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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em dez anos, a Beira Interior perdeu 31 mil habitantes, o equivalente a uma cidade média

Em dez anos, a Beira Interior perdeu 31 mil habitantes, o equivalente a uma cidade média. Estessão os rostos de quem ficou
Rosa morreu na véspera da inauguração da auto-estrada e nunca mais ninguém se lembrou dela - tristes os que morrem na véspera da chegada do progresso. Os filhos em França, a panela de ferro ao lume, o avental preto meio sujo, os cabelos brancos a espreitar debaixo do lenço, a telefonia ligada. Rosa morreu num dia assim. À hora do enterro no cemitério da aldeia, a comitiva de secretários de Estado chegava à cidade. Ajeitaram-se as gravatas enrugadas da viagem, discursou-se sobre as assimetrias entre o Interior e o Litoral - Rosa morreu sem nunca ter visto o mar -, houve bandas e fanfarras, vénias e continências, comes e bebes e garantias de que agora, com a estrada a direito é que o desenvolvimento ia chegar. Quando a festa acabou, já Rosa estava a dormir debaixo da terra e os outros velhos da aldeia em casa, conformados, a contar pelos dedos os que ainda sobram. Num tempo que já não volta, chegaram a ser mais de 400. Agora não chegam a 40 e as ruas são cadáveres de pedra. A auto-estrada, essa ruga gigante que quase cortou a aldeia ao meio e prometia resolver todos os problemas, só serviu para levar gente embora. Não trouxe ninguém e, no dia em que passou a ser paga, os que foram deixaram de voltar. Já não há crianças e a escola fechou. O forno são ruínas e os castanheiros morreram de pé. Já não há recolha de leite e o merceeiro não passa. Não há quem semeie, quem ceife, quem colha ou quem compre o que se colheu. Não há panelas de ferro nem viúvas de preto. Os filhos envelhecem na França, dizem que não voltam e os que voltaram são tão tristes como as casas de granito vazias. Os filhos dos filhos foram-se embora. A Junta deixou de ser Junta e agora é outra coisa qualquer, noutro lugar. O posto público da PT fechou porque o dono morreu. Sobram os velhos, pedaços de rugas à lareira, à espera que a morte os leve como levou a Rosa. Que ao menos na lápide haja um poema de Torga.

 Artigo Rosa Santos :ionline 
Bem hajam 
Carlos Fernandes

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

ANO NOVO

Origem do Ano Novo
As comemorações de Ano Novo variam de cultura a cultura, mas universalmente a entrada do ano é festejada mesmo em diferentes datas.
O nosso calendário é originário dos romanos com a contagem dos dias, meses e anos. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado em 25 de Março, data que marcava a chegada da primavera.
As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1º de Abril. O Papa Gregório XIII instituiu o 1º de Janeiro como o primeiro dia do ano, mas alguns franceses resistiram à mudança e quiseram manter a tradição. Só que as pessoas passaram a pregar partidas e ridicularizar os conservadores, enviando presentes estranhos e convites para festas que não existiam. Assim, nasceu o Dia da Mentira, que é a falsa comemoração do Ano Novo.
Tradições de Ano Novo no mundo:
Itália: O ano novo é a mais pagã das festas, sendo recebido com Fogos de artifícios, que deixam todas as pessoas acordadas. Dizem que os que dormem na virada do ano dormirão todo o ano e na noite de São Silvestre, santo cuja festa coincide com o último dia do ano. Em várias partes do país, dois pratos são considerados essenciais. O pé de porco e as lentilhas. Os italianos se reúnem na Piazza Navona, Fontana di Trevi, Trinitá dei Monit e Piazza del Popolo.
Estados Unidos: A mais famosa passagem de Ano Novo nos EUA é em Nova Iorque, na Time Square, onde o povo se encontra para beber, dançar, correr e gritar. Há pessoas de todas as idades e níveis sociais. Durante a contagem regressiva, uma grande maçã vai descendo no meio da praça e explode exactamente à meia-noite, jogando balas e bombons para todos os lados.
Austrália: Em Sydney, uma das mais importantes cidades australianas, três horas antes da meia-noite, há uma queima de fogos na frente da Opera House e da Golden Bridge, o principal cartão postal da cidade. Para assistir ao espectáculo, os australianos se juntam no porto. Depois, recolhem-se a suas casas para passar a virada do ano com a família e só retornam às ruas na madrugada, quando os principais destinos são os “pubs” e as praias.
França: O principal ponto é a avenida Champs-Elysées, em Paris, próximo ao Arco do Triunfo. Os franceses assistem à queima de fogos, cada um com sua garrafa de champanhe (para as crianças sumos e refrigerantes). Outros vão ver a saída do Paris-Dacar, no Trocadéro, que é marcada para a meia-noite. Outros costumam ir às festas em hotéis.
Brasil: No Rio de Janeiro, precisamente na praia de Copacabana, onde a passagem do Ano Novo reúne milhares de pessoas para verem os fogos de artifício. As tradições consistem em usar branco e jogar flores para “Yemanjá”, rainha do mar para os brasileiros.
Inglaterra: Grande parte dos londrinos passa a meia-noite em suas casas, com a família e amigos. Outros vão à Trafalgar Square, umas das praças mais belas da cidade, à frente do National Gallery. Lá, assistem à queima de fogos. Depois, há festas em várias sítios da cidade.
Alemanha: As pessoas reúnem-se no Portal de Brandemburgo, no centro, perto de onde ficava o Muro de Berlim. Tradicionalmente, não há fogos de artificio.
Curiosidade: Em Macau, e para todos os chineses do mundo, o maior festival do ano é o Novo Ano Chinês. Ele é comemorado entre 15 de Janeiro e 15 de Fevereiro de acordo com a primeira lua nova depois do início do Inverno. Lá é habitual limparem as casas e fazerem muita comida (Bolinhos Chineses de Ano Novo - Yau Gwok, símbolo de prosperidade). Há muitos fogos de artifício e as ruas ficam cobertas de pequenos pedaços de papel vermelho.
Cada cultura comemora seu Ano Novo. Os muçulmanos têm seu próprio calendário que se chama “Hégira”, que começou no ano 632 d.C. do nosso calendário. A passagem do Ano Novo também tem data diferente – 6 de Junho, foi quando o mensageiro Mohammad fez a sua peregrinação de despedida a Meca.
As comemorações do Ano Novo judaico, chamado “Rosh Hashanah”. É uma festa móvel no mês de Setembro (este ano foi 6 de Setembro). As festividades são para a chegada do ano 5763 e são a oportunidade para se deliciar com as tradicionais receitas judaicas: o “Chalah”, uma espécie de pão e além do pão, é costume sempre se comer peixe porque ele nada sempre para frente.
O primeiro dia do ano é dedicado à confraternização. É o Dia da Fraternidade Universal. É hora de pagar as dívidas e devolver tudo que se pediu emprestado ao longo do ano. Esse gesto reflecte a nossa necessidade de fazer um balanço da vida e de começar o ano com as contas acertadas.
Tradições Portuguesas:
As pessoas valorizam muito a festa de Ano Novo, porque sentem o desejo de se renovar. Uma das nossas tradições é sair às janelas de casas batendo panelas para festejar a chegada do novo ano. Nos dias 25 de Dezembro e 1º de Janeiro, costumamos comer uma mistura feita com as sobras das ceias, que são levadas ao forno. O ingrediente principal da chamada “Roupa Velha” é o bacalhau cozido, com ovos, cebola e batatas, regados a azeite.
Para as superstições, comer 12 passas durante as 12 badaladas na virada do ano traz muita sorte, assim como subir numa cadeira com uma nota (dinheiro) em uma das mãos. Em várias zonas do litoral, há pessoas que mesmo no frio do Inverno conseguem entrar na água e saudar o Ano Novo.
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

domingo, 29 de dezembro de 2013

O menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida, a do menino Jesus da Cartolinha, conta que Miranda se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica, quando surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando à revolta.
A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo (pois o cerco mantinha-se há vários meses), sendo a fome e a sede os principais inimigos. Como por milagre as forças renasceram e após a dura batalha, os invasores foram expulsos.
A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim desaparecera! “Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha - disse o povo.
Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.
Na defesa da praça (cercada de espanhóis) esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.
Os mirandeses têm tanta fé no seu “ Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “ Ai, Meu Menino!, Ai Meu Menino!”.
A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio.
Bem hajam 
Caros Fernandes 


sábado, 28 de dezembro de 2013

O Alentejo não tem fim......Roncas de Elvas

A Ronca trata-se de um instrumento da música popular, com raízes muito profundas na tradição e cultura Elvense,  pertence à categoria dos membrafones de fricção cujo uso está muito enraizado no Natal de Elvas. Luís Pedras esteve no Museu Nacional de Etnologia em Lisboa a restaurar Roncas de Elvas pertencentes ao espólio, iniciando um projeto de reabilitação do instrumento que o artista denominou de "Fénix-O renascer da Ronca", tratando-se de uma analogia do instrumento com o renascer das cinzas dessa ave mitológica. Desde então, Luís Pedras realizou diversas exposições em terras onde se tocava a ronca, em Barrancos, Olivença, Badajoz, Campo Maior e, obviamente, inúmeras vezes em Elvas. A partir daí, este instrumento ligado ao sagrado voltou a ser utilizado e tocado com muito entusiamo em Elvas, já existem mesmo alguns grupos que se juntam para tocar e cantar ao Menino pelas ruas da cidade. Nomeadamente, Luís pedras foi distinguido com uma menção honrosa no prémio nacional de artesanato com uma ronca. Neste momento, Luís Pedras é o único produtor do instrumento em Elvas e, possivelmente, no país - See more at: http://www.e-cultura.pt/AgendaCulturalDisplay.aspx?ID=38079#sthash.ED4XGyXB.dpuf
Bem hajam 
Carlos Fernandes  

A vila que deu ao grande mar Pedro Álvares Cabral

Belmonte - A vila que deu ao grande mar Pedro Álvares Cabral

A localização é soberba, nas faldas da grande Estrela. O rio Zêzere corre a seus pés. Belmonte, vila da Beira Interior, distrito de Castelo Branco, é berço de um grande homem do mar: Pedro Álvares Cabral. Aqui, a pacatez dos dias é principalmente interrompida pelos grupos de visitantes. Procuram a paisagem, o património e a história, parte dela entroncando na comunidade judaica.

Ana Clara | domingo, 29 de Julho de 2012

Belmonte, vila da Beira Interior com fundação no século XII (foral de S. Sancho I) tem, como a generalidade das terras portuguesas o lugar fulcral, aquele que magneticamente parece atrair o turista acabado de chegar. No caso desta localidade, que integra actualmente a Rede das Aldeias Históricas de Portugal, a Rua Pedro Álvares Cabral cumpre este papel de local de encontro.

Aqui situa-se a maior parte dos serviços da vila, como a Câmara Municipal, agências bancárias, e algumas lojas e cafés. Cenário diferente daquele que há quase seis séculos, em 1467, acolhia o nascimento daquele que, longe destes ares raianos lusos, ficaria para a história como o homem que descobriu o Brasil. Corria 1500 da Era de Cristo e Pedro Álvares Cabral aportava a terras de Vera Cruz.

Em homenagem à figura e à empresa, assim como a toda a saga marítima, Belmonte acolhe o Museu dos Descobrimentos, situado no antigo Solar dos Cabrais. 

Álvares Cabral habita neste século XXI as memórias e os lugares de Belmonte. O largo Dr. António José de Almeida homenageia em granito e bronze o navegador. Uma estátua que espicaça as palavras de Maria Teixeira. «A nossa terra é mais conhecida pelo Pedro Álvares Cabral». A belmontense posta-se à janela da sua casa térrea, na Rua 25 de Abril.

«Temos até um Museu dos Descobrimentos, sabia?», questiona Maria, dizendo que «são os turistas» que actualmente «trazem vida e animação à vila. Faz-nos muita falta trabalho, porque fecharam as principais fábricas que tínhamos», lamenta.

Aos 72 anos, Maria Teixeira resume o filme da sua vida, uma existência que classifica como tendo sido «de tormentas». Nascida e criada em Belmonte, aqui casou, tendo trabalhado «a vida inteira» na empresa de confecções Cilvet, que entretanto faliu, «e que deixou muita gente no desemprego», lembra Maria, em tom de tristeza.

Para compensar a ausência de oportunidades de trabalho, afirma que «apesar de os turistas chegarem à vila com a carteira cada vez mais vazia» ainda são eles «que vão entretendo os que por cá moram. Mas aqui as pessoas podem viajar nas memórias do tempo, temos imensos museus, o castelo e depois os judeus, que fazem parte também da terra», sublinha.

O castelo e a Igreja de São Tiago:
Prosseguimos caminho rumo ao castelo de Belmonte, construído por D. Sancho I no século XIII. Símbolo defensivo da Reconquista portuguesa, está também intimamente ligado aos Descobrimentos, já que foi residência da família de Pedro Álvares Cabral até aos finais do século XVII.

Actualmente o edifício tem funções turísticas e culturais. O castelo alberga um anfiteatro ao ar livre. Uma sala oitocentista foi transformada em espaço museológico dedicado à história do concelho e do castelo.

A fortaleza avulta acima da vila aproveitando um enorme afloramento granítico a mais de 600 metros de altura. Pedra talhada por mão humana assente sobre a rocha bruta, polida pelos elementos naturais. Passamos sob o arco de volta perfeita que separa o mundo extra muralhas do interior do castelo. 


Subimos à Torre de Menagem. O dia ventoso não nos dissuade a vista entre ameias. Ao longe, o vale por onde corre o rio Zêzere. Em torno, mais próximo, a paisagem assume tons de verde, com manchas de bosque. O mundo repousa num dossel de silêncio, apenas interrompido pelo sopro do vento. Com ele chegam-nos os sons distantes da actividade humana.

Ao percorrermos o castelo, são visíveis as várias transformações efectuadas na muralha oeste com a construção de várias janelas panorâmicas. Destaca-se uma janela de estilo manuelino, da primeira metade do século XVI. Perto do Castelo merece igualmente visita a capela de Santo António, mandada edificar pela mãe de Pedro Álvares Cabral, D. Isabel Gouveia, no século XV.

Prosseguimos caminho pelo património de Belmonte. Um percurso fácil. A vila, pequena, arrebanha em poucos quarteirões os testemunhos do seu passado. Ainda nas proximidades do castelo, impõe-se a Igreja de São Tiago e Panteão dos Cabrais, um monumento de traço românico que sofreu modificações ao longo dos tempos.

«O templo apresenta também alguns elementos góticos e maneiristas». A explicação chega-nos através das palavras da atarefada técnica camarária que dá apoio neste espaço. São muitos os turistas que entram e saem da Igreja. A técnica conta-nos que não há certezas sobre a data de construção deste templo, «tendo talvez sido construído em 1240».

No seu interior destaca-se, entre muitos elementos, uma Pietá, talhada numa única peça de granito da região. Também interessante, o altar-mor, decorado com frescos do século XVI, representando Nossa Senhora, São Tiago e São Pedro, «que muitos dizem ser uma representação de Pedro Álvares Cabral», explica a técnica.

Situada num dos caminhos portugueses de peregrinação a Santiago de Compostela, a Igreja de São Tiago seria também um local onde os peregrinos «encontravam um conforto espiritual no decurso da sua jornada».

Ligado à igreja está o Panteão dos Cabrais, construído em 1483. A renovação deste deve-se a Francisco Cabral, primeiro alcaide de Belmonte após a Restauração, tal como a ele se devem alguns túmulos renascentistas ali existentes datados de 1630, como explica o painel informativo à entrada do espaço.

A força da comunidade judaica:Na Rua da Fonte da Rosa implanta-se a sinagoga de Belmonte, símbolo que comprova a existência de uma comunidade judaica viva na vila. Em Belmonte, a comunidade judaica está referenciada desde o século XIII, testemunhada pelo achado de uma epígrafe e datada de 1297. A presença de judeus na vila não é um facto isolado no caso de Belmonte, tendo-se conhecimento da existência de outras judiarias nas cidades, vilas e aldeias da região.

Com a expulsão de judeus decretada por D. Manuel em 1496 e, posteriormente, com a instauração da Inquisição, muitos judeus abandonaram a vila. Os que ficaram professavam a sua religião em segredo.

Actualmente a comunidade judaica de Belmonte, que oficialmente existe desde 1988, tem uma sinagoga nova e um cemitério próprio. A sinagoga foi inaugurada em 1996, encontrando-se orientada para Jerusalém e tem o nome de Bet Heliahu, em homenagem ao judeu benemérito que ordenou a sua construção. «Acredita-se que é a última comunidade de origem cripto-judaica a sobreviver, enquanto tal, em toda a Europa», lê-se no documento informativo que nos disponibilizam na autarquia de Belmonte.

Daqui, rumamos à antiga Judiaria, estando organizada em torno das actuais rua Direita e Rua Fonte da Rosa. As estrelas de David nos portões, os castiçais na porta e no gradeamento identificam este templo judaico. No exterior, descobrem-se pormenores como as várias caleiras que sobressaem das paredes recolhendo a água da chuva para o Mikvé (tanque interior onde se tomam os banhos da purificação).
«Os judeus eram sobretudo artesãos e comerciantes pelo que nas suas casas, o piso inferior estava destinado à oficina ou à loja, apresentando este, na maioria dos casos, duas portas. Nas ombreiras destas alguns motivos cruciformes são ainda visíveis», esclarece Graça Ribeiro, proprietária da casa de turismo em espaço rural Passado de Pedra, em Caria, freguesia do concelho de Bel
monte, que nos acompanha na visita.
A vida por aqui «é calma», refere, sublinhando que «apenas os turistas vão dando cor a Belmonte». «Pode não acreditar, mas há dias em que são mais de seis e sete autocarros os que aqui chegam com turistas. É o que nos vale», refere, despedindo-se em seguida para ir «ver da panela do almoço» que tem ao lume.

De regresso ao ponto de origem, à Rua Pedro Álvares Cabral, atravessamos o Largo Afonso Costa, onde nos sentamos junto a um banco de jardim para descansar as pernas. Descobrimos mais um relato de outro português que marcou a história da vila. Junto ao banco, há uma lápide que homenageia o músico José Afonso, que viveu em Belmonte com a avó paterna e um tio.

Bem Hajam 
Carlos Fernandes

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pensar Portugal

Pensar Portugal.
 Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente. Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades, que têm tomado às costas o fardo da nossa história. Nós não temos sequer núcleos de grandes homens. Temos só, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma à sua conta os destinos do país. A canalhada cobre-os de insultos e de escárnio, como é da sua condição de canalha. Mas depois de mortos, põe-os ao peito por jactância ou simplesmente ignora que tenham existido. Nós não somos um país de vocações comuns, de consciência comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empréstimo dos grandes homens para a ocasião. Os nossos populistas é que dizem que não. Mas foi. A independência foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda não existia. Aljubarrota foi Nuno Álvares. Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o negócio era bom. O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos só Pombal. O liberalismo foi Mouzinho e a França. A reacção foi Salazar. O comunismo é o Cunhal. Quanto à sarrabulhada é que é uma data deles. Entre os originais e a colectividade há o vazio. O segredo da nossa História está em que o povo não existe. Mas existindo os outros por ele, a História vai-se fazendo mais ou menos a horas. Mas quando ele existe pelos outros, é o caos e o sarrabulho. Não há por aí um original para servir?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

Bem hajam 
Carlos Fernandes

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A arte do fogo

Pirotecnia Oleirense
Os fogos de artifício deixam milhões de pessoas impressionadas graças às suas lindas cores brilhantes. Este efeito se deve à queima de diferentes elementos químicos. Cada íon existente na composição das substâncias utilizadas ou formadas na combustão da pólvora emite uma luz com uma cor característica (conforme pode se ver na tabela 1), quando submetidos à acção de uma chama. 
Cores características emitidas por cada elemento químico ao ser submetido à ação de uma chama.
Isso é explicado por meio do modelo atômico de Rutherford-Böhr. Segundo este modelo atômico, em um átomo existem apenas algumas órbitas circulares onde os eléctrons permanecem, sendo que cada uma tem seu respectivo número de energia. Quando um eléctron permanece em sua determinada órbita, diz-se que está em seu estado fundamental. Se ele passar para uma órbita mais externa, com maior nível de energia, tal elétron se encontrará em seu estado excitado ou activado.

Porém, para que um elétron passe para um nível maior de energia ele precisa absorver um fóton (quantum de energia) de algum meio externo, como o calor do fogo, por exemplo. Nos fogos de artifício há um pavio que, ao ser acendido, inicia a combustão, fornecendo assim energia para os átomos de determinado elemento químico. Desse modo, o elétron “salta” de um nível de menor energia para um de nível superior.
Entretanto, o estado fundamental é mais estável que o excitado, por isso, imediatamente este elétron retorna para a órbita anterior. Mas, para isso, ele precisa perder a energia que ganhou; e ele faz isso emitindo certa quantidade de energia radiante, sob forma de um fóton de comprimento de onda específico, relacionado com uma determinada cor.
Como cada elemento químico possui órbitas com níveis de energia com valores diferenciados, o fóton de energia emitido será diferente para cada um. Por isso, cada elemento químico emitirá uma cor característica. Desse modo, se for utilizado, por exemplo, oxalato de estrôncio (SrC2O4) ou nitrato de estrôncio ((Sr(NO3)2), será fornecido o íon Sr2+ e dará a cor vermelha; ou se for usado cloreto ou nitrato de cobre (CuCl2 e NH4Cu(NO3)3 ), será produzido o íns Cu2+ e fornecerá a cor verde ou azul.
Em Portugal a Pirotecnia Oleirense é uma referência a nível Mundial 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Tradições do Natal Português

Tradições do Natal Português

Presépio

A montagem do presépio é uma das mais conhecidas tradições de Natal em Portugal, mesmo perdendo o seu fulgor. A família, depois de recolher musgo para a base do presépio, coloca neste figuras de barro representativas do nascimento do menino Jesus (sendo que muita gente só coloca a figura do menino Jesus no dia 25).

Decoração de Natal

Pelo Natal as casas portuguesas são enfeitadas com ramos de azevinho e outros adornos, como sinos, estrelas, bolas, anjos e pais natais. Os mais arrojados cobrem até as suas moradias de luzes.

Árvore de Natal com presentes

De origem germânica a tradição da árvore de Natal foi-se enraizando também em Portugal e o mesmo aconteceu com os presentes na sua base. Outrora as prendas colocavam-se nos sapatos e tamancos junto à lareira e abriam-se pela manhã de dia 25. Hoje, espera-se pela meia-noite para se abrirem os presentes. Além dos presentes existem as consoadas, que são ofertas efetuadas como forma de agradecimento ou como demonstração de respeito e consideração.

Missa do Galo

A comemoração religiosa do Natal começa à meia-noite, logo no início do dia 25 de Dezembro, com a Missa do Galo, cuja denominação se deve à lenda que dita que um galo cantou nessa hora para anunciar o nascimento de Jesus. Em algumas localidades ainda é hábito realizar-se a Missa do Galo, e as famílias só abrem as prendas no regresso a casa finda a mesma.

Queima do madeiro

Em determinadas zonas queima-se o cepo do Natal, nos lares ou em público (nos adros), à volta do qual se cantam canções tradicionais portuguesas. É uma tradição familiar, ateando-se o fogo na lareira, alimentando-o com um enorme toro de madeira, (o “canhoto” no Minho, ou o madeiro, cepo, nas restantes regiões).

Ceia de Natal

No dia 24 de Dezembro organiza-se um jantar de consoada onde se reúne a família e se provam iguarias especiais e pratos típicos da época. No almoço do dia 25 é servida a tradicional roupa-velha, feita a partir dos restos da consoada da véspera. Uma tradição já quase esquecida é a de durante a ceia do dia 24 evocar-se os mortos, com o seu lugar à mesa, fazendo-se uma duplicação da ceia para eles.
Enquanto no Minho o bacalhau cozido com batatas, ovos e couves é o prato habitual, em Trás-os-Montes, no Centro Litoral e no Alentejo assa-se o leitão. Na Estremadura e no Ribatejo come-se o tradicional peru recheado, enquanto no Algarve degusta-se carne de porco com amêijoas e linguiça assada.
A maior diversidade vem porém com a sobremesa. No Norte, os mexidos, as rabanadas, o leite-creme, a aletria, os formigos, sopas secas, sonhos, pão-de-ló, bolo-rei, figos, uvas passas e vinho quente fazem as delícias das famílias. Nas Beiras confecionam-se filhós, fatias-douradas, coscorões, bilhós, bicas, arroz-doce. No Ribatejo destaca-se o bolo-podre, as broas, os bolos de gema e as azevias. No Alentejo saboreiam-se as filhós, azevias, sonhos, borrachos e os nogados. No Algarve, saboreiam-se doirados fritos, filhós, bolinhóis, empanadilhas de batata-doce, pinhões, nogados.

As Janeiras e os Reis

Passado o Natal, em Janeiro, reúnem-se pequenos grupos corais de amigos, munidos de instrumentos musicais, que percorrem as suas localidades, batendo às portas e entoando cânticos, com o intuito de receberem doces, vinho ou dinheiro.
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A flor de Natal

 Diz a lenda, que uma menina chamada Pepita, sendo pobre, não podia oferecer um presente merecedor ao menino Jesus, na missa de Natal. Muito triste, contou o facto ao seu primo Pedro, que ia com ela a caminho da igreja. Este disse-lhe que ela não tinha que estar triste, pois o que mais importa quando oferecemos algo a alguém, é o amor com que oferecemos, especialmente aos olhos de Jesus.Pepita lembrou-se então de ir recolhendo alguns ramos secos que ia encontrando pelo caminho, para Lhe oferecer.
Quando chegou à igreja, Pepita olha para os ramos que colheu e começa a chorar, pois acha esta oferenda muito pobre. Mesmo assim, decide oferecê-las com todo o seu amor. Entra na igreja e, quando deposita os ramos em frente da imagem do menino Jesus, estes adquirem uma cor vermelha brilhante, perante o espanto de toda a congregação presente. Este facto foi considerado por todos o milagre daquele Natal.
Bem Hajam 
Carlos Fernandes 

domingo, 22 de dezembro de 2013

A FADA DO CABEÇO DE CARVÃO

A FADA DO CABEÇO DE CARVÃO
Dizem alguns que se alguém desse sete voltas e meia ao Cabeço do Carvão, da meia-noite à uma hora da madrugada, sem olhar para trás, abrir-se-ia uma porta do Palácio Colossal, com divisões sem fim. E quem entrasse teria de levar um longocalabro a cingi-lo à cintura. Uma das pontas teria de ficar no exterior, porque se não fosse assim, como´são muitas as divisões ninguém daria com a porta de saída e ficaria encantado no lugar daMoura. Está lá uma Moura elegante, graciosa, coberta de esmeraldas, safiras e rubis, que passeia com o visitante mas não lhe fornece informações para tudo o que viu. A Moura encantada presenteia sempre quem a visita. De uma vez disse a um ganhão, despedindo-se dele à porta: “Toma uma bolsa de passas de figo muito boas”. Quando a porta se fechou atrás de si ele disse: “Ainda bem que tenho ali na cabaça uma pinga de aguardente e se as passas prestaram, com este frio de Dezembro será muito bom.” Quando foi para comer as passas estas transformaram-se em moedas de ouro.Tentou outra vez e então reparou que quando ia para trincar as passas estas se transformaram em moedas de ouro. Pouco depois viu-se com um saco cheio de moedas de ouro. Regressou a Alcains e o ganhão que era pobre tornou-se rico.
Recolha efectuada em Alcains – Concelho de Castelo Branco.»
Bem hajam 
Carlos Fernandes

sábado, 21 de dezembro de 2013

O dia mais curto

Solstício de Inverno é um fenómeno da astronomia que marca o início do Inverno. É o instante em que o hemisfério Norte está inclinado cerca de 23,5º na direcção do Sol.
O termo solstício tem a sua origem no latim solstitiusque significa "ponto onde a trajectória do sol aparenta não se deslocar". Consiste em sol + sistere que significa "parado".
No solstício de Inverno ocorre o dia mais curto do ano e consequentemente a noite mais longa do ano, em termos de iluminação por parte do Sol.
Em países do hemisfério sul, como é o caso do Brasil, o solstício de Inverno acontece normalmente no dia 21 de Junho. Em 2013, no Brasil, o solstício de Inverno aconteceu no dia 21 de Junho às 2h04, horário de Brasília. Nessa hora, o Sol atingiu a maior declinação de acordo com a linha do Equador.
O solstício acontece graças aos fenómenos de rotação e translação do planeta Terra, pois graças a eles a luz solar é distribuída de forma desigual entre os dois hemisférios. O solstício de Inverno significa que a luz do sol não incide com tanto fulgor no hemisfério em questão. São fenómenos opostos dependendo do hemisfério em que um determinado país se encontra. Por esse motivo, quando é Inverno no Brasil (hemisfério sul), é Verão em Portugal (hemisfério norte).
Bem hajam 
Carlos Fernandes

Um ninho de espiões .Avenida Palace Hotel

Um ninho de espiões

O Avenida Palace era o poiso favorito do regime salazarista. Durante a IIª Guerra Mundial transformou-se num ninho de espiões. Resta uma porta por onde passava quem não quisesse ser visto ou dar nas vistas
Era no centro nevrálgico da Baixa lisboeta que eles bebiam ou fingiam que tomavam copos. Desfolhavam jornais e fingiam que liam as letras. Os espiões. De nacionalidade variada. Alemã. Inglesa. Francesa. Tanto fazia. Razões de guerra. Um dos pontos de encontro das gabardinas da secreta ficava no Bar Americano, apesar do nome não condizer com a predilecção que os filhos e os enteados do Tio Sam nutriam pelo espaço. Hoje em dia nem uma cadeira sobrou do botequim. Está transformado num depósito de bagagem de hóspedes. Pertence ao Hotel Avenida Palace. Vizinho esquerdo da estação do Rossio. Edifícios que, pela estética física, podiam ser gémeos. E não só. Muito mais. Mais o que uniu o terminal ferroviário às cinco estrelas do hotel. José Luís Monteiro foi, de facto, o arquitecto que projectou ambos os edifícios, mas o cordão umbilical não se resume à similar e imponente estrutura arquitectónica. É mais. Muito mais.
No quarto piso do Avenida Palace existe uma porta que não traz amnésia aos tempos da Segunda Guerra Mundial e encanecido regime salazarista. Manuel Araújo, subdirector da unidade hoteleira de legítima distinção, leva a mão à algibeira do blaser impecavelmente azul. Num molho infinito de chaves encontra rápido a que pertence à fechadura. “São muitos anos”. Trinta e oito. O homem que entrou moço para o luxo conhece, até no escuro, a disposição do chaveiro. O pulso direito roda a maçaneta. Delicadamente. Vai abrir. Trata o puxador como um tesouro. Abre. E eis outra porta. Trancada a mil cadeados desde 1955. “Essa chave não a tenho”. Ninguém. E nem um terramoto libertará aquela entrada. O critério de mantê-la trancada resume-se às eternas obras da estação do Rossio e das nulas razões para a reabrir.
Mas se regressarmos ao período de 1939-1945, e aos meados dos anos cinquenta, encontraremos motivos porque já esteve aberta, ainda que às escondidas. Memórias antigas garantem a existência de um corredor que ligava a gare do Rossio ao Hotel Avenida Palace por meio do famoso andar. O 4º. “É verdade”. Traduzia-se numa excelente forma de chegar incógnito e sem controlo policial. Por ali passava a nata da aristocracia e da burguesia de bolsos abastados. E ministros. Nacionais. Estrangeiros. Muitos alemães. Poucos ingleses. Raros americanos. E sobretudo gente que não queria ser vista. Nem dar nas vistas. Como espiões que vestiam a capa de adidos diplomáticos.
Oliveira Salazar, apesar de não ter jeito, ou feitio, para a profissão de esculca, por diversas vezes experimentou a passagem. Quando tinha encontros secretos, ou quase secretos, e queria ser invisível, só quem o esperava na suite presidencial sabia que o patrão do executivo pisava as solas no Avenida Palace. “O senhor Gameiro contava”. O empregado mais antigo do hotel, recentemente falecido, assistiu e deixou a herança de estórias. O senhor viu Salazar a entrar pelo hotel através do caminho oculto e a enfiar-se sorrateiramente no quarto 406 onde terá reunido com um embaixador importante, daqueles que oficialmente não se encontrava em Portugal. Quando a reunião acabou, o velho Gameiro, encostado ao elevador, olhou muito para Salazar, olhou tanto, que um polícia sem farda – um dos inúmeros agentes que tropeçavam por todos os cantos, perguntou-lhe se “havia algum problema”. Nenhum. “Só queria ver a excelência”. Manuel Araújo gargalha. O riso vem sempre quando relata este episódio. Lembra-se do calibre inconfundível do humor do colega. 
NÃO ERA SÓ O DOUTOR
Não era só o doutor de Santa Comba Dão e o séquito da excelência de Gameiro que frequentava o Palace. Nazis e seus muchachos adoravam a luxúria. Um agente alemão e francês ao serviço dos Aliados dormiram, comeram e bisbilhotaram no local. Se o livro de registos falasse não haveria boca que quisesse ficar cosida. Das individualidades que tiveram nome é um verdadeiro desfilar de vultos sobejamente conhecidos os que fizeram ‘check in’ e ‘check out’ na recepção do Avenida Palace. Chefes de Estado, figuras da Igreja Católica, diplomatas, artistas. Exemplos? O imperador Hirohito desfrutou a sua lua-de-mel no quarto que hoje corresponde ao 506. Alves dos Reis, falacioso o quanto baste, e simpático, regalou-se à grande e literalmente à francesa na opulência.
O Presidente da República Manuel Teixeira Gomes elegeu o Palace como a hospedaria da sua predilecção. A carteira de Almada Negreiros não chegava para sequer pagar meia diária, mas a companhia de dança Les Ballets Russes aquando da sua passagem por Lisboa, (que coincidiu com a revolução que levaria Sidónio Pais ao poder) ofertou-lhe o júbilo: convidou o génio e o versejador futurista para ali se instalar. François Miterrand, estalajadeiro assíduo, e mesmo depois da política, o ‘mon ami’ seguiu cumpridor. Mário Soares, amigo de datas longas do ex-presidente da República francesa visitou-o. 
AS EFEMÉRIDES LIGADAS
As efemérides ligadas ao 123 da Rua 1.º de Dezembro implicaram com o destino do País. Sidónio Pais, em Dezembro de 1918, foi alvejado a tiro seco mortífero enquanto cumpria a rotina: ia almoçar no restaurante do Avenida Palace. Os assassinatos do rei Dom Carlos e do príncipe regente foram testemunhados em directo de uma das varandas que alcançam o profundo da cidade. José Relvas no seu livro ‘Memórias’ assegura que nos exaltados dias 4 e 5 de Outubro de 1910 os republicanos fizeram do Palace o quartel-general. 
O período de 1939-1945 provocou azáfama e imprevistos nas estrelas do hotel. No entanto, nunca perdeu nenhuma. Em guerra, tudo que é bom e que vem em acréscimo, torna-se em maravilha. A enchente de criaturas era tamanha que colchões serviram de camas e biombos fizeram de paredes. À tarde, na pastelaria Suíça os hóspedes – espiões de ambas as frentes, – misturavam-se com refugiados que aguardavam vistos de saída em direcção ao novo mundo. 
Pensar que o Hotel Avenida Palace foi projectado para servir de escritórios, parece impensável, mas inicialmente a Companhia Real dos Caminhos de Ferro, primeiro proprietário, pretendeu albergar naquele espaço os seus serviços administrativos. 
Por sugestão da Waggons Litts, que mais tarde, em 1900, adquiriu o imóvel, a rota fez um ângulo de cem graus. Os futuros donos estavam conscientes que a afluência de clientes seria estupenda. Só eram 33 horas. De Lisboa a Paris. O Sud Express, que desde 1877 fazia a ligação semanal, passou a fazê-la diariamente a partir de 1 de Julho de 1890. Fariam sucesso. 
RESTAURADORES NUNCA MAIS FORAM O MESMO 
Assim, dois anos mais tarde, a 10 de Outubro, o ‘Diário de Notícias’ noticiava: “Um estabelecimento de primeira ordem, moderno, elegante, luxuoso que se pode enfileirar ao lado dos primeiros do género nas grandes cidades europeias”. Os Restauradores nunca mais foram o mesmo. A inauguração do Grande Hotel Internacional trouxe esplendor à Baixa. Seguidos doze meses o nome do empreendimento seria alterado para Hotel Avenida Palace. Mantém-se o título. O luxo. A elegância. Em seis pisos. Oitenta e dois quartos, 17 suites, decorados ao estilo Luís XV e XVI, Dona Maria, Dom José e Império. O género de rasto neoclássico é de influência declaradamente parisiense adoptando a veia da época. 
Ribeiro da Silva, um dos proprietários, não tem gosto pelo flash fotográfico, mas tem e dá gosto quando fala. A memória afinada sabe de cor, e duas vezes, o mapa do hotel. Antes e depois das obras. A remodelação finalizada em 1998 respeitou o espírito do hotel mantendo o ambiente e a decoração do princípio do século. “O mundo é o nosso cliente”. Antes do 25 de Abril de 1974, o “mundo” recaía sobretudo nos Estados Unidos da América. 
Hoje em dia escasseiam americanos. Europeus do Norte, japoneses, alemães e russos são os turistas que mais procuram o Avenida Palace. De espiões e trocas e baldrocas, Ribeiro da Silva desconhece. Ouviu falar. “Mas de concreto não sei de nada”. Somente a partir de 1964 o hotel passou para a sua gerência. A guerra, a segunda, é verdade, parou no ano de 1945. Boas contas. “Não estávamos cá”. O trespasse do hotel não teve direito a cavar histórias. Nem a fotos de acalorados evos. 
Quanto à fama que o Avenida Palace conserva de ter apaparicado o Antigo Regime, Ribeiro da Silva encolhe os ombros e ri. “Eles vinham aqui porque queriam o melhor!” Refere-se também ao extinto restaurante. Com pratos que davam inveja aos espaventosos de Paris. “Era imprescindível”. A gravata. Sem ela nem a sombra se sentava no salão onde a gastronomia francesa adolescia água na boca. 
“Os tempos mudaram” desde os cravos de 1974. A mudança cingiu-se à pouca clientela do faustoso restaurante que começara a dar prejuízo. Ficou sublimado a um serviço de quartos “espectacular”. Mudaram os tempos menos a adega com garrafas centenárias. “Algumas das marcas já nem se fabricam.” Como o rótulo da história do Avenida Palace.
OS OUTROS HÓTEIS
ALGUNS FAMOSOS NINHOS DE ESPIÕES
Foi na espionagem que o cartão de visita da neutralidade portuguesa mais ressaltou. Durante anos e anos, mas sobretudo ao longo da IIª Guerra Mundial, Lisboa foi um verdadeiro ninho de espiões. O Hotel Avenida Palace era o mais conhecido mas não foi o único a ser frequentado por estes homens e mulheres que já deram mais do que um argumento à sétima arte. O bar do Hotel Tivoli, os hotéis Vitória, Suíço, Duas Nações (gerido por um alemão) e o Avenida Palace tinham a fama de serem a favor do Eixo. Por sua vez, o Hotel Metrópole e o luxuoso Hotel Aviz eram considerados pró-britânicos. 
Na linha do Estoril os alemães escolheram o Hotel Atlântico que teve, em 1940, Saint-Exupéry como hóspede. Os ingleses nutriam predilecção pelo Grande Hotel do Monte Estoril e o Palácio Hotel.
A ESPIA DUPLA DO AVENIDA
Nathalie Sergueiew nasceu em Petersburgo no ano de 1912. Na altura da revolução Bolchevique a sua família escolhe Paris para residir. Na cidade das Luzes estuda pintura na Académie Julian. Amante de viagens e sobretudo da aventura, a jovem dispensou transportes para ir a Varsóvia. Foi a pé. Quando o nazismo galga o poder, estava em Berlim. Na qualidade de jornalista ‘free lancer’ consegue entrevistar uma série de partidários do III Reich. No ano da noite de cristal, ‘Lily’ – nome de combate – prepara nova expedição, e desta vez prefere a bicicleta, com a meta de chegar a Saigão. Está na Síria no dia em que rebenta a Segunda Guerra Mundial. Um ano depois, no momento em que Hitler tem Paris na palma da mão, a moça define-se. É recrutada como espia pelos serviços secretos militares alemães. Mas na sua manga cabem outros intuitos. Em Madrid oferta os seus préstimos aos ingleses. Aceitam-na. Torna-se agente dupla ao serviço do XX Commitee. ‘Treasure’ é o seu código. Em Março de 1944 vem a Lisboa. 
O propósito do seu envio à capital de Portugal que contava com uma farta enchente de refugiados, era simples: teria que receber um radioemissor das mãos do seu controlador alemão – o aparelho de espionagem aeronáutica da referida Abwehr. O encontro deu-se no famoso Hotel Avenida Palace.

Por:Miriam Assor

Bem hajam 
Carlos Fernandes 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A ver navios

A VER NAVIOS

            A origem desta expressão está ligada à cidade de Lisboa, particularmente na versão a ver navios no alto de Santa Catarina. Aquele local privilegiado da capital permite ver claramente os navios que entram no Tejo ou saem a barra, pelo que, em tempos antigos, quando não havia muitas distracções, os lisboetas iam para ali passar o tempo, a ver o trânsito dos barcos no rio... No tempo das descobertas, também era dali que se viam partir ou chegar as caravelas que participavam nas grandes aventuras desses tempos, e que traziam as riquezas das Índias ou do Brasil. Há ainda outra interpretação: depois de Portugal ter ficado sob o domínio estrangeiro, os saudosistas esperavam ver surgir, numa manhã de nevoeiro, o desejado D. Sebastião, e aquele era o lugar indicado para o ver aparecer no horizonte... Só que, como isso nunca mais acontecia, a expressão a ver navios passou a significar algo que muito se esperou mas nunca se concretizou. E o Alto de Santa Catarina continuou, sempre, a ter muitos mirones... 
Conta-se, também que foi deste miradouro junto ao Chiado que o general francês Junot assistiu impotente à partida da frota transportando a família real portuguesa para o Brasil, em Novembro de 1808. Daí a expresão popular, sinónima de frustração: «ver navios do Alto de Santa Catarina». A vista sobre o rio, o porto de Lisboa e a Baixa Pombalina não podia ser melhor. 
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O filho e a filhós


“As palavras são como as cerejas” – dizia o meu “avó” 
Pois cá estão elas a puxar uma pelas outras.
Puxei pelas “Bolas de Berlim”, que uma refugiada judia da Alemanha introduziu em Portugal, fiz crescer água na boca a um bom número de leitores, e agora vem o velho amigo Lopes  perguntar mais detalhes sobre as tradicionais “filhós” portuguesas.
Antes de responder directamente à pergunta, um esclarecimento sobre os ditos e bem saborosos fritos do Natal.
Eu não sei qual a origem das filhós, como doce. Mas já assim se chamavam no século XVI, pois já Gil Vicente escreveu sobre elas:
mando-vos eu sospirar pola padeira d’Aveiro que haveis de chegar à venda e entam ali desalbardar e albardar o vendeiro
senam tever que nos venda vinho a seis, cabra a três pão de calo, filhós de manteiga moça fermosa, lençóis de veludo casa juncada, noite longa chuva com pedra, telhado novo a candea morta e a gaita à porta. Apre zambro empeçarás olha tu nam te ponha eu o colos na rabadilha e verás”.
        Quanto à etimologia, filhós vem do latim filiola, que significava filha pequena.
         Agora, respondendo à pergunta: filhós é tão bom, que todos gostam de comer e ninguém se farta, na noite da consoada, e no dia seguinte.   Por isso é tanto masculino, como feminino, tanto singular, como plural.    Comem todos: o filhós, a filhós, os filhós, as filhós.
Há quem use no singular filhó, mas parece-me que está errado.   Nos séculos XIV e XV usava-se filhó por filho, e talvez por detrás desse uso se esconda a origem do bolo.  Não sei!
 E há também quem use no plural filhoses e também filhozes.   Este plural já entrou no costume, e portanto, segundo os dicionários,  não é errado.Nos Açores chamam-lhes“malassadas”.
       Bom proveito!
Bem hajam 
Carlos Fernandes

À grande e à Francesa ,ou melhor à pequena mas à francesa !!

Viver à grande e à francesa é uma expressão que significa viver com luxo e ostentação.
Esta expressão popular é utilizada desde a primeira invasão francesa, em 1807, devido ao modo luxuoso como vivia o general Junot e os seus acompanhantes em Lisboa.
Junot, nomeado Duque de Abrantes, estabeleceu residência e quartel-general em Lisboa, no palácio do Barão de Quintela, na rua do Alecrim, ao Chiado. Os seus oficiais instalaram-se em casa de nobres e da burguesia de Lisboa, exigindo cama, mesa e roupa lavada.
Passeavam garbosos, em uniforme de gala e frequentavam o teatro de S. Carlos com as damas de alta sociedade.
Junot e o general Delaborde, comunicaram ao Senado da Câmara de Lisboa que viriam de bons olhos o pagamento de uma gratificação pela protecção da capital. A exigência foi aceite, e durante seis meses, Junot  recebeu 16 contos e 800 mil réis, enquanto o general Delaborde recebeu 4 contos.
Para a época isto representava uma quantia milionária que lhes permitia "viver à grande e à francesa! 
Dois séculos passados ,na minha aldeia vive-se à pequena e à francesa,é verdade somos pequenos , pequeninos ,levaram-.nos os correios o centro de saúde , os nossos filhos partiram , o emprego não existe , a cultura não tem visto de entrada, por estas bandas, resta-nos os nossos idosos a farmácia multi serviço, até injecções nos dá, a agência funerária, e muitos mas muitos cafés, como eu gostava de uma papelaria para ao menos comprar o jornalito,  mas a nossa gente está em festa o povo está satisfeito, vamos ter um relvado de categoria  uma equipa de luxo jogadores de fora , vamos viver à francesa , o nosso presidente tem palavra, só falta um fadista e uma estátua da Nossa Senhora de Fátima , que França é já aqui !!
Bem hajam 
Carlos Fernandes

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Oleiros uma aldeia no Pinhal

A demarcação e a individualidade da região onde se situam os domínios do Pinhal profundo são-lhe conferidas pelas características da sua paisagem, que condicionaram um modo de vida e reafirmaram interioridades e solidões”.

Habitada primeiro pelos Celtas e mais tarde pelos Romanos, por aqui passaria a via romana que ligava Coimbra (AEMINIUM) à Covilhã. Atravessaria a Mata de Álvaro,
Mosteiro (atravessa a Serra de Alvélos onde existem vários 
troços de calçada),
Oleiros, onde existe uma ponte sobre a ribeira de Pero Beques, (um desvio poderia ligar à Sertã atravessando a Serra do Cabeço Rainho onde existem vários vestígios: uma 
calçada com 2 km ascendendo pela vertente norte, a calçada de Besteiros no alto da serra, um troço já alcatroado em Castanheira Cimeira já na vertente sul e acalçada em Ermida), atravessaria o rio Zêzere em Cambas ou em Álvaro onde existe uma ponte talvez de origem romana sobre a ribeira de Alvélos.
Também num local bem próximo da aldeia de Orvalho, junto ao marco geodésico do cabeço Marmoural, existem ainda alguns vestígios de uma antiga exploração mineira, que se julga serem de origem Romana.
Etimologicamente o termo Oleiros, permanece envolto em várias dúvidas, poderá estar ligada à abundância de nascestes naturais por toda a região, ou “Olheiros” - “Olhos de água”, mas há autores que defendem a origem da palavra no latim “ollarium “ -“fabricante ou negociante de grosseiras panelas de barro”, apesar de não se encontrarem vestígios da existência de oficinas artesanais no concelho, sendo porém, abundante a matéria prima indispensável para o efeito, o barro “greda argila”.
De origem remota, a pitoresca e atraente Vila de Oleiros, situada entre serranias, fez parte do Priorado da Ordem do Hospital e mais tarde veio a ser integrada como vigairaria na apresentação da Ordem do Crato.  
A primeira referência escrita que temos sobre a Vila de Oleiros data do ano de 1194. Foi neste ano, a 13 de Junho, que D. Sancho I e sua esposa D. Dulce fizeram a doação de algumas terras a D. Afonso Pelágio, Prior da Ordem do Hospital. Nessa doação consta que as terras doadas, entre as quais Oleiros, pertenceriam para sempre à dita ordem, na pessoa de D. Afonso Pelágio. A ordem donatária dividiu então as terras em quatro partes iguais tomando para si uma e deixando as outras três para o concelho então criado. Os capítulos gerais da Ordem do Hospital, que se realizaram entre 1260 e 1261, terão tido lugar no antigo Convento do Mosteiro, que existiu naquela freguesia e de que actualmente apenas restam vestígios espalhados um pouco por todo o lado como é o caso das colunas dóricas que suportam o corpo central da IgrejaMatriz de Oleiros, originárias do convento.
A 22 de Março de 1232, D. Sancho II doou-a de novo à Ordem do Hospital, representada então por D. Mendo Gonçalves, que manda povoar a vila e lhe concede foral, autorizado por D. Afonso mestre dos Hospitalários. A 20 de Outubro de 1513, D. Manuel concedeu-lhe o “Foral Novo”.
Durante as invasões francesas, sofreu Oleiros várias demandas entre as quais a destruição da Capela de Santa Margarida que, segundo reza a tradição, se situaria  no local da Portela e foi usada pelos franceses como paiol de munições. O General Massena, quando da sua passagem pela vila de Oleiros ordenou a sua destruição, ficando completamente em ruínas. A imagem de Santa Margarida veio aparecer mais tarde intacta no local da Horta da Santa, o que foi considerado milagre e recolhida na Igreja Matriz. A actual capela foi reconstruída no século XIX e recebeu novamente a imagem daquela Santa.
Bem hajam 
Carlos Fernandes
Oleiros