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sábado, 31 de maio de 2014

Da vinha e do vinho



O passado conhece-se em termos de memória colectiva. A própria noção de identidade está ligada ao que perdura, ao que distingue e ao que se recorda. Assim, e neste contexto, convidamo-lo a fazer uma pequena viagem pela História da Vinha e do Vinho em Portugal!
2 000 anos a.C.; séc.X a.C.- séc.II a.C.
Reino de Tartessos; Fenícios e Gregos; Celtas e Iberos
Na necrópole de Alcácer do Sal foi encontrada uma "cratera" grega de sino, vaso onde os Gregos diluíam o vinho com água antes de o consumirem.
Séc.II a.C. a Século VII d.C.
Romanos e Povos Bárbaros
A expansão guerreira de Roma na Península Ibérica conduziu aos primeiros contactos com os Lusitanos, cerca de 194 a.C.
Seguiram longos anos de lutas de guerrilha, só vencidas pelos Romanos dois séculos depois, com a conquista de toda a Península em 15 a.C., conseguindo subjugar os Lusitanos.
Século VIII a XII
Alta Idade Média - Invasão dos Árabes
Século XII a XIV
Baixa Idade Média
Entre os séculos XII e XIII, o vinho constituiu o principal produto exportado. Documentos existentes, designadamente doações, legados, livros ou róis de aniversários, livros de tombos de bens, etc., confirmam a importância da vinha e do vinho no território português, mesmo antes do nascimento da nacionalidade. Conhecem-se doações que incluíam vinhas ao Mosteiro de Lorvão, entre 950 e 954.
Século XV - XVII
Idade Moderna - Renascimento
Tal envelhecimento suave era proporcionado pelo calor dos porões ao passarem, pelo menos duas vezes, o Equador e pela permanência do vinho nos tonéis, tornando-os ímpares, preciosos e, como tal, vendidos a preços verdadeiramente fabulosos. O vinho de "roda" ou de "torna viagem" veio assim facultar o conhecimento empírico de um certo tipo de envelhecimento, cujas técnicas científicas se viriam a desenvolver posteriormente.
Século XVIII a XX
Idade Contemporânea
 Em 1703, Portugal e a Inglaterra assinaram o Tratado de Methwen, onde as trocas comerciais entre os dois países foram regulamentadas. Ficou estabelecido um regime especial para a entrada de vinhos portugueses em Inglaterra. A exportação de vinho conheceu então um novo incremento.
Para pôr fim a esta crise, o Marquês de Pombal criou, por alvará régio de 10 de Setembro de 1756, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, com o fim de disciplinar a produção e o comércio dos vinhos da região, prevendo ainda a necessidade de se fazer, urgentemente, a demarcação da região, o que veio a concretizar-se. Assim, segundo alguns investigadores, foi esta a primeira região demarcada oficialmente no mundo vitivinícola.
Assim, para fazer face a este flagelo, logo em 1866, António Augusto de Aguiar, juntamente com João Inácio Ferreira Lapa e o Visconde de Vila Maior, foram encarregados de avaliar a situação dos centros vinícolas do país e de estudar os processos que neles se adoptavam. Este conhecimento da situação concreta da vitivinicultura portuguesa, levou António Augusto de Aguiar à nomeação de Comissário Régio na Exposição de Vinhos, realizada em Londres, em 1874. Foi justamente no âmbito da sua participação nesta exposiçãoe da digressão científica que fez pelos países europeus produtores de vinhos, que desencadeou a análise crítica e audaz ao sector vitivinícola nacional, expressa nas famosas Conferências sobre Vinhos, proferidas por António Augusto de Aguiar, em 1875, no Teatro de D. Maria e, posteriormente, no da Trindade.
Surge, então, uma nova perspectiva na economia portuguesa e, consequentemente, na viticultura. O conceito de Denominação de Origem foi harmonizado com a legislação comunitária, e foi criada a classificação de "Vinho Regional", para os vinhos de mesa com indicação geográfica, reforçando-se a política de qualidade dos vinhos portugueses.


33 Denominações de Origem e 8 Indicações Geográficas.
Algumas curiosidades históricas

  • Moscatel de Setúbal - (1381) Nesta data Portugal já exportava grande quantidade deste vinho para a Inglaterra.
  • Vinho do Porto - o Tratado de Methwen (1703) assinado entre Portugal e a Grã-Bretanha, contribuiu para a popularidade deste vinho que beneficiava de taxas aduaneiras preferenciais. Durante o século XVIII, para os ingleses, vinho era praticamente sinónimo de vinho do Porto.
  • Vinhos da Bairrada - No Reinado de D. Maria I (1734/1816) os vinhos portugueses adquiriram grande projecção, tendo-se iniciado a exportação de vinhos, com destaque para os desta região, que foram exportados para a América do Norte, França, Inglaterra e, em especial, para o Brasil, onde eram muito apreciados.
  • Vinho de Bucelas - Com as Invasões Francesas (1808/1810) este vinho começou a ser conhecido internacionalmente. Wellington apreciava-o de tal maneira que o levou de presente ao então príncipe regente, mais tarde Jorge III de Inglaterra. Depois da Guerra Peninsular, este vinho tornou-se um hábito na corte Inglesa.
  • No tempo de Shakespeare (1564/1613) o vinho de Bucelas era conhecido por "Lisbon Hock" (vinho branco de Lisboa) (1564/1613).
  • Vinho de Carcavelos - (1808/1810) foi bem conhecido das tropas de Wellington que o levaram para Inglaterra, tendo sido, durante largos anos, exportado em grandes quantidades.
  • Vinho da Madeira - (1808/1810) Considerado um dos vinhos de maior requinte nas cortes europeias, tendo chegado mesmo a ser usado como perfume para os lenços das damas da corte. Na corte inglesa este vinho rivalizava com o vinho do Porto. Shakespeare (1564/1613) referiu-se ao vinho da Madeira como essência preciosa, na sua peça "Henrique IV".
  • O duque de Clarence, irmão de Eduardo IV (séc. XV) deixou o seu nome ligado a este vinho quando, ao ter sido sentenciado à morte na sequência de um atentado contra o seu irmão, escolheu morrer por afogamento num tonel de Malvasia da Madeira.
  • Mas para além da Inglaterra, também a França, a Flandres e os Estados Unidos o importavam.
  • Francisco I (1708/1765), orgulhava-se de o possuir e considerava-o "o mais rico e delicioso de todos os vinhos da Europa". As famílias importantes de Boston, Charleston, Nova Iorque e Filadélfia disputavam umas às outras os melhores vinhos da Madeira.
  • Vinho do Pico - Açores - (Séc. XVIII) foi largamente exportado para o Norte da Europa e até mesmo para a Rússia. Depois da revolução (1917), foram encontradas garrafas de vinho "Verdelho do Pico" armazenadas nas caves dos antigos czares.

Desde os tempos mais remotos, o vinho tem vindo a desempenhar um papel de relevo em quase todas as civilizações. "Fruto da videira e do trabalho do Homem", não é ultrapassado por nenhum outro produto da agricultura, aliando esse fruto saboroso e nutritivo à bebida privilegiada, precioso néctar, dele extraída.
Repleto de simbologia, impregnado de religiosidade e de misticismo, o vinho surge desde muito cedo na nossa literatura, tornando-se fonte de lendas e inspiração de mitos.
As expressões "dádiva de deuses", "Sangue de Cristo", e "essência da própria vida" atribuídas a este produto corroboram bem o papel do vinho na vertente cultural bem como a sua importância na nossa civilização, a que chamamos "ocidental", cujos fundamentos se encontram no direito romano e na religião cristã, que desde sempre enalteceram e dignificaram este saboroso líquido.
Mas... tentemos fazer uma pequena viagem até às mais recônditas origens, na história da vinha e do vinho em Portugal.
 Embora envolto em muitas dúvidas e mitos, pensa-se que a vinha terá sido cultivada pela primeira vez em terras da Península Ibérica (vale do Tejo e Sado), cerca de 2 000 anos a.C., pelosTartessos, dos mais antigos habitantes desta Península, cuja civilização parece ter sido bastante avançada. Estes habitantes estabeleciam negociações comerciais com outros povos, permutando diversos produtos, entre os quais o vinho, que veio a servir, provavelmente, de moeda de troca no comércio de metais.
Os Fenícios, cerca do século X a.C., acabaram por se apoderar do comércio dos Tartessos, incluindo o respeitante aos vinhos. Pensa-se que tenham trazido alg
umas castas de videiras que introduziram na Lusitânia.
No século VII a.C. os Gregos instalaram-se na Península Ibérica e desenvolveram a viticultura, dando uma particular atenção à arte de fazer vinho.
Alguns autores referem que Ulisses, ao fundar a cidade de Lisboa (a que deu o nome de Ulisseia ou Olisipo) seguiu o costume usado nas suas viagens, oferecendo vinho para festejarem com ele as boas vindas.
Crê-se que no século VI a.C. os Celtas, a quem a videira já era familiar, teriam trazido para a Península as variedades de videira que cultivavam. É também provável que tenham trazido técnicas de tanoaria.
Os Celtas e os Iberos fundiram-se num só povo - os Celtiberos -, ascendentes dos Lusitanos, povo que se afirma no século IV a.C.
romanização na Península contribuiu para a modernização da cultura da vinha, com a introdução de novas variedades e com o aperfeiçoamento de certas técnicas de cultivo, designadamente a poda.
Nesta época, a cultura da vinha teve um desenvolvimento considerável, dada a necessidade de se enviar frequentemente vinho para Roma, onde o consumo aumentava e a produção própria não satisfazia a procura.
Seguiram-se as invasões bárbaras e a decadência do Império Romano. A Lusitânia foi disputada aos romanos por Suevos e Visigodos que acabaram por vencê-los em 585 d.C, tendo-se dado, com o decorrer do tempo, a fusão de raças e de culturas, passando-se do paganismo à adopção do Cristianismo.
É nesta época (séculos VI e VII d.C.), que se dá a grande expansão do Cristianismo (apesar de já ser conhecido na Península Ibérica desde o séc. II). O vinho torna-se então indispensável para o acto sagrado da comunhão. Os documentos canónicos da época evidenciam a "obrigatoriedade" da utilização do vinho genuíno da videira na celebração da missa (produto designado por "não corrompido", ao qual tivesse sido apenas adicionada uma pequena porção de água).
Ao assimilar a civilização e religião dos romanos, os "bárbaros" adoptaram igualmente o vinho, considerando-o como a bebida digna de povos "civilizados". No entanto, não introduziram quaisquer inovações no cultivo da videira.
No início do Século VIII outras vagas de invasores se seguiram, desta vez vindas do Sul. Com a influência árabe começava um novo período para a vitivinicultura Ibérica.
O Corão proibia o consumo de bebidas fermentadas, onde o vinho se inclui. No entanto, o emir de Córdoba que governava a Lusitânia, mostrou-se tolerante para com os cristãos, não proibindo a cultura da vinha nem a produção de vinho. Havia uma razão: para os Árabes, a agricultura era importantíssima, aplicando-se aos agricultores uma política baseada na benevolência e protecção, desde que estes se entregassem aos trabalhos rurais, para deles tirarem o melhor proveito. Mesmo no Algarve, onde o período do domínio árabe foi mais longo, ultrapassando cindo séculos, produziu-se sempre vinho, embora se seguissem os preceitos islâmicos.

Lisboa manteve, deste modo, o seu comércio tradicional de exportação de vinho.
Nos séculos XI e XII, com o domínio dos Almorávidas e Almoadas, os preceitos do Corão foram levados com maior rigor, dando-se, então, uma regressão na cultura da vinha.
Entretanto, já se tinha iniciado a Reconquista Cristã. As lutas dão-se por todo o território e as constantes acções de guerra iam destruindo as culturas, incluindo a vinha
.
fundação de Portugal, em 1143 por D. Afonso Henriques, e a conquista da totalidade do território português aos mouros, em 1249, permitiu que se instalassem Ordens religiosas, militares e monásticas, com destaque para os Templários, Hospitalários, Sant'Iago da Espada e Cister, que povoaram e arrotearam extensas regiões, tornando-se activos centros de colonização agrícola, alargando-se, deste modo, as áreas de cultivo da vinha.
O vinho passou, então, a fazer parte da dieta do homem medieval começando a ter algum significado nos rendimentos dos senhores feudais. No entanto, muita da sua importância provinha também do seu papel nas cerimónias religiosas. Daí o interesse dos clérigos, igrejas e mosteiros, então em posição dominante, pela cultura da vinha.
Os vinhos de Portugal começaram a ser conhecidos até no norte da Europa. Consta que o duque de Lencastre, após o seu desembarque na Galiza, quando veio a Portugal em auxílio de D. João I na luta contra Castela, conhecendo já a fama dos nossos vinhos, mostrou desejo de provar o vinho de Ribadavia, tendo-o achado "muito forte e fogoso"...
Foi na segunda metade do século XIV, que a produção de vinho começou a ter um grande desenvolvimento, renovando-se e incrementando-se a sua exportação.
Nos séculos. XV e XVI, no período da expansão portuguesa, as naus e galeões que partiram em direcção à Índia, um dos produtos que transportavam era o vinho. No período áureo que se seguiu aos Descobrimentos, os vinhos portugueses constituíam lastro nas naus e caravelas que comercializavam os produtos trazidos do Brasil e do Oriente.
Será talvez oportuno referirem-se aqui os vinhos de "Roda" ou de "Torna Viagem". Se pensarmos quanto tempo demoravam as viagens... Eram, na generalidade, cerca de seis longos meses em que os vinhos se mantinham nas barricas, espalhadas pelos porões das galés, sacudidas pelo balancear das ondas, ou expostos ao sol, ou por vezes até submersas na água dos do fundo dos navio... E o vinho melhorava!
Em meados do século XVI, Lisboa era o maior centro de consumo e distribuição de vinho do império - a expansão marítima portuguesa levava este produto aos quatro cantos do mundo.
Chegados ao século XVII, o conjunto de publicações de várias obras de cariz geográfico e relatos de viagens, quer de autores portugueses, quer de autores estrangeiros, permite-nos entender o percurso histórico das zonas vitivinícolas portuguesas, o prestígio dos seus vinhos e a importância do consumo e do volume de exportações.
No século XVIII, a vitivinicultura, tal como outros aspectos da vida nacional, sofreu a influência da forte personalidade doMarquês de Pombal.


Assim, uma grande região beneficiou de uma série de medidas proteccionistas - a região do Alto Douro e o afamado Vinho do Porto. Em consequência da fama que este vinho tinha adquirido, verificou-se um aumento da sua procura por parte de outros países da Europa, para além da Inglaterra, importador tradicional. As altas cotações que o Vinho do Porto atingiu fizeram com que os produtores se preocupassem mais com a quantidade do que com a qualidade dos vinhos exportados, o que esteve na origem de uma grave crise.
século XIX foi um período negro para a vitivinicultura. A praga da filoxera, que apareceu inicialmente na região do Douro em 1865, rapidamente se espalhou por todo o país, devastando a maior parte das regiões vinícolas. Colares foi a única excepção, porque a filoxera não se desenvolve nos terrenos de areia, onde as suas vinhas se cultivam, ainda hoje.
início do século XX, foi marcado pela Exposição Universal de Paris emblematicamente inaugurada em 1900. Portugal participou activamente neste evento, dedicando especial atenção à secção de Agricultura, por todos considerada o sector mais importante da nossa representação. Deste evento, ficou-nos a obra fundamental de B. C. Cincinnato da Costa, "Le Portugal Vinicole", editada especificamente para ser apresentada na exposição.
Em 1907/1908, iniciou-se o processo de regulamentação oficial de várias outras denominações de origem portuguesas. Para além da região produtora de Vinho do Porto e dos vinhos de mesaDouro, demarcavam-se as regiões de produção de alguns vinhos, já então famosos, como são o caso dos vinhos da Madeira, Moscatel de Setúbal, Carcavelos, Dão, Colares e Vinho Verde.
Com o Estado Novo (1926/1974), foi iniciada a "Organização Corporativa e de Coordenação Económica", com poderes de orientação e fiscalização do conjunto de actividades e organismos envolvidos. Foi neste contexto que se criou a Federação dos Vinicultores do Centro e Sul de Portugal (1933), organismo corporativo dotado de grandes meios e cuja intervenção se marcava, fundamentalmente, na área da regularização do mercado.
À Federação, seguiu-se a Junta Nacional do Vinho (JNV) (1937), organismo de âmbito mais alargado, que intervinha tendo em conta o equilíbrio entre a oferta e o escoamento, a evolução das produções e o armazenamento dos excedentes, em anos de grande produção, de forma a compensar os anos de escassez.
A JNV veio a ser substituída em 1986 (D.L. nº 304/86 de 22 de Setembro) pelo Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), organismo adaptado às estruturas impostas pela nova política de mercado decorrente da adesão de Portugal à Comunidade Europeia.
Com objectivos de gestão das Denominações de Origem e dos Vinhos Regionais, de aplicação, vigilância e cumprimento da respectiva regulamentação, foram constituídas Comissões Vitivinícolas Regionais (associações interprofissionais regidas por estatutos próprios), que têm um papel fundamental na preservação da qualidade e do prestígio dos vinhos portugueses.
Actualmente estão reconhecidas e protegidas, na totalidade do território português,
Fonte Instituto da vinha e do vinho 
Bem hajam 
Carlos Fernandes

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fazeres com saberes Bordados de Castelo Branco

Perspectiva histórica do Bordado desde as suas remotas origens à actualidade: 


De imensa beleza e exemplo de originalidade no âmbito de manufactura nacional, o Bordado de Castelo Branco apresenta dois factores dominantes: um, de origem artística; outro, de significaçăo económica. O primeiro manifesta a existência de uma arte própria, com estilo de feiçăo peculiar, o segundo admite a concentraçăo desta indústria de bordado na zona do Distrito de Castelo Branco.
Porquê nesta cidade? É natural que se tenha fixado precisamente numa regiăo onde a cultura do linho era tradicional e onde a amoreira se dava tăo bem, a ponto de permitir a criaçăo em larga escala do bicho-da-seda. Os locais de fabrico explicam em grande parte a matéria utilizada, visto as condiçőes naturais serem exploradas pelas comunidades.
Embora se desconheça a verdadeira origem do Bordado de Castelo Branco, o facto de, já no século XX, ter sido reactivada a sua produçăo em Castelo Branco é a razăo de denominaçăo actual, ainda que a grande maioria dos espécimes antigos recenseados tenham sido localizados na zona desta cidade. De acordo com o figurino da época, crê-se ter sido o século XVIII o período mais fecundo na confecçăo do Bordado. Depois de uma fase de decadência que se fez sentir ao longo do século XIX, o seu ressurgimento deu-se na regiăo de Castelo Branco, no primeiro quartel do século XX, a partir do momento que Maria da Piedade Mendes (1888?-1984) encontrou um conjunto de colchas de linho bordadas a seda, guardadas religiosamente em arcas herdadas pela sua família, e que iriam servir de modelo para os trabalhos que desenvolveu ao longo da vida com uma perfeiçăo notável. No ano de1929, ao participar na Sexta Sessăo do IV Congresso Beirăo, realizada em Castelo Branco, Maria Júlia Antunes, professora do Liceu Infanta D. Maria em Coimbra, apresentou a sua tese Rendas e Bordados das Beiras onde faz referência aos «bordados albicastrenses, genéricamente chamados a frouxo», pela primeira vez divulgados em público com a designaçăo que os associa à cidade beiră.
Constitui-se entăo uma marca, por escola, recriando e reformulando motivos de espécimes remanescentes, em defesa e continuidade de uma expressăo artística, reconhecida pela sua riqueza singular no deversificado panorama da produçăo têxtil nacional, através de um movimento de âmbito local. Surgiu a denomiçăo Bordados de Castelo Branco.



  Antecedentes do Bordado de Castelo Branco e influências recebidas: 

O facto da Península Ibérica ter estado sob domínio árabe levou a uma produçăo de têxteis e bordados que obedeciam aos cânones estéticos muçulmanos e se destinava aos circuitos comerciais do mundo árabe. Seguiu-se um longo período de Reconquista pouco propício ao desenvolvimento da arte do bordado. O bordado português só tardiamente terá começado a afirmar-se de uma maneira válida, e factores imponderáveis dificultam a tomada de conhecimento do que teria sido na Idade Média. Sabe-se apenas que só a partir dos finais do século XVI se impőe uma produçăo têxtil de alta qualidade, mas em quantidade limitada.
Uma das consequências da expansăo política, religiosa e económica dos portugueses traduziu-se no intercâmbio de novas formas culturais e artísticas, e o olhar do português rapidamente descobriu a perícia e o virtuosismo das indígenas ao fazer as suas obras e da Índia passaram, também, a ser trazidas para Portugal bordadoras habilidosas que se juntavam aos colchoeiros (designaçăo dada aos fazedores de colchas no século XVI).  Segundo Afonso de Albuquerque vinham exercer a sua arte em Lisboa, sendo provável ter sido a capital do reino ponto de partida para a realizaçăo de trabalhos que depois se foram espalhando através de outras regiőes do País.
A partir dos finais do século XVI até aos finais do século XVIII, multiplicaram-se as encomendas de bordados, monocromos ou com uma policromia sábia, autênticos suportes de narraçőes, simbologias ou simples figuraçőes, prestigiantes para quem os possuía. Os espécimes provenientes do Oriente eram na maioria bordados para suspensăo e colchas bordadas num suporte acolchoado, alguns decorados com faixas, onde se representavam cenas bíblicas ou heróicas, caçadas, motivos vegetalistas, entre outros, comuns na arte oriental. Cumprindo um programa elaborado a partir de matrizes ocidentais, nos espaços em que a encomenda nada impunha as bordadoras inscreviam motivos e mitos, usando cercaduras, tarjas, fundos e cantos preenchidos com elementos geométricos, folhas, flores, enrolamentos, animais, figuras por vezes compósitas e personagens do mito local. Geralmente bordadas a seda sobre linho, eram também executadas em algodăo branco acolchoado.
Nos bordados feitos em Portugal acentuavam-se as sugestőes dos estilos do Ocidente. Todavia, um forte gosto orientalizante năo deixava de os inspirar ao nível da sua composiçăo e decoraçăo. É natural que toda essa produçăo, de diversos centros, com diferentes cargas e estilos, tenha exercido uma forte influência no Bordado de Castelo Branco, particularmente em composiçőes mais elaboradas que a nível temático e compositivo relevam uma acentuada afinidade com o bordado indo-português.
Por factores inerentes à sua conservaçăo, pelo inusitado costume de datar os espécimes e devido à escassez de dados que o documentam, até hoje desconhece-se a origem do Bordado de Castelo Branco e as questőes multiplicam-se. Poderá ser considerado fundamentalmente um produto de uma indústria caseira, vocacionada para consumo próprio. Mas, nesta prespectiva, năo terăo existido centros de produçăo no sentido usual do termo? Em Portugal, nos conventos femininos a arte de bordar adquiriu grande perfeiçăo, levando à possibilidade de terem sido centros difusores deste bordado, quer como locais de educaçăo, quer de produçăo.
Năo foram só as mulheres dedicadas à vida claustral a entregarem-se ao trabalho de bordar, outras havia que se dedicavam a essa tarefa. Poderá năo parecer que as primeiras peças fossem de sabor popular, perante a falta de argumentaçăo para acreditar terem sido as populaçőes rurais, ignorantes na sua simplicidade, a receber a mensagem do Oriente, contrariamente à ideia de que os modelos iniciais tivessem nascido no seio da classe das famílias opulentas, donde partiam para a Índia os homens que no regresso traziam presentes e recordaçőes que vieram alterar os hábitos de bordar. 
Por outro lado, năo será de excluir supor terem sido as damas albicastrenses a apoderarem-se da matriz popular do Bordado, dando-lhe foros senhoriais, atendendo a determinadas características do desenho de peças mais antigas que parecem resultar de uma produçăo estabelecida entre as classes populares.  E porque năo , atribuir a origem a ambas as classes, de acordo com as possibilidades e recursos de cada uma delas? 


In "O Bordado de Castelo Branco" 

Bem hajam 
Carlos Fernandes






quarta-feira, 21 de maio de 2014

Fides ética : A honra da palavra

FIDES - A DEUSA DA PALAVRA DADA

Fides era na mitologia romana personificação da palavra dada.
Era representada como uma idosa de cabelos brancos, sendo entendida como mais velha que o próprio Júpiter. Desta maneira pretendia-se transmitir a noção que a palavra dada, o compromisso, era a base da sociedade e da ordem política. Acreditava-se que o próprio culto da deusa era muito antigo e que teria sido introduzido no tempo de Numa Pompílio
A deusa possuía um templo no Capitólio, perto do templo de Júpiter Óptimo e Máximo, que foi mandado erguer pelo cônsul Aulius Antilius Calatinus.
O templo foi consagrado à deusa no dia 1 de outubro de 254 AC, que tornou-se assim o dia da festa da deusa). Para oferecer um sacrifício à deusa, era necessário envolver a mão direita com um pano de cor branca, o que justamente significa a pureza de intenções, a pureza da palavra dada. Este templo era ocasionalmente usado pelo Senado Romano para as suas reuniões para que a palavra empenhada pelos senadores fosse sem sombra de dúvida respeitada. Nas suas paredes eram colocados tratados e leis inscritos em tábuas de
bronze
Por volta de 58 AC, o templo foi restaurado por Marco Emílio Escauro.
Hoje mais do que nunca relembrar Fides é um imperativo, já que no à palavra
 diz respeito, há muito que caiu no esquecimento 
Bem hajam 
Carlos Fernandes





terça-feira, 20 de maio de 2014

A lenda dos Gafanhotos estórias da Beira Baixa

Conta a Lenda dos Gafanhotos que por volta de 1640 uma praga de gafanhotos devastou toda a aldeia da Lousa. Todas os habitantes das freguesias vizinhas (Alcains, Escalas de Baixo, Escalas de Cima e Lardosa) resolveram prometer uma festa ao Santo de maior afecto na freguesia, pedindo a sua protecção contra aquela terrível praga que as estava a deixar na miséria. A Lousa recorreu a Nossa Senhora dos Altos Céus, com a promessa de fazer uma festa no terceiro Domingo do mês de Maio de cada ano, em louvor e acção de graças se a virgem ouvisse a sua súplica. O povo acorreu ao altar da Senhora pedindo o favor da sua ajuda e foi ouvido. Os danosos bichos desapareceram e os campos e hortas voltaram ao seu vício primitivo. Mas a tradição não fica por aqui... Quando se soube na freguesia que os gafanhotos tinham levantado voo, os Lousenses correram aflitos ver em que estado tinham ficado os campos, e as suas searas, pois não acreditavam facilmente que tinha sido um milagre da Virgem. Porém nem todos correram. Um alegre casal (Timoteu e Micaela), ficaram o dançar de alegria no adro da igreja com os suas oito filhas, pensando e bem, que aquele acto de alegria poderia servir de agradecimento a quem depressa lhes tinha acorrido. Os que regressaram depois de ver as suas hortas e searas juntaram-se áquela família dando largas à sua alegria. E quando todos entraram na igreja para agradecerem à Senhora, esta desceu as suas mãos para que todos expressassem o seu agradecimento.
Fonte BiblioMOURA, José Carlos Duarte Contos, Mitos e Lendas da Beira Coimbra, A Mar Arte, 1996 , p.19-20
Place of collectionLousaCASTELO BRANCO, CASTELO BRANCO
Bem Hajam 
Carlos Fernandes


domingo, 18 de maio de 2014

Da aldeia para o seu prato

Aldeia de Cambas -Oleiros 

A gastronomia regional da Beira Baixa, desde sempre apreciada pela sua riqueza e diversidade, encontra-se estreitamente ligada à história e aos costumes de um povo outrora limitado pela sua localizaçăo geográfica e pelos recursos agrícolas obtidos da própria terra.A produçăo pecuária e a agricultura de subsistência eram as principais fontes de bens alimentares e toda a alimentaçăo se baseava em torno de alimentos caseiros e tradicionais. Em muito contribuíram os sabores das gentes Beirăs, para que, na actualidade seja possível saborear uma grande variedade de pratos típicos regionais. Os segredos e a arte de os confeccionar ainda pertence aos mais velhos, mas a sua importância na caracterizaçăo e identificaçăo da regiăo da Beira Baixa incita-nos a prová-los em restaurantes com este tipo de oferta gastronómica.

O restaurante Slide na aldeia de Cambas -Oleiros é um bom exemplo da cozinha regional , num lugar paradisíaco entre as margens do Zêzere e o verde da serra , um tesouro por explorar .
Os principais pratos congregam , combinações únicas concebidas e aperfeiçoados ao longo dos tempos e das quais resultam as melhores iguarias da região 
O valor destas receitas 
Restaurante Slide
incrementado pela variedade alimentar e riqueza nutricional que comporta e pelos consequentes benefícios para a saúde, nomeadamente na prevenção de doenças crónicas e degenerativas. Remetidas para o final, mas não menos apetecíveis, as sobremesas tradicionais Beirãs, na sua maioria de origem popular, complementam
ingredientes nutritivos, como o leite e os ovos, com uma confecção simples e caseira. Em muitas denota-se em suave aroma a canela que se mistura deliciosamente
com o paladar com os restantes sabores envolvidos.
Não esqueçamos os produtos alimentares regionais! Os queijos, que gozam da maior fama, são elaborados de forma artesanal com leite de ovelha ou de cabra,

ou ainda ambos, sendo apreciados por todo o país. De realçar também a qualidade de enchidos e de alguns vinhos produzidos na região.

Resta-nos desejar-lhes bom apetite, apareçam e comprovem que não há só estrelas no céu !!
Terminando esta aventura gastronómica pelo Slide em Cambas , com os ventos quentes  da raia  despeço-me da aldeia com um brinde ao rio Zêzere acompanhado por uma refeição  de Maranhos e uma sopa de couve  temperada com o sal da vida e o sol da serra, sempre na companhia do anfitrião de eleição um homem simples e grande bem haja Ramiro Roque 
Bem hajam 
Carlos Fernandes

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Chegámos desconfiados partimos convencidos

Aldeia de Álvaro-Oleiros 

"Não são as pessoas que fazem as viagens mas as viagens que fazem pessoas "
John Steinbeck 

Não importa onde nos leva a viagem mas sim o que ela faz de nós .
As viagens são acima de tudo, processos que nos permitem enriquecer enquanto pessoas , que nos oferecem outras visões do mundo que nos rodeia e que, por isso mesmo , nos transformam tantas vezes enquanto cidadãos.
Talvez, por isso não interessa tantas vezes a geografia o local , a duração do trajecto nem o modo como foi concretizado . O que fica é, acima de tudo, a experiência , a interacção com pessoas e lugares.
Porquê viajar?..
Para viver experiências, fugir da zona de conforto, não ter rotinas enfadonhas, aprender e vivenciar coisas novas , provar novos sabores, desafiar os limites , fazer novas amizades...
Pois é, não importa mesmo onde nos leva a viagem , mas sim o que ela nos faz!!
Isna-Oleiros
Viajamos porque nos enriquece ..Todos os lugares têm uma realidade distinta e viajar abre a mente para essas realidades. Quando vimos que algumas pessoas no mundo vivem com menos de 10 euros por mês, percebemos quanto vale cada euro. Quando um mendigo nos pede pão, damos valor à comida que comemos cada dia . Quando um amante solitário canta uma canção aprendemos a dar valor  ao nosso parceiro e à nossa família.Quando como na Pantagónia a luz do dia dura apenas seis horas aprendemos a ter saudades do sol.
A comida é uma grande parte das nossas experiências de viagem .Adoramos experimentar novos pratos à volta do mundo e desafiar o nosso paladar com sabores desconhecidos.
Interagir com novas com novas culturas novos saberes é das coisas que mais desfrutamos nas nossas viagens . Assim aprendemos sobre os seus ideais e opiniões .E assim percebemos que, não importa onde formos, o quão longe seja, pessoas serão sempre pessoas em qualquer parte do mundo .
Neste Universo enorme que é o mundo global somos apenas duas gotas .Mas enquanto nos movimentarmos neste oceano que é o nosso mundo, esperamos encontrar a autenticidade o genuíno e a hospitalidade dos nossos anfitriões .
Vilar Barroco-Oleiros 
No coração do Pinhal , Oleiros mantém-se autêntico e genuíno, o ambiente rural , as suas gentes, a paisagem merecem uma visita. Venha inspire-se e ajude-nos na apanha da cereja do medronho, da azeitona,no fabrico do queijo, do vinho, descubra o ciclo do pão,conheça segredos e receitas ancestrais, queremos com todos não animar a aldeia , mas termos uma aldeia animada.
É nesta oferta diferenciada que acreditamos, sabemos da qualidade da nossa gente, temos a firme convicção que hotéis com muitas estrelas cozinhas gourmet , masters chefes, rotas e rotinhas feiras e feirinhas estão ao alcance de todos em todo lado, nós somos diferentes , nós somos rurais autênticos e inteiros .
Oleiros 
Para uns dias que não irá certamente esquecer recomendamos algumas unidades de alojamento e restauração .
Turismo Rural

Vilar dos condes -Madeirã 
Casa da Ladeira -Ameixoeira 
S. Torcato Moradal -Estreito
O Carteiro -Oleiros
Casa dos Hospitalários -Álvaro  
Camping Oleiros - Uma forma inovadora de receber ....

Restauração 
 Maria Pinha -Oleiros 
Casa Peixoto -Oleiros 
O Prontinho -Oleiros 
Slide -Cambas 
O Cantinho -Estreito 
Cabrito estonado

Maranhos 
As nossas cerejas 
Bem hajam
Carlos Fernandes

 "CHEGÁMOS DESCONFIADOS PARTIMOS CONVENCIDOS"


sábado, 10 de maio de 2014

Ecos de revolta

INTERIOR DE PORTUGAL
Bem-vindos.
O que se pode esperar daqueles engravatados que estão lá nos gabinetes da Capital do Império? Nada. Ou pior, tudo. Fecharam Centros de Saúde, Escolas Primárias, Hospitais, Correios, Finanças, Postos de GNR, Tribunais e tudo o mais. Mas os burros somos nós, pois o Excelentíssimo Senhor Altíssimo Doutor Primeiro Ministro do Governo de Portugal disse em voz alta a esta cambada de piegas para emigrarmos. E nós, burros, ficamos cá! Somos mesmo estúpidos!!! Pobres dos nossos idosos que estão a morrer de forma miserável sem que ninguém faça algo... e quando dermos conta, algo estará feito: o extermínio do Interior de Portugal.

Maria Isabel tem 83 anos e é uma criminosa. O local do crime é o fogão, e assim foi durante muitos anos: vende bolo de laranja no café da zona. Sem recibo. E ainda consegue ir mais longe: usa os ovos das suas próprias galinhas. Juntamente com a filha, formam uma organização criminal. Eusébia, com 58 anos, produz uma pequena quantidade de queijo de cabra na sua própria cozinha que vende aos vizinhos a 1 euro a unidade. Um dos vizinhos, José Manuel, utiliza o antigo forno de barro que tem no quintal para cozer pão, faz uma quantidade a mais do que a que ele e a sua mulher necessitam para vender aos amigos, tentando assim complementar a pensão da reforma que recebe. Alguns dos habitantes mais idosos da aldeia apanham cogumelos e vendem-nos ao comprador intermediário. Novamente, sem passar recibo. Por sua vez, este intermediário distribui-os em restaurantes, passa recibo mas fá-lo pelo dobro do preço que pagou por eles. Marta, proprietária do café da zona, encomendou alface ao fornecedor mas acrescentou umas ervas e folhas de alface do seu próprio quintal. E se pedíssemos uma aguardente de medronho, típica da zona, quando a garrafa oficial, selada com o imposto fiscal, estiver vazia, o seu marido iria calmamente até à garagem e voltava a encher a garrafa com o medronho caseiro do velho Tomás. Podemos chamar a isto tradição, qualidade de vida ou colorido local – o certo é que em tempos de crise, a auto-suficiência entre vizinhos, simplesmente ajuda a sobreviver.
O Alentejo é das regiões mais afetadas pela crise que de qualquer forma afectou todo o país. A agricultura tradicional está em baixo, a indústria é quase inexistente e os turistas raramente se deixam levar pela espectacular paisagem costeira da província. Os montes alentejanos perdem-se em ruínas. Quem pode vai embora, ficando apenas a população idosa a viver nas aldeias, e para a maior parte, o baixo valor que recebem de reforma é gasto em medicamentos, logo na primeira semana do mês. Inicialmente, as pessoas fazem o que sempre fizeram para tentar sobreviver de algum modo. Vendem, a pessoas que conhecem, o que eles próprios conseguem produzir. Não conseguem suportar os custos de recibos ou facturas. Para conseguir iniciar um negócio com licença, teriam de cumprir os requisitos e fazer grandes investimentos que só compensariam num negócio de maior produção.
Ao contrário de Espanha, Portugal não negociou acordos especiais para quem tem pequenos negócios. As consequências: toda a produção em pequena escala - cafés, restaurantes , lojas e padarias que tornam este país atractivo - é de facto ilegal. Só existem duas hipóteses, ou legalizam o seu comércio tornando-se grandes produtores ou continuam como fugitivos ao fisco. Até agora e de certa forma, isto era aceitável em Portugal mas neste momento, parece que o governo descobriu os verdadeiros culpados da crise: o homem modesto e a mulher modesta como pecadores em matéria de impostos. Como resultado, as autoridades fecharam uma série de casas comerciais e mercados onde dantes eram escoadas os excedentes das parcas produções dos pequenos produtores e transformadores, que ganhavam algum dinheiro com isso, equilibrando a economia local.
Há uns meses atrás, a administração fiscal decidiu finalmente fazer algo em relação ao nível de desemprego: empregou 1.000 novos fiscais. Como um duro golpe para a fraude fiscal organizada, a autoridade autuou recentemente uma prática comum na pequena Aldeia das Amoreiras: alguns homens tinham - como o fizeram durante décadas - produzido e vendido carvão. Os criminosos têm em média 70 anos, e os modestos rendimentos do carvão mal lhes permitia ir mais do que poucas vezes beber um medronho ou pedir uma bica.
Não é benéfico acabar com os produtos locais e substituí-los por produtos industriais. Não para o Estado que, com uma população empobrecida, não tem capacidade para pagar impostos. E não é para a saúde: não são os produtos caseiros que levam a escândalos alimentares nestes últimos anos, mas a contaminação química e microbiana da produção industrial. Apenas grandes indústrias beneficiam desta política, uma política que chega mesmo a apoiar a crise. Sendo este um país que se submete cada vez mais a depender de importações, um dia não terá como se aguentar economicamente. É a realidade, até parece que a globalização venceu: os terrenos abandonados do Alentejo foram maioritariamente arrendados a indústrias agrícolas internacionais, que usam estes terrenos para o cultivo de olival intensivo e para a produção de hortícolas em estufas. Após alguns anos, os solos ficam demasiado contaminados. Em geral, os novos trabalhadores rurais temporários vêm da Tailândia, Bulgária ou Ucrânia, trabalham por pouco tempo e voltam para as suas casas antes das doenças se tornarem visíveis.
Com a pressão da Troika, o governo está a actuar contra os interesses do próprio povo. Apenas há umas semanas atrás, o Município de Lisboa mandou destruir mais uma horta comunitária num bairro carismático da cidade, a "Horta do Monte" na Graça, onde residentes produziam legumes com sucesso, contando com a ajuda da vizinhança. Enquanto os moradores do bairro protestavam, funcionários municipais arrancaram árvores pela raiz e canteiros de flores, simplesmente para que os terrenos possam ser alugados em vez de cedidos. Mais uma vez, uma parte da auto-organização foi destruída pela crise. A maioria dos portugueses não aceita isto. No último ano e por várias vezes, cerca de 1 milhão de pessoas - o equivalente a 10% da população - protestou contra a Troika. Muitos demonstram a sua criatividade e determinação durante a desobediência civil: quando saiu a lei que os clientes eram obrigados a solicitar factura nos restaurantes e cafés, em vez de darem o seu número de contribuinte, 10 mil pessoas deram o número do Primeiro Ministro. Rapidamente isto deixou de ser obrigatório. Também há alguns presidentes de freguesias que não aceitam o que foi feito aos seus mercados. E assim os pequenos mercados locais de aldeia continuam mas com um nome diferente “Mostra de produtos locais”, “Mercado de Trocas”. Se alguém quer dar alguma coisa e de seguida alguém põe dinheiro na caixa dos donativos, bem... quem irá impedi-lo?!
Existe um ditado fascinante: “quando a lei é injusta, a resistência é um dever”. É este o caso. Não são os pequenos produtores que estão errados mas sim as autoridades e quem toma as decisões - tanto moral como estrategicamente. É moralmente injustificável negar a sobrevivência diária dos idosos nas aldeias. E estrategicamente é estúpido. Um tesouro raro é destruído: uma região que ainda tem conhecimentos e métodos tradicionais, e comunidades com coesão social suficiente para partilhar e para se ajudarem entre si.
Uma economia difundida globalmente e à prova da crise é o que aqui acaba por ser criminalizado: subsistência rural e regional - o poder de auto-organização de pessoas que se ajudam mutuamente, que tentam sustentar-se com o que cresce à sua volta. Ao enfrentar a crise, não existem razões para não avançarmos juntos e nos reunirmos novamente. Existem sim, todos os motivos para nos ajudarmos mutuamente, para escolhermos a auto-suficiência e o espírito comunitário rural. Podemos ajudar a suavizar a crise, pelo menos por agora – se não, no mínimo oferecemos um elemento chave para a resolver. Quanto mais incertos são os sistemas de abastecimento da economia global, mais necessária é a subsistência regional.
Assim sendo, pedimos a todos os viajantes e conhecedores: peçam pratos caseiros e regionais nos restaurantes. Deixem que as omeletes sejam feitas por ovos que não foram carimbados nem selados. Peçam saladas das suas hortas. Mesmo em festas ou cerimónias, escolham os produtos de fabrico próprio, caseiros. Ao entrar numa loja ou café, anunciem de imediato que não vão pedir recibos ou facturas. Talvez em breve, os proprietários dos restaurantes se juntem a uma mudança local. Talvez em breve, um funcionário de uma loja será o primeiro a aperceber-se que a caixa de donativos na entrada traz mais lucro do que o registo obrigatório das vendas recentemente imposto. Talvez em breve, apareçam as primeiras moedas regionais como um método de contornar as leis fiscais.

Bem hajam 
Carlos Fernandes

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Um notável exemplo-Património

Desde muito cedo, que a Vila de Arganil me marcou na memória o esplendor da alma lusa, não só por lá ter raízes familiares como pelo seu desenvolvimento cultural em tempos de opacidade intelectual, o seu cine-teatro é um notável exemplo
O mais notável exemplo de Teatros do século XX no interior do País – e recorde-se que nos anos 50 o conceito de acessibilidade era bem diferente – encontramo-lo em Arganil no Cine–Teatro Alves Coelho, projecto do Arquitecto Mário Oliveira.Valoriza-o ainda, e não pouco os painéis  de Guilherme Filipe no interior e a escultura de Aureliano Lima na fachada principal, alegóricas das artes do espectáculo. E ainda uma lápide, onde o transmontano Miguel Torga, médico na Misericórdia de Arganil,  elogia a iniciativa de “beirões cabeçudos”…!
O Teatro Alves Coelho foi inaugurado em 5 deNovembro de 1954, num espectáculo vicentino encenado por Paulo Quintela, na presença algo insólita do Embaixador do Brasil, na altura o poeta Olegário Mariano, e do dramaturgo Silva Tavares. A construção fez-se por subscrição publica de acções  da “Empresa do Teatro Alves Coelho”, com numerosas e significativas participações financeiras de arganilenses de África e do Brasil. O nome foi também sufragado pela população, que assim homenageou um compositor conterrâneo.Alves Coelho (1882-1931), professor do ensino básico, foi sobretudo  autor talentoso e festejadíssimo da música de numerosas revistas: basta dizer que  inaugurou o Parque Mayer, no Teatro Maria Vitória , com a Revista “Lua Nova”, isto em 1 de agosto de 1922. Colaborou com Wenseslau Pinto, Raul Portela , com Eduardo Schwalbach, Luís Galhardo e outros grandes nomes da época. Em mais de 40 títulos, ficou sobretudo na memória uma célebre revista, “O 31”, que ainda hoje é evocada e que foi sucessivamente reposta em Portugal e no Brasil durante 10 anos!Inaugurado em 1954, hoje pertença da Misericórdia, constitui efetivamente um grande exemplo e um grande modelo de modernismo na arquitectura de espectáculo. A partir de uma estrutura vertical em dois corpos unidos pelo foyer e áreas de acesso, bem equipado no palco e nas zonas de bastidores e camarins, impõe-se pela volumetria
, pelo rigor do estilo modernista e ainda pela cor avermelhada, que lhe dá o devido destaque na área urbana em que se insere.

Bem hajam 
Carlos Fernandes

Maestro Alves Coelho