda a sonhar… ou junto àquele arbusto está urna caveira! 
Madalena olhou-o, desconfiada e medrosa. 
— Rodrigo! Que ideia a tua! Não brinques com essas coisas! 
O jovem, porém, insistiu: 
— Não estou a brincar. Ora repara! Vês... além? 
O coração da jovem bateu com mais pressa. 
— Sim... Parece que, na verdade... 
D. Rodrigo tornou-se brincalhão. 
— Vamos! Coragem!... Desce do teu cavalo e vem comigo cumprimentar a caveira! 
Madalena afligiu-se: 
— Rodrigo! Por favor! Tem mais respeito pelos mortos! 
Uma gargalhada do jovem fidalgo perdeu-se na extensão do terreno. 
— Respeito? Queres ainda maior do que estou a demonstrar? Chegamos ao apuro de interromper o nosso passeio, para lhe dirigir um cumprimento!... 
Madalena voltou o rosto, pálido pelo medo. 
— Rodrigo! Não gosto dessas brincadeiras, já te disse! 
O jovem aproximou-se da amazona. A sua voz soou ainda mais galhofeira: 
— Grande medrosa! Nem pareces minha irmã! Porque tremes assim? 
E apenas uma caveira que ali está! 
Olhando-o de soslaio, Madalena inquiriu na mesma voz medrosa: 
— Mas... donde teria vindo? 
Nova gargalhada de D. Rodrigo. 
— Minha tonta! Queres saber donde veio aquela caveira?... Do cemitério, com certeza! Aquilo por lá deve andar muito aborrecido e ela resolveu dar um passeio, como nós! 
Então, a jovem gritou, como que alucinada: 
— Rodrigo! Não brinques mais! 
Ele ria, olhando a irmã. 
— De que tens medo? Aquilo são ossos do corpo humano, nada mais.
— Bem sei. Mas devemos ter respeito por eles... Vamo-nos embora! Não me sinto bem aqui... 
— Pois vamos! Antes, porém, de abandonarmos este local, manda a etiqueta que desejemos a esta caveira um bom dia... 
— Rodrigo! Por favor! 
Mas o tom suplicante da irmã irritou-o. Achou por bem contrariá-la. Excitá-la. Continuou, sempre em tom de mofa: 
— E já agora... se, na verdade, a caveira saiu do cemitério por estar aborrecida... devo lembrar-lhe que, às vezes, também estou aborrecido... E, como resido aqui perto, tenho muito prazer em convidá-la para jantar hoje comigo! 
Madalena tapou o rosto com as mãos, numa irreprimível crise de choro.
— Que heresia, Rodrigo! Que heresia! 
E esporeando o cavalo, a jovem amazona voltou para casa, deixando atrás de si as gargalhadas impertinentes do irmão, que ria do seu pânico...
Contudo ainda a donzela galopava à vista, quando aos ouvidos de D. Rodrigo soou uma voz cava e pausada, vinda não se sabia de onde: 
— Cavaleiro! Não quero de forma alguma desapontar-te... Se isso te diverte, podes estar certo que esta noite não esquecerei o teu convite... 
O jovem fidalgo olhou em volta. Ninguém, além dele próprio e da figura vaga da irmã que continuava galopando, a perder-se na distância... 
O riso morreu-lhe na garganta. Seria uma alucinação dos seus sentidos? Sentiu-se inquieto. Estava já arrependido da sua brincadeira macabra. Bem lhe tinham recomendado mais respeito pelos mortos...
Conforme reza a história que estou a reproduzir, D. Rodrigo ficou-se ainda uns momentos a olhar a caveira no solo. Sem voz. Sem gestos. De súbito, como louco, esporeou o cavalo e seguiu para o mosteiro mais próximo, onde contou o sucedido. Os frades, porém, julgaram-no ensandecido e apenas lhe deram uma pequena cruz para colocar no peito, a qual o livraria dos ataques do Demónio. Mais reconfortado, D. Rodrigo voltou ao solar onde a irmã o esperava, transida de pavor. 
Ao vê-lo entrar, ela correu ao seu encontro: 
— Tardaste tanto! São quase horas de jantar e eu morro de medo! 
Desta vez ele não brincou. 
— Sossega! Tudo correrá bem. Trago comigo esta cruz que me deu o irmão Gregório. 
Madalena olhou-o com espanto. 
— Mas... 
Ele interrompeu-a. Os seus modos, agora, eram solenes. 
— Ouve, Madalena! Se alguém estranho vier jantar hoje connosco, teremos de o receber como bons anfitriões. Já mandei colocar mais um talher na mesa. E avisei o nosso criado José de que a visita esperada hoje vai causar-lhe grande pasmo. Portanto… não se deve admirar. 
A jovem olhou o irmão, num misto de assombro e medo. 
— Tu... tu pensas que, na verdade… alguém estranho virá aqui?... 
Ele acenou com a cabeça afirmativamente, deixando a irmã ainda mais trémula. 
Vai para o teu quarto. Hoje dispenso-te de jantar. 
Madalena gritou, agarrando-se a ele: 
— Nem que morra de medo, hei-de ficar contigo! Não te deixarei sozinho! 
Umas pancadas fortes, na porta da entrada, interromperam a conversa. O dono da casa sorriu com esforço. 
— Aí está a nossa visita! E pontual... 
Balbuciando quase, Madalena segredou: 
— Benze-te, Rodrigo! Pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos... 
Um grito do criado José interrompeu a oração de Madalena e logo uma voz cava, soturna, se fez ouvir.
— Diz a teu amo que sou o seu convidado desta noite. 
Tentando uma segurança que não sentia, o dono da casa ordenou: 
— Entre, por favor! Tem o seu talher junto ao meu. Como vê... esperava-o! 
E diz a mesma história remota que estou a evocar que um vulto sem rosto surgiu no salão. D. Madalena caiu numa cadeira, quase desfalecida. D. Rodrigo chamou a si todas as suas forças para mostrar-se sereno. Convidou, a tentar uma tranquilidade inexistente: 
— Queira sentar-se... 
Mas a voz cava e soturna voltou a fazer eco no salão: 
— Não vim aqui para cear contigo neste palácio. Vim apenas buscar-te! 
D. Rodrigo empalideceu. 
— Não compreendo... 
Entre soluços, a voz de D. Madalena murmurou: 
— Senhor meu Deus! Não nos desampareis! 
Mas já o vulto fantasma informava com autoridade: 
— Quero que me acompanhes à minha morada. 
— E... onde mora? 
— Muito perto da igreja. Vem comigo. Sou eu, agora, quem te convida. Preciso falar-te! 
Reunindo todas as suas forças, D. Madalena gritou: 
— Não vás, Rodrigo! Pode ser uma alma perdida! 
A voz cava soou, de novo, mas desta vez num tom zombeteiro: 
— Acaso terás medo, jovem fidalgo? Tu, o valente aventureiro de tantas noites de orgia? 
A jovem suplicou ainda: 
— Meu irmão! Manda-o embora! Manda-o com Deus! 
Mas D. Rodrigo sentiu que não podia fugir. Que não devia fugir. Que não queria fugir. Colocou a sua capa sobre os ombros e saiu, deixando a pobre Madalena a desfazer-se em lágrimas e em pavores... 
Quando a porta do palácio se fechou sobre os dois vultos, o frio cortante da noite veio bater no rosto de D. Rodrigo. Não havia luar. Os gritos das aves nocturnas ouviam-se de vez em quando, soando como alerta. O jovem fidalgo tinha um peso enorme no peito, mas tentava não mostrar medo. 
Começaram a andar. O vulto sem rosto à frente. D. Rodrigo um pouco mais atrás. Nem uma única palavra trocaram pelo caminho. Apenas os passos ressoavam... Nesse semi-silêncio, o jovem ia recordando o seu passado. Passado breve ainda, sim, mas já cheio de nódoas. E diz-se que o jovem D. Rodrigo, nessa hora amargurada, prometeu a Deus, intimamente, modificar-se, se não lhe acontecesse mal algum...
Chegados ao portal da igreja donde mal se distinguiam, ou antes, apenas se adivinhavam as cruzes do cemitério, D. Rodrigo involuntariamente estacou. Então o vulto sem rosto voltou a falar: 
— Entra na igreja comigo! Conseguimos ser pontuais. 
Efectivamente, no relógio da torre batiam pesadas e soturnas doze badaladas. 
O jovem fidalgo voltou a hesitar. Mas já o vulto sem rosto gritava na noite escura: 
— Entra! Não há tempo a perder! Esperam-me lá em baixo e já sabem que vem comigo um companheiro. 
Os pensamentos chocaram-se no cérebro de D. Rodrigo. A fim de ganhar tempo, D. Rodrigo perguntou: 
— Para onde me leva? 
Então, soou uma gargalhada. Gargalhada horrível. Gargalhada lancinante. Gargalhada que ficou a repercutir no espaço. Depois o vulto falou de novo, enquanto empurrava suavemente o jovem fidalgo, obrigando-o a entrar na igreja deserta: 
— Vais conhecer o meu palácio. Vês esta lousa aberta? É a minha morada... Vamos, desce! 
O moço fidalgo compreendeu que tinha de reagir. Estava à beira do abismo. Revoltou-se, enérgico, juntando os restos de coragem: 
— Para que hei-de descer? 
— Tens medo? 
Era um desafio. Briosamente, D. Rodrigo respondeu: 
— Não! Quem foi sepultado na igreja não pode ser uma alma penada!
Segunda gargalhada estridente fez fugir os pássaros nocturnos que lá se haviam refugiado. 
— Nessa parte é que reside o teu engano! O teu e o dos que me sepultaram. Julgaram-me bom em vida... Mas só Deus conhecia os meus grandes erros. Por isso Ele condenou-me! 
— Condenado? 
— Sim! E agora, já que troçaste de mim, quero que desças, para saberes como é a minha ceia! 
Embora arrepiado, compreendendo mesmo que estava a ceder terreno, D. Rodrigo ainda quis defender-se. 
— Não vou! Deus proíbe-me que me enterre vivo! 
O vulto sem rosto vomitou uma praga. E acrescentou: 
— Se não fosse a cruz que trazes ao peito, eu te obrigaria a descer! E lá em baixo sofrerias comigo o fogo da redenção! 
Para si próprio, o fidalgo murmurou uma prece em que punha toda a sua alma: 
— Que Deus me acuda! 
Instantaneamente o vulto sem rosto pareceu acalmar-se. A sua voz soou com mais brandura:
— Fui na terra um aventureiro como tu, sem respeito pelas coisas sagradas. Um homem fútil e leviano. Só fazia caridade por ostentação. Que a minha pena te sirva de alerta! Cada vez que encontrares algum corpo sem vida, lembra-te da alma que o abandonou, pois ela poderá precisar das tuas orações. Em vez de escarneceres… reza! Quando se te depare um osso humano, enterra-o com carinho em terreno sagrado, orando pelo eterno descanso daquele a quem pertenceu! Que a tua alma ceda à caridade e à compaixão pelos mortos! Que a tua alma ceda à verdade que estou a transmitir-te, pois começo a ver luz no meu caminho! Alguém está orando por mim. Alguém neste momento faz promessas para libertar-me!... É a tua irmã! Por isso te dou um bom conselho: Vai-te e não esqueças quanto te disse, se quiseres também salvar-te! Que a tua alma ceda ao orgulho que foi teu apanágio, para que nela ocupe lugar o amor ao próximo!
A voz cava e soturna deixou de se ouvir. O vulto sem rosto desaparecera pela lousa aberta. Na igreja o silêncio era pesado. Então, semilouco, D. Rodrigo voltou a correr para casa. A correr e a rezar. E a repetir, no meio das suas orações, numa estranha obsessão: 
— Que a tua alma ceda! Que a tua alma ceda... 
Chegando à porta do solar, D. Madalena, ali o esperava, sempre a rezar, caiu-lhe nos braços, chorando de comoção. 
— Graças a Deus! Graças a Deus voltaste! 
D. Rodrigo voltara, sim. Mas a sua razão durante algum tempo continuou turbada. Amiúde e sem razão plausível, ele repetia, monocordicamente: 
— Que a tua alma ceda! Que a tua alma ceda... 
E o povo dos arredores, ouvindo-o assim, começou a tratá-lo por Almaceda, segundo nos conta a história velhinha... 
Tempos depois, já refeito do choque brutal que experimentara, reorganizou a sua vida, tornando-a sã, e distribuiu parte das suas terras pelos pobres que ao seu solar vinham pedir abrigo. E foram esses mesmos pobres, chegados das terras mais distantes, que acharam por bem denominar aquele local onde iriam construir as suas casas como a Terra do Almaceda, mais tarde apenas Almaceda, em homenagem ao fidalgo que tanto os ajudava.


Fonte BiblioMARQUES, Gentil
Bem hajam 
Carlos Fernandes

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Festa das Papas- Póvoa da Atalaia

Apesar da chuva que caiu no último domingo, as gentes da Póvoa da Atalaia saíram à rua para dar continuidade a uma tradição cuja origem já se perdeu na memória mesmo das gerações mais antigas da aldeia. A terra de Eugénio de Andrade celebra, no terceiro domingo de Janeiro, a já célebre Festa das Papas, que, curiosamente, coincidiu este ano coincidiu com o nascimento do poeta.
Reza a lenda que, em tempos remotos, a região foi vítima de uma praga de gafanhotos. A população da Póvoa da Atalaia, devota fervorosa de São Sebastião, tratou de fazer uma promessa ao padroeiro para que poupasse a aldeia e protegesse as colheitas, constituídas maioritariamente por cereais. Em troca, oferecer-lhe-iam papas de carolo e coscoréis, feitos com o que resultasse das colheitas salvas. Conta-se também que todas as terras vizinhas sucumbiram à terrível praga, mas que a Póvoa da Atalaia foi poupada. Mais, os pequenos predadores foram morrer, por milagre, à porta da capela de São Sebastião situada na aldeia. Só restou então aos seus habitantes cumprirem a promessa, o que acontece ao terceiro domingo de Janeiro desde que há memória, para a realização de festejos em honra de São Sebastião. Assim, ano após ano, metade dos lares da Póvoa da Atalaia ficam encarregues de elaborar doses industriais de papas de carolo. Um chafariz, no centro da aldeia, divide os bairros que, alternadamente, se encarregam de preparar a festa em grupos de 25 famílias.
Este ano, a tarefa coube a Maria Gonçalves, que despendeu um total de 30 quilos de milho branco e outras 30 dúzias de ovos. Mas há todo um trabalho de fundo a levar a cabo, para além da confecção das papas. «É preciso providenciar cestos para as levar em cortejo até à Capela de São Sebastião e decorá-los com panos de linho bordados ou debruados com rendas», explica a mordoma. Depois da missa, as 25 mordomas, com os cestos à cabeça, desfilam em cortejo até à capela do padroeiro onde as papas são benzidas e distribuídas por toda a população. Aí, são os homens que estão de serviço. Envergando panos de linho bordados nos ombros e com a ajuda de pequenos açafates, também decorados com linho, eles distribuem as papas, cortadas em pedaços, pelos fiéis presentes. A devoção a São Sebastião é de tal ordem que até existe quem leve as papas para casa, para as deitar aos animais, com o intuito de «afastar maus-olhados, enfermidades e outras desgraças», garante Maria Gonçalves, lembrando que «sempre foi assim» que desde que nasceu.

Rosa Ramos
Jornal Interior 
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ary o poeta do povo

Oriundo de uma familia da alta burguesia, José Carlos Ary dos Santos, conhecido no meio social e literário por Ary dos Santos, nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937.
Aos quatorze anos, a sua familia publica-lhe alguns poemas, considerados maus pelo poeta. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Foi nessa altura que Ary dos Santos abandonou a casa da família, exercendo as mais variadas actividades para seu sustento económico, actividades essas que passariam pela venda de máquinas para pastilhas até à publicidade. Contudo, paralelamente, o poeta não cessa jamais de escrever e em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas " A Liturgia do Sangue".
Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984.
Com ele, os festivais RTP da canção atingiram alguma dignidade. Poeta empenhado nas lutas sociais do seu tempo, foi autor (com Nuno Nazareth Fernandes, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Luís Tinoco e outros) de algumas belas canções. "Menina", por Tonicha, "Desfolhada", por Simone de Oliveira e sobretudo a "Tourada", com Fernando Tordo, foram algumas das suas canções de maior sucesso nos festivais anteriores ao 25 de Abril.
Com algum escândalo à mistura: primeiro, no ano da "Desfolhada", onde Ary teve a "ousadia" de escrever um verso que fez corar as mentes puritanas da época ("quem faz um filho fá-lo por gosto"); depois com "Tourada", que esteve mesmo para ser impedida de representar Portugal no Eurofestival.
Após a Revolução, Ary continuou a escrever canções: "Portugal Ressuscitado", escrita em cima dos acontecimentos, foi a primeira canção sobre o 25 de Abril, e muitas se lhe seguiram, algumas de cunho militante e circunstancial (como o "Fado de Alcoentre"), outras capazes de resistir à passagem do tempo, como "Estrela da tarde" ou os "Putos", ambas cantadas por Carlos do Carmo.
Ary dos Santos foi um dos mais talentosos poetas da sua geração, conhecido pela sua linguagem irreverente e ágil e que contribuiu de grosso modo para a viragem de música popular portuguesa. Como ele próprio dizia, a poesia era a maneira que ele tinha de falar com o povo porque ser poeta é escolher as palavras que o povo merece.

                           «…Serei tudo o que disserem
                           por temor ou negação:
                           Demagogo mau profeta
                           Falso médico ladrão
                           Prostituta proxeneta
                           Espoleta televisão.
                           Serei tudo o que disserem:

                           Poeta castrado não!» 
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

História da Sopa da Pedra

Era uma vez um viajante que andava de país em país, de terra em terra. Um dia quando estava de passagem por uma pequena aldeia reparou que a sua comida tinha acabado, e já estava a ficar com muita fome.

Foi andando de um lado para o outro a pensar numa forma de arranjar comida. Tinha muita vergonha de ir pedir, mas parecia que daquela vez não tinha outra hipótese.

Enquanto ia andando deu um pontapé numa pequena pedra que estava no chão, era uma pedra muito lisa e bonita, foi então que teve uma ideia de conseguir almoçar sem sentir tanta vergonha.

Bateu à porta de uma casa, que parecia ser de um grande agricultor da região.
Quando o dono da casa abriu a porta o viajante disse-lhe:
– Bom dia senhor, eu sou viajante e trago comigo uma pedra mágica capaz de fazer a melhor sopa do mundo, quer provar?

Ao dizer isto retirou do bolso uma pedra muito lisa e redonda. Era parecida com outras que o agricultor conhecia, mas como gostava muito de sopa decidiu aceitar provar a tal melhor sopa do mundo.
O viajante entrou e pediu uma panela grande com água e um pouco de sal, colocaram a panela ao lume e a pedra lá dentro. Quando a água começou a ferver o viajante provou e disse:

– Está quase pronta, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas batatas.
– Oh homem! Não seja por isso, eu sou um grande agricultor desta região, batatas é coisa que não me falta.
– Obrigado, assim a sopa vai ficar muito melhor.

Passado mais algum tempo voltou a provar.

– Está quase, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas cenouras

O agricultor lá foi buscar as melhor cenouras que tinha em casa.
Após provar várias vezes o viajante foi pedindo outros vegetais, couve, cebola, feijão, entre outros. Quando a sopa já estava rica em vegetais, o viajante disse:

– Caro amigo, a sopa está a ficar uma delícia.

O agricultor mal podia esperar para provar a sopa, que é uma coisa que ele adora.
O viajante após provar mais uma vez pediu:

– Oh amigo esta sopa ficava ainda melhor se lhe pusermos um pouco de carne de porco, tem ai alguma coisa? Chouriço, por exemplo.
– Mau, mau, já lhe disse que sou agricultor, coisas dessas não faltam cá em casa.

Mais uma vez foram colocando algumas carnes na sopa.
Provou mais uma vez e disse com um grande sorriso:

– Está pronta!!!
– Já não era sem tempo, vamos lá provar essa sopa

O viajante serviu a sopa para os dois.
Depois de a provar, o agricultor exclamou:

– Tinha razão, é mesmo a melhor sopa que já comi até hoje, essa sua pedra é realmente mágica. Não me a quer vender?
– Não está à venda, é muito valiosa para mim, foi-me oferecida por um mago de um país distante.
– Muito bem, obrigado na mesma por me ter deixado provar esta sopa.
– Obrigado eu.

Despediram-se e o viajante continuou a sua viagem por outras terras, utilizou várias vezes a sua pedra mágica e assim conseguiu comer sem ter vergonha de pedir e foi desta forma que a receita da sopa de pedra foi passando de terra em terra e hoje ainda a podemos provar em vários locais, com diferentes receitas.
Bem Hajam 
Carlos Fernandes 
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domingo, 12 de janeiro de 2014

Ora Eça ........


Resulta o fascínio de Tormes, Meca do roteiro sentimental do queirozianismo, de ser simultaneamente palco de grande parte de uma obra prima literária – A Cidade e as Serras e casa-museu Eça de Queiroz. Pode aí confrontar-se o visitante com expressivos objectos que lhe pertenceram: a mesa alta onde escrevia de pé; a cabaia que o seu amigo Bernardo Pindela lhe trouxe do Oriente; as pinturas e gravuras que decoravam a sua casa de Neuilly, em Paris; o seu mobiliário; objectos de uso pessoal e também o que resta da sua biblioteca, de que fizemos o registo completo no Suplemento do Dicionário de Eça de Queiroz (pp.58-69). São cerca de 400 livros, alguns encadernados com as iniciais do escritor, registo este que tem servido de preciosa fonte de informação a alguns especialistas.

Chegado ao portal solarengo de Tormes e entrando ao terreiro lajeado de granito, mal compreenderá o visitante que Eça tenha atribuído àquela casa, quando a visitou pela primeira vez, em 1892, a designação de «feia, muito feia» e até de «hedionda». Não admira, porque se lhe deparou, mais do que propriamente uma casa, um vasto celeiro onde os caseiros guardavam o milho e as alfaias agrícolas. «Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam através dos rasgões manchas de céu», informa-nos Zé Fernandes. Janelas com vidraças só as havia no quarto em que Eça dormia, onde se encontra hoje a sua biblioteca.

Sem nada ter perdido do carácter essencial da feição primitiva, a casa, hoje sede da Fundação Eça de Queiroz, apresenta o conforto, a dignidade e o arranjo maior que teria encantado decerto o seu patrono. Um guia percorre sala por sala, relacionando tudo com a vivência de Jacinto, terminando o percurso na encantadora capelinha do século XVI que é a parte mais antiga da casa. O rés do chão, outrora adega, tem agora um pequeno auditório que muito bem serve os cursos de Verão, queirozianos e outros, que frequentemente lá se efectuam.

«Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, donde já subia tenuamente a névoa de algum fundo ribeiro». Parta pois o visitante, terminada a visita à casa, a caminho da eira, de onde à noite poderá contemplar um «sumptuoso» céu estrelado, e terá diante de si o panorama grandioso das serras para além do rio Douro, de que apenas descortinará uma nesga, se as barragens, lhe derem altura. Cá em baixo, no vale, verá um pequeno cemitério onde repousam os restos mortais de Eça.

Rente à eira, um pouco abaixo, passa um caminho que vai descendo, sinuoso, em direcção a um grupo de casas, o lugar de Cedofeita. Há que ir até lá, porque no regresso terá o visitante a visão que Eça experimentou, decerto alvoroçado, quando viu aquela casa pela primeira vez, com uma sensação nova e, como Jacinto, com o «espírito aguçado» de proprietário. E se tiver o trepar «fácil e condescendente» desça à estação de caminho de ferro, junto ao Douro, onde Jacinto e Zé Fernandes desembarcaram e de onde partiram para a ascensão da serra, por entre «espertos regatinhos», «grossos ribeiros açodados», carvalhos, macieiras, azinheiras, laranjais rescendentes e melros cantantes.

A quinta, hoje especialmente preparada para a produção de um «esperto, fresco e seivoso» vinho branco, Tormes, de seu nome, apresenta, aqui e além, construções rurais primitivas, as antigas casas de caseiro de Jacinto, duas delas já recuperadas, estando a chamada «Casa do Silvério»,com quatro quartos, cozinha e lareira preparada para receber turistas. Do seu terreiro exterior poderá experimentar jacínticas «iniciações», ao contemplar «o enegracimento dos montes que se embuçam em sombra; os arvoredos emudecendo, cansados de sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado; o cobertor de névoa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales; um toque sonolento de sino que rola pelas quebradas e o segredado cochichar das águas e das relvas escuras…»

Vasta matéria de meditação e de confronto com a realidade que suporta a ficção romanesca pode proporcionar Tormes e não só com A Cidade e as Serras, porque nessa região se passa também A Ilustre Casa de Ramires. Do outro lado do Douro, na margem esquerda, tem o visitante o que resta do mosteiro de Cárquere (Craquede no romance),onde em construção românica se encontra o panteão medieval dos Castros, almirantes do reino, transfigurado no romance em panteão dos Ramires.

De passagem para a outra margem poderá o visitante almoçar em Cinfães e usufruir uma das paisagens mais belas de rio e serras que esta região lhe oferece. E já agora lhe direi que, se for camiliano, poderá ver a casa do Lodeiro, muito perto da casa de Tormes, que o autor do Amor de Perdição frequentava, onde se passou parte do drama autêntico da infeliz Fanny Owen, tão bem narrado por Agustina Bessa Luís no romance homónimo. Aqui, como em vários outros lugares do Norte, as geografias camiliana e queiroziana caminham a par. Estas e outras perspectivas culturais e também prandiais, lhe pode oferecer o «alto lugar» de Tormes, o mais aliciante de todos os lugares queirozianos


A. CAMPOS MATOS
 Bem Hajam 
Carlos Fernandes 

Óbidos uma história de encantar

A Vila de Óbidos guarda séculos de história entre as suas muralhas que em tempos fortificavam a vila derivando daí o nome Óbidos do termo latino oppidum, significando «cidadela», «cidade fortificada».
Com um vasto património de arquitectura religiosa e vestígios histórico-monumentais, a origem da vila de Óbidos remonta ao século I, à cidade de
Eburobrittium. Romanos, visigodos e árabes foram povos que marcaram presença por estas paragens.
Como porto de mar, Óbidos deve ter chamado a atenção dos vários povos cujo domínio sucessivamente se exerceu no ocidente da Península; no decurso desses sucessos, os Romanos decerto, e com certeza os invasores muçulmanos, a fortificaram. Não falta mesmo quem veja em certas parcelas ainda existentes uma feição mourisca. De resto, pode intuir-se a resistência que se crê ter aí encontrado a hoste de D. Afonso Henriques, quando em 1148, após a conquista de Santarém e Lisboa, o nosso primeiro Rei lançou-se na tarefa de apossar-se de toda a região vizinha.
Os subsequentes progressos construtivos dessas fortificações acompanharam de algum modo os sucessos da história local.

Em carta foral de 1153 há referência no castelo de Óbidos; e do reinado seguinte, o de D. Sancho I, resta o testemunho duma inscrição na Torre do Facho que alude a obras então realizadas. Rodaram os anos, e, volvido um século, eis que Óbidos enfileira entre as terras que, leais ao deposto D. Sancho II, se negaram a reconhecer autoridade ao Conde de Bolonha, futuro D. Afonso III, resistindo em 1246 sem desfalecimentos, vitoriosamente, nos ataques que contra a vila e o castelo moveram as hostes afonsinas, e dando assim notável exemplo de indefectível lealdade, que o próprio regente, tornado Rei, veio a reconhecer, e mesmo a homenagear.

Essa possibilidade de invencível resistência mostra que já então Óbidos era povoação muralhada, situação perfeitamente harmónica com a sua importância e desenvolvimento demográfico, não só porque – embora seja desconhecido o seu foral antigo – há documento de 1254 que a mostra em pleno desenvolvimento municipal, mas também por saber-se que em 1259 já ali estavam edificados quatro templos. De D. Dinis, monarca restaurador de tantos castelos, há notícias da sua acção no de Óbidos.
No tempo de D. Fernando, uma lápide recorda a construção, em 1375, da grande torre geralmente considerada de menagem, devendo todavia observar-se o que a respeito desta sua função opinou um erudito historiador militar, o falecido coronel Costa Veiga, o qual, a propósito de certa descrição do castelo de Lanhoso, entendeu oportuno aludir a torre de menagem do de Óbidos, escrevendo o seguinte; «A torre referida (de Lanhoso) é, sem dúvida, a de menagem, pois nos aparece com as características essenciais: base maciça e sobrelevada de alguns metros, com porta à qual se sobe do terrapleno interno por uma escada de madeira. Essas características, cumpre dize-lo, observam-se igualmente na de D. Dinis, do castelo de Óbidos, que julgamos haver sido primitivamente a de menagem, e não a de D. Fernando».

Quando nos fins do século XIV se abriu a crise dinástica que elevou ao trono o Mestre de Avis, D. João, era alcaide-mor do castelo de Óbidos um Fidalgo chamado João Gonçalves, que por exagerado sentimento de lealdade à filha do falecido monarca, a infanta D. Beatriz, herdeira do trono, se colocou ao serviço do rei de Castela, seu marido, e veio a morrer na batalha de Aljubarrota.
No tempo de D. João II andou Óbidos muito falado na Corte, e é presumível que o castelo algo beneficiasse com isso. Realmente foi essa a terra escolhida pela rainha D. Leonor para acalento de sua mágoa após a desastrosa morte de seu filho único, o príncipe D. Afonso, e os banhos termais de Óbidos foram confrontados com os de Monchique em 1494 para tratamento do monarca, então em curso da doença que lhe veio a ser fatal.
Quanto a D, Manuel I, que deu a Óbidos foral novo em 1513, não há, porém, duvida de ter ordenado a realização de alguns melhoramentos no castelo, pois destes ficou testemunho material claramente expressivo.

Depois disso, atravessando os séculos sem casos de guerra que se inserissem na sua história, o castelo de Óbidos, já desprovido de eficiência militar, mas ainda bem conservado, teve-os todavia nas suas vizinhanças por ocasião das Invasões Francesas, quando, em 1808, o exército de Junot, primeiro invasor, se viu hostilizado pela sublevação das populações e combatido pelas forças militares anglo-lusas, pois nas proximidades da via se travaram as escaramuças que preludiaram a derrota dos franceses na batalha da Roliça, também ali próxima.
Vila de Óbidos fez parte do dote de inúmeras rainhas de Portugal, foi local de preferência para descanso ou refúgio das desavenças da Corte.
A extensa muralha do Castelo de Óbidos, que recebeu a 16 de Fevereiro de 2007 o diploma de candidata como uma das sete maravilhas de Portugal, rodeia as casas caiadas de branco com cunhais pintados de azul ou amarelo ou de traços medievais que são o cartão-de-visita desta Vila tão acarinhada pelos seus habitantes e tão apreciada pelos milhares de turistas que por aqui passam.
Bem hajam 
Carlos Fernandes 



sábado, 11 de janeiro de 2014

"Tomates é para os Fracos"

As comemorações a S. Gonçalinho podem durar cinco dias seguidos, normalmente ocupando o Sábado e o Domingo mais próximos do 10 de Janeiro e encerrando na Segunda-feira ; Anual
A Festa de São Gonçalo é uma celebração religiosa realizada em Aveiro, onde o Beato é carinhosamente tratado pelo diminutivo “Gonçalinho”. A celebração decorre actualmente ao longo de cinco dias, centrando-se no dia 10 de Janeiro, dia do falecimento do santo. A festa, celebrada no bairro da Beira-mar, inclui rituais de socialização na capela de S. Gonçalo e nos espaços adjacentes, dos quais se destacam as ofertas votivas, nomeadamente arremesso de cavacas, fogo de artifício sobre um dos canais da ria, bailes populares e concertos, romaria pelas ruas estreitas deste bairro e outras manifestações, como a chamada “dança dos mancos”. A passagem de testemunho de cada Comissão de Festas para a do ano seguinte traduz a natureza reprodutiva da celebração e introduz um outro ponto alto na festividade com a entrega dos “ramos” aos novos mordomos.
 A Comissão das Festas de São Gonçalinho, composta pelos mordomos, detém a responsabilidade de organizar a festa e velar pela sua preservação e das tradições culturais que lhes estão associadas. A Festa de São Gonçalinho, no bairro da Beira Mar em Aveiro, decorre durante cinco dias, com o seu ponto alto no fim-de-semana, ocasião para o maior número de arremessos do alto da capela como pagamento de promessas, ao mesmo tempo que bandas filarmónicas e artistas de música pop actuam em palco, normalmente montado nas imediações da capela, e (embora esporadicamente) se ateiam os madeiros para saltar a fogueira.

Domingo é o dia mais nobre dos festejos, devidamente assinalado pelo fogo de artifício nocturno sobre os canais da ria. Este é também o dia em que são anunciados, pelo pároco da Vera Cruz, durante a Eucaristia, o nome dos mordomos da festa para o ano seguinte. Outro momento alto da celebração tem lugar na segunda-feira, com a passagem de testemunho da Comissão de Festas que se formaliza com o cortejo da entrega do ramo e com a “dança dos mancos”. Estes dois acontecimentos tanto podem ser encarados como uma espécie de desenlace dos momentos altos da celebração, como momentos de um outro ponto dramático, vivido não no círculo alargado dos visitantes, mas sim no círculo mais restrito da mordomia.

O tempo diário da festa está organizado diferentemente ao longo das 24 horas. A manhã e o princípio da tarde são normalmente ocupados com a visita da população escolar, nomeadamente do pré-primário e do primeiro ciclo, à zona da capela. Sensivelmente a partir do meio da tarde, principiam os arremessos das cavacas, que prosseguem pelo menos até à meia-noite. Ao mesmo tempo, actuam as bandas filarmónicas e outros artistas convidados. 

Todos estes acontecimentos ocorrem no espaço característico do bairro da Beira-mar, onde a Capela de S. Gonçalinho está edificada, sendo a sua construção do início do século XVIII. À semelhança de outras festividades tradicionais portuguesas, à centralidade da capela há que acrescentar as zonas imediatamente vizinhas, nomeadamente, e em primeiro lugar, o largo do mesmo nome e, num segundo passo, a Rua de Antónia Rodrigues, o largo da Praça do Peixe e o cais dos botirões. Em terceiro, deve ser considerado o conjunto de ruas e travessas da freguesia da Vera Cruz, que podem ser percorridas festivamente em diferentes combinações consoante os anos. Com efeito, durante o cortejo da entrega de ramos, em que tem lugar a mencionada passagem de testemunho aos novos mordomos, a intensidade festiva abandona temporariamente a zona da capela e transfere-se para esse percurso deambulatório, desenhado em função das habitações dos novos mordomos. Esta celebração da entrega de ramos é acompanhada por uma pequena banda filarmónica, que toca marchas, encabeçada pelos dirigentes da Comissão de Festas e pelos portadores dos ramos, seguindo pelas ruas do bairro. As portas das casas dos novos mordomos devem estar abertas para que os mordomos antigos e os ramos possam entrar. 

Mas há ainda que voltar à centralidade da capela, para retomar um outro eixo de análise espacial. A subida à cúpula da capela, para cumprimento de promessas, constitui a experiência do plano vertical, que se pode traduzir numa nova relação entre o alto e o baixo. Ao subir a escada em caracol da capela, e ao chegar ao estreito terraço que corre a toda a volta, o devoto passa do mundo terreno ao mundo celeste. Não é difícil imaginar que, até há bem pouco tempo, o olhar se poderia espraiar livremente acima do casario, apropriando-se do espaço inteiro da cidade, dos canais da ria e das marinhas de sal. Mas essa subida à cúpula tem, apesar de tudo, uma outra característica fundamental: é que, além do movimento dos olhos, o devoto tem a obrigação do movimento das mãos e dos braços. Ou seja, ele é pagador de promessa. Esta promessa é esta cumprida em cavacas, pães duros em forma de palmeta, cobertos de calda de açúcar branco. Não se trata de lançar o saco inteiro da promessa, mas sim de lançar as cavacas, uma a uma, sublinhando com o gesto aquilo que os olhos procuram. 

Estes arremessos, anunciados pelo repique da sineta, resultam do cumprimento de promessas. Do alto, o “pagador” entrega as cavacas ao Santo, lançando-as paradoxalmente para baixo, escolhendo simbolicamente os “humildes” que se empurram no largo. É localmente considerado “de tradição” que as cavacas que caem ao chão são abençoadas pelo Santo. Mesmo quando se pretende escolher a quem entregar as cavacas, tal gesto, se apalavrado previamente, ficará sempre às vicissitudes da sorte, ou aos desígnios do Santo, que pode fazer com que a “doação” se desintegre no empedrado do largo ou no alcatrão da rua, como tantas vezes sucede, enchendo o chão de uma poalha esbranquiçada, ou que acabe numa naça de pesca espertamente manipulada, ou num guarda-chuva invertido ou, finalmente, nas mãos de um hábil vizinho. 

A diferenciação de papéis entre quem está no cimo da capela e em baixo não é clara, desde logo porque o pagador, de volta ao terreno do largo, se torna rapidamente aquele que procura pescar a cavaca, e este, galgada a escadaria em caracol, sob a protecção dos mordomos, ganha a condição de pagador. Uns e outros são devotos e esta condição é talvez a mais importante. 

A festa de S. Gonçalinho é proverbialmente considerada uma celebração igualitária, que não distingue o rico do pobre, e que tem como base social a comunidade beiramarense, dos “cagaréus”, tradicionalmente constituída pelos ofícios ligados à pesca e à extracção do sal, hoje tendencialmente substituídos por profissões do sector terciário. E há também a presença dos emigrantes (mesmo que não necessariamente física), já registada em 1935 por José Tavares, nos seguintes termos: “É tão forte a crença nas virtudes de “S. Gonçalinho”, que nenhum “americano”, ao emigrar para a América, deixa de levar consigo a litografia do Santo, e é raro que algum deles se esqueça de enviar, lá de longe, para a festa, qualquer importância em dolas (dólares)” (Tavares 1935: 130). 

Também o “juiz”, Manuel Pacheco, que presidiu à Comissão das Festas em 2007 e 2008, testemunhou a participação dos emigrantes, nomeadamente da comunidade instalada em Newark, em Boston e em outros locais do leste dos Estados Unidos da América, nas obras de benfeitoria realizadas no templo. 

Muitos devotos formam fila esperando arremessar, lá de cima, os quilos de cavacas sobre a assistência que vai crescendo no largo à medida que o sol se põe. Nos dias de maior intensidade, são os mordomos, envergando o gabão de Aveiro, que orientam o acesso dos pagadores de promessa ao terraço na cúpula da capela. 

Desde que os mordomos assumem o compromisso da organização da festa, em Janeiro, reúnem-se uma vez por semana até Setembro, mês no qual começam os peditórios de rua para o envolvimento de toda a comunidade. De Setembro até aos festejos de Janeiro marcam-se reuniões regulares, de forma a que tudo seja tratado convenientemente e não haja falhas nem faltas. O peditório de rua tem os seus percursos citadinos, alcançando os arredores da cidade, em caminhadas que durarão em média quatro horas por semana. 

O resultado do peditório, somado com outros donativos particulares, corresponderam em 2006 e 2007, a cerca de 27 e 30% das receitas obtidas, estas orçamentadas em cerca de sessenta mil euros, importância indispensável à organização do arraial, aos gastos com o fogo de artifício, ao pagamento de licenças e cauções e a outras despesas miúdas. Há que referir que os mordomos não recebem qualquer contrapartida financeira pelo seu serviço, sendo que as únicas refeições pagas pelo orçamento geral são o almoço de Segunda-feira com o pároco e o almoço ou jantar da passagem de testemunho aos novos mordomos. 

No caso das mordomas, são elas que tratam de alindar com flores os altares da capela, tarefa na qual colocam o seu gosto estético e sensibilidade, cumprindo uma função muito apreciada por todos os que visitam o S. Gonçalinho nos dias de festa. Sublinha Manuel Pacheco que: “o processo das mordomas de altar, tanto quanto me foi dado observar, tem passado de mães para filhas, sendo em número incontável por todas se considerarem mordomas sempre, desde que realizam aquela função pela primeira vez, ao contrário dos homens, cuja função se extingue no final de cada comissão de festas” (Entrevista a Manuel Pacheco, 2008). 

As despesas com o alindamento da capela são atenuadas pela recolha das ofertas em dinheiro da Eucaristia de celebração da festa dominical, podendo acontecer que o diferencial seja posto do bolso de cada uma das mordomas, já que os arranjos de flores ascendem a muitas centenas de euros. Entre as flores reconhecem-se também outras promessas de outros penitentes: ex-votos em cera de pernas e braços. 

Durante o período da festa, as mulheres da Beira-mar visitam a capela mais do que uma vez, demorando-se entre conversas livres, orações e cânticos religiosos. Inspirado por tais presenças, o poeta aveirense Amadeu de Sousa, já falecido, escreveria entre outras quadras, esta levemente picante: “Toda a mulher casadoira / Vai morar à capelinha. / Tempo demais na salmoira, / Deteriora-se a sardinha...” (Sousa 1989: 15). O anedotário faz da velha o alvo, mas esta velha tanto simboliza o ano invernoso que há-de findar, quanto a promessa da renovação sazonal. 

O interior do templo transforma-se, pois, em lugar de convívio e de cânticos religiosos subitamente interrompidos por músicas com letras profanas dedicadas ao Santo. A canção do “Cortejo de oferendas a S. Gonçalinho” eleva-se recorrentemente. 

Ao cair da noite de segunda-feira toma-se um hino audacioso, quando os mordomos juntam as suas vozes graves aos agudos femininos, gesticulando em direcção à imagem do Santo, antes da saída dos ramos. O refrão desta canção reza o seguinte: Neste dia de festança / Pr'a ti vai nosso carinho / Hás-de ir connosco na dança / Ó rico S. Gonçalinho / Hás-de saltar as fogueiras. / À noite no arraial / Dançar com velhas gaiteiras / Uma dança divinal

Em certas ocasiões mais animadas, uma senhora pode desafiar um vizinho para bailaricar no largo ou numa das ruas defronte. Tal manobra toma-se particularmente comum durante o cortejo da saída dos ramos já referida. As fogueiras de Inverno, as velhas rapioqueiras e o alvoroço dos afectos revelam a faceta namoradeira do Santo, que representa aqui um papel análogo ao de Sto. António, o santo casamenteiro celebrado em Junho, especialmente a sul do Mondego; e, como este, o culto gonçalense tem vindo a actualizar-se. 

A par das celebrações descritas, dezenas e dezenas de vizinhos aglomeram-se no interior da capela aguardando esse momento especial, raramente nomeado, mas certamente desejado, que é a “dança dos mancos”.
Bem hajam
Carlos Fernandes