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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O milagre das rosas

Conta a lenda que o rei D. Dinis foi informado sobre as ações de caridade da rainha D. Isabel e das despesas que implicavam para o tesouro real. Um dia, o rei decidiu surpreender a rainha numa das suas habituais caminhadas para distribuir esmolas e pão aos necessitados. Reparou que ela procurava disfarçar o que levava no regaço. D. Dinis perguntou à rainha onde ia e ela respondeu que se dirigia ao mosteiro para ornamentar os altares. Não satisfeito com a resposta, o rei mostrou curiosidade sobre o que ela levava no regaço. Após alguns momentos de atrapalhação, D. Isabel respondeu: "São rosas, meu senhor!". Desconfiado, o rei acusou-a de estar a mentir, uma vez que não era possível haver rosas em janeiro. Obrigou-a, então, a abrir o manto e revelar o que estava lá escondido. A rainha Isabel mostrou, perante os olhos espantados de todos, as belíssimas rosas que guardava no regaço. Por milagre, o pão que levava escondido tinha-se transformado em rosas. O rei ficou sem palavras e acabou por pedir perdão à rainha que prosseguiu com a sua intenção. A notícia do milagre correu a cidade de Coimbra e o povo proclamou santa a rainha Isabel de Portugal.
Bem hajam 
Carlos Fernandes

sábado, 25 de janeiro de 2014

Lenda de São João da Beira Baixa

O montante cristão não dava repouso à cimitarra muçulmana. Mais fortes os Nazarenos, ou mais felizes, levaram de roldão os sequazes de Mafoma. Repelidos de combate em combate, perseguidos sem mercê, era-lhes impossivel transportar todas as riquezas adquiridas durante séculos. Recorriam então ao expediente de as ocultar nos sítios, que julgavam mais adequados.
 Principia aqui a dar largas à sua expansibilidade a imaginação popular. Esses tesouros eram, no dizer do povo, guardados por mouras encantadas.
 O rei agareno de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima. Era formosa como uma visão do paraíso prometido por Maomé e o pai estremecia-a como a fibra mais sensivel da sua alma. Os cavaleiros cristãos das vizinhanças empregavam os maiores esforços para se apoderarem dos seus estados, cativarem a filha e assenhorarem-se dos seus bens e jóias.
 O rei quis resistir, abrigado com as muralhas da cidade, mas como as hostes assaltantes eram em número descomedido e a resistência seria uma loucura, resolveu fugir pelos carreiros mais escusos da serra, levando a filha e o resto das riquezas, que ainda não tinham sido postas em lugar seguro.
 Andaram, andaram durante todo o dia, mas ao anoitecer Fátima não podia dar mais passada, morria de cansaço. A conjuntura era temível. Como socorrê-la naquele descampado, no sítio mais agreste da serra? De súbito, na sua frente, abre-se um esplêndido caminho todo florido, calçado de pedras finíssimas, e ao cabo dele, um foco de luz que iluminava tudo como se o Sol brilhasse no Zénite.
 Era como um milagre operado pelo Profeta, a salvação que surgia a alguns passos. Então o rei, a filha e a comitiva sentiram a esperança renascer-lhes no coração. Seguiram a estrada que se lhes abria na frente e entraram num palácio resplandecente, tão cheio de coisas magníficas que todos se quedaram deslumbrados.
 O que depois se passou nunca ninguém o soube, mas nos dias imediatos viram os serranos subir e descer pelas encostas diversos pastores, que ninguém conhecia na localidade. Demoraram-se algum tempo por aqueles sitios e faziam repetidas visitas ao Coruto de Alfátema, nome por que se designava o cabeço. Um belo dia desapareceram e nunca mais ninguém lhes tornou a pôr a vista em cima.
 Esses pastores eram mouros disfarçados, e foi por indiscrição deles que se soube que uma boa fada, madrinha de Fátima, a prometera guardar na sua vivenda encantada, sempre jovem e formosa até que os fiéis sectários do Alcorão conquistassem de novo Portugal.
 Esta crença estava arreigadíssima no ânimo dos camponeses, e durante os séculos XII e XIII era enorme o pânico, na persuação de ver chegar os esquadrões mouriscos em busca da linda Fátima.
 A lenda ainda tomou mais corpo no espírito crédulo dos simples aldeões quando, poucos anos depois de os Cristãos tomarem Manteigas, se deu o acontecimento que vamos narrar.
 Uma pobre mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar, de madrugada, no dia de S. João, pelo Corista de Alfátema. Sentindo-se fatigada, sentou-se num dos muitos penhascos que por ali abundam para descansar e comer algumas côdeas de pão que trazia.
 A boroa, dura de muitos dias, quase não se podia tragar. Quando a desventurada dizia mal à sua vida por ter de ingerir um tão pouco alimento, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.
 Comeu alguns, e, lembrando-se dos filhos que choravam longe, encheu deles uma cesta que levava.
 Dirigiu-se lépida para a choupana, gozando antecipadamente da alegria que ia proporcionar às crianças. Qual não foi, porém, o seu pasmo, quando, ao destapar a cesta, em vez de figos se lhe deparam diamantes e reluzentes moedas de ouro.
 Estava rica. Mas a mendiga que minutos antes dera graças a Deus por ter só pão para saciar a sua fome e a dos seus, sentiu mordedura da ambição. Um cabaz de pedras preciosas e de boas dobras de ouro já era pouco para ela! Queria ser riquíssima.
 Volta apressurada ao Coruto. Mas o Sol, que subira de todo no horizonte e que refulgia agora no imenso céu sem nuvens, arrancava da superfície polida dos fraguedos miríades de cintilações ofuscantes. O encanto quebrara-se, os figos tinham-se sumido.
Presa de uma grande aflição e desespero, arrepelando os cabelos, ia para blasfemar, quando ouviu uma voz suavíssima cantar:

Era teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
Fonte BiblioVASCONCELLOS, J. Leite de Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966 , p.776-778
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lenda de Almaceda

Estranha e impressionante, simultaneamente, esta lenda. Estranha, pela sua própria concepção natural, tão diferente de outras histórias no género. Impressionante, por evocar o mundo do sobrenatural, sempre tão próximo e tão afastado do nosso pensamento. 
E, por singular coincidência, escutei-a pela primeira vez, era eu ainda bambino irrequieto, numa noite de tormenta. A certa altura, nem sei porquê, disse que tinha visto uma caveira a espreitar pela janela, iluminada por um relâmpago. Foi o suficiente para a minha velha criada, a Maria do Rosário, tremer, benzer-se e correr a fechar a janela. Depois, tremendo sempre, e benzendo-se de quando em vez, contou-me a história que eu vou tentar reproduzir. A história da sua terra...

Há muitos, muitos anos, nesses terrenos onde hoje fica situada a freguesia de Almaceda, existiam apenas enormes extensões despovoadas. E por ali costumava correr no seu cavalo favorito um fidalgo de nome Rodrigo — jovem, rico, mas bastante aventureiro. Era ele órfão de pai e mãe, e vivia com sua irmã, D. Madalena, numa casa senhorial, rodeado de criados. Tudo, porém, o aborrecia. Só os passeios de manhãzinha ou ao entardecer, nos dias em que a chuva não vinha alagar os campos, lhe davam certo bem-estar. E quando o tédio começava a assediá-lo, como tenaz a apertar-lhe a garganta, D. Rodrigo fugia para a Corte ou para onde pudesse divertir-se e gastar o seu dinheiro...

Certa manhã de Março, mal acabara o Sol de surgir no horizonte, D. Rodrigo e D. Madalena montaram a cavalo e saíram para o seu habitual passeio. Ainda não estavam longe de casa quando, de súbito, o fidalgo estacou a montada, olhando fixamente um ponto. D. Madalena, apercebendo-se de que seu irmão ficara para trás, parou também o cavalo e indagou, curiosa: 
— Que estás a ver? 
D. Rodrigo sorriu. 
— Ou eu estou ainda a sonhar… ou junto àquele arbusto está urna caveira! 
Madalena olhou-o, desconfiada e medrosa. 
— Rodrigo! Que ideia a tua! Não brinques com essas coisas! 
O jovem, porém, insistiu: 
— Não estou a brincar. Ora repara! Vês... além? 
O coração da jovem bateu com mais pressa. 
— Sim... Parece que, na verdade... 
D. Rodrigo tornou-se brincalhão. 
— Vamos! Coragem!... Desce do teu cavalo e vem comigo cumprimentar a caveira! 
Madalena afligiu-se: 
— Rodrigo! Por favor! Tem mais respeito pelos mortos! 
Uma gargalhada do jovem fidalgo perdeu-se na extensão do terreno. 
— Respeito? Queres ainda maior do que estou a demonstrar? Chegamos ao apuro de interromper o nosso passeio, para lhe dirigir um cumprimento!... 
Madalena voltou o rosto, pálido pelo medo. 
— Rodrigo! Não gosto dessas brincadeiras, já te disse! 
O jovem aproximou-se da amazona. A sua voz soou ainda mais galhofeira: 
— Grande medrosa! Nem pareces minha irmã! Porque tremes assim? 
E apenas uma caveira que ali está! 
Olhando-o de soslaio, Madalena inquiriu na mesma voz medrosa: 
— Mas... donde teria vindo? 
Nova gargalhada de D. Rodrigo. 
— Minha tonta! Queres saber donde veio aquela caveira?... Do cemitério, com certeza! Aquilo por lá deve andar muito aborrecido e ela resolveu dar um passeio, como nós! 
Então, a jovem gritou, como que alucinada: 
— Rodrigo! Não brinques mais! 
Ele ria, olhando a irmã. 
— De que tens medo? Aquilo são ossos do corpo humano, nada mais.
— Bem sei. Mas devemos ter respeito por eles... Vamo-nos embora! Não me sinto bem aqui... 
— Pois vamos! Antes, porém, de abandonarmos este local, manda a etiqueta que desejemos a esta caveira um bom dia... 
— Rodrigo! Por favor! 
Mas o tom suplicante da irmã irritou-o. Achou por bem contrariá-la. Excitá-la. Continuou, sempre em tom de mofa: 
— E já agora... se, na verdade, a caveira saiu do cemitério por estar aborrecida... devo lembrar-lhe que, às vezes, também estou aborrecido... E, como resido aqui perto, tenho muito prazer em convidá-la para jantar hoje comigo! 
Madalena tapou o rosto com as mãos, numa irreprimível crise de choro.
— Que heresia, Rodrigo! Que heresia! 
E esporeando o cavalo, a jovem amazona voltou para casa, deixando atrás de si as gargalhadas impertinentes do irmão, que ria do seu pânico...
Contudo ainda a donzela galopava à vista, quando aos ouvidos de D. Rodrigo soou uma voz cava e pausada, vinda não se sabia de onde: 
— Cavaleiro! Não quero de forma alguma desapontar-te... Se isso te diverte, podes estar certo que esta noite não esquecerei o teu convite... 
O jovem fidalgo olhou em volta. Ninguém, além dele próprio e da figura vaga da irmã que continuava galopando, a perder-se na distância... 
O riso morreu-lhe na garganta. Seria uma alucinação dos seus sentidos? Sentiu-se inquieto. Estava já arrependido da sua brincadeira macabra. Bem lhe tinham recomendado mais respeito pelos mortos...
Conforme reza a história que estou a reproduzir, D. Rodrigo ficou-se ainda uns momentos a olhar a caveira no solo. Sem voz. Sem gestos. De súbito, como louco, esporeou o cavalo e seguiu para o mosteiro mais próximo, onde contou o sucedido. Os frades, porém, julgaram-no ensandecido e apenas lhe deram uma pequena cruz para colocar no peito, a qual o livraria dos ataques do Demónio. Mais reconfortado, D. Rodrigo voltou ao solar onde a irmã o esperava, transida de pavor. 
Ao vê-lo entrar, ela correu ao seu encontro: 
— Tardaste tanto! São quase horas de jantar e eu morro de medo! 
Desta vez ele não brincou. 
— Sossega! Tudo correrá bem. Trago comigo esta cruz que me deu o irmão Gregório. 
Madalena olhou-o com espanto. 
— Mas... 
Ele interrompeu-a. Os seus modos, agora, eram solenes. 
— Ouve, Madalena! Se alguém estranho vier jantar hoje connosco, teremos de o receber como bons anfitriões. Já mandei colocar mais um talher na mesa. E avisei o nosso criado José de que a visita esperada hoje vai causar-lhe grande pasmo. Portanto… não se deve admirar. 
A jovem olhou o irmão, num misto de assombro e medo. 
— Tu... tu pensas que, na verdade… alguém estranho virá aqui?... 
Ele acenou com a cabeça afirmativamente, deixando a irmã ainda mais trémula. 
Vai para o teu quarto. Hoje dispenso-te de jantar. 
Madalena gritou, agarrando-se a ele: 
— Nem que morra de medo, hei-de ficar contigo! Não te deixarei sozinho! 
Umas pancadas fortes, na porta da entrada, interromperam a conversa. O dono da casa sorriu com esforço. 
— Aí está a nossa visita! E pontual... 
Balbuciando quase, Madalena segredou: 
— Benze-te, Rodrigo! Pelo sinal da Santa Cruz, livre-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos... 
Um grito do criado José interrompeu a oração de Madalena e logo uma voz cava, soturna, se fez ouvir.
— Diz a teu amo que sou o seu convidado desta noite. 
Tentando uma segurança que não sentia, o dono da casa ordenou: 
— Entre, por favor! Tem o seu talher junto ao meu. Como vê... esperava-o! 
E diz a mesma história remota que estou a evocar que um vulto sem rosto surgiu no salão. D. Madalena caiu numa cadeira, quase desfalecida. D. Rodrigo chamou a si todas as suas forças para mostrar-se sereno. Convidou, a tentar uma tranquilidade inexistente: 
— Queira sentar-se... 
Mas a voz cava e soturna voltou a fazer eco no salão: 
— Não vim aqui para cear contigo neste palácio. Vim apenas buscar-te! 
D. Rodrigo empalideceu. 
— Não compreendo... 
Entre soluços, a voz de D. Madalena murmurou: 
— Senhor meu Deus! Não nos desampareis! 
Mas já o vulto fantasma informava com autoridade: 
— Quero que me acompanhes à minha morada. 
— E... onde mora? 
— Muito perto da igreja. Vem comigo. Sou eu, agora, quem te convida. Preciso falar-te! 
Reunindo todas as suas forças, D. Madalena gritou: 
— Não vás, Rodrigo! Pode ser uma alma perdida! 
A voz cava soou, de novo, mas desta vez num tom zombeteiro: 
— Acaso terás medo, jovem fidalgo? Tu, o valente aventureiro de tantas noites de orgia? 
A jovem suplicou ainda: 
— Meu irmão! Manda-o embora! Manda-o com Deus! 
Mas D. Rodrigo sentiu que não podia fugir. Que não devia fugir. Que não queria fugir. Colocou a sua capa sobre os ombros e saiu, deixando a pobre Madalena a desfazer-se em lágrimas e em pavores... 
Quando a porta do palácio se fechou sobre os dois vultos, o frio cortante da noite veio bater no rosto de D. Rodrigo. Não havia luar. Os gritos das aves nocturnas ouviam-se de vez em quando, soando como alerta. O jovem fidalgo tinha um peso enorme no peito, mas tentava não mostrar medo. 
Começaram a andar. O vulto sem rosto à frente. D. Rodrigo um pouco mais atrás. Nem uma única palavra trocaram pelo caminho. Apenas os passos ressoavam... Nesse semi-silêncio, o jovem ia recordando o seu passado. Passado breve ainda, sim, mas já cheio de nódoas. E diz-se que o jovem D. Rodrigo, nessa hora amargurada, prometeu a Deus, intimamente, modificar-se, se não lhe acontecesse mal algum...
Chegados ao portal da igreja donde mal se distinguiam, ou antes, apenas se adivinhavam as cruzes do cemitério, D. Rodrigo involuntariamente estacou. Então o vulto sem rosto voltou a falar: 
— Entra na igreja comigo! Conseguimos ser pontuais. 
Efectivamente, no relógio da torre batiam pesadas e soturnas doze badaladas. 
O jovem fidalgo voltou a hesitar. Mas já o vulto sem rosto gritava na noite escura: 
— Entra! Não há tempo a perder! Esperam-me lá em baixo e já sabem que vem comigo um companheiro. 
Os pensamentos chocaram-se no cérebro de D. Rodrigo. A fim de ganhar tempo, D. Rodrigo perguntou: 
— Para onde me leva? 
Então, soou uma gargalhada. Gargalhada horrível. Gargalhada lancinante. Gargalhada que ficou a repercutir no espaço. Depois o vulto falou de novo, enquanto empurrava suavemente o jovem fidalgo, obrigando-o a entrar na igreja deserta: 
— Vais conhecer o meu palácio. Vês esta lousa aberta? É a minha morada... Vamos, desce! 
O moço fidalgo compreendeu que tinha de reagir. Estava à beira do abismo. Revoltou-se, enérgico, juntando os restos de coragem: 
— Para que hei-de descer? 
— Tens medo? 
Era um desafio. Briosamente, D. Rodrigo respondeu: 
— Não! Quem foi sepultado na igreja não pode ser uma alma penada!
Segunda gargalhada estridente fez fugir os pássaros nocturnos que lá se haviam refugiado. 
— Nessa parte é que reside o teu engano! O teu e o dos que me sepultaram. Julgaram-me bom em vida... Mas só Deus conhecia os meus grandes erros. Por isso Ele condenou-me! 
— Condenado? 
— Sim! E agora, já que troçaste de mim, quero que desças, para saberes como é a minha ceia! 
Embora arrepiado, compreendendo mesmo que estava a ceder terreno, D. Rodrigo ainda quis defender-se. 
— Não vou! Deus proíbe-me que me enterre vivo! 
O vulto sem rosto vomitou uma praga. E acrescentou: 
— Se não fosse a cruz que trazes ao peito, eu te obrigaria a descer! E lá em baixo sofrerias comigo o fogo da redenção! 
Para si próprio, o fidalgo murmurou uma prece em que punha toda a sua alma: 
— Que Deus me acuda! 
Instantaneamente o vulto sem rosto pareceu acalmar-se. A sua voz soou com mais brandura:
— Fui na terra um aventureiro como tu, sem respeito pelas coisas sagradas. Um homem fútil e leviano. Só fazia caridade por ostentação. Que a minha pena te sirva de alerta! Cada vez que encontrares algum corpo sem vida, lembra-te da alma que o abandonou, pois ela poderá precisar das tuas orações. Em vez de escarneceres… reza! Quando se te depare um osso humano, enterra-o com carinho em terreno sagrado, orando pelo eterno descanso daquele a quem pertenceu! Que a tua alma ceda à caridade e à compaixão pelos mortos! Que a tua alma ceda à verdade que estou a transmitir-te, pois começo a ver luz no meu caminho! Alguém está orando por mim. Alguém neste momento faz promessas para libertar-me!... É a tua irmã! Por isso te dou um bom conselho: Vai-te e não esqueças quanto te disse, se quiseres também salvar-te! Que a tua alma ceda ao orgulho que foi teu apanágio, para que nela ocupe lugar o amor ao próximo!
A voz cava e soturna deixou de se ouvir. O vulto sem rosto desaparecera pela lousa aberta. Na igreja o silêncio era pesado. Então, semilouco, D. Rodrigo voltou a correr para casa. A correr e a rezar. E a repetir, no meio das suas orações, numa estranha obsessão: 
— Que a tua alma ceda! Que a tua alma ceda... 
Chegando à porta do solar, D. Madalena, ali o esperava, sempre a rezar, caiu-lhe nos braços, chorando de comoção. 
— Graças a Deus! Graças a Deus voltaste! 
D. Rodrigo voltara, sim. Mas a sua razão durante algum tempo continuou turbada. Amiúde e sem razão plausível, ele repetia, monocordicamente: 
— Que a tua alma ceda! Que a tua alma ceda... 
E o povo dos arredores, ouvindo-o assim, começou a tratá-lo por Almaceda, segundo nos conta a história velhinha... 
Tempos depois, já refeito do choque brutal que experimentara, reorganizou a sua vida, tornando-a sã, e distribuiu parte das suas terras pelos pobres que ao seu solar vinham pedir abrigo. E foram esses mesmos pobres, chegados das terras mais distantes, que acharam por bem denominar aquele local onde iriam construir as suas casas como a Terra do Almaceda, mais tarde apenas Almaceda, em homenagem ao fidalgo que tanto os ajudava.


Fonte BiblioMARQUES, Gentil
Bem hajam 
Carlos Fernandes

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

História da Sopa da Pedra

Era uma vez um viajante que andava de país em país, de terra em terra. Um dia quando estava de passagem por uma pequena aldeia reparou que a sua comida tinha acabado, e já estava a ficar com muita fome.

Foi andando de um lado para o outro a pensar numa forma de arranjar comida. Tinha muita vergonha de ir pedir, mas parecia que daquela vez não tinha outra hipótese.

Enquanto ia andando deu um pontapé numa pequena pedra que estava no chão, era uma pedra muito lisa e bonita, foi então que teve uma ideia de conseguir almoçar sem sentir tanta vergonha.

Bateu à porta de uma casa, que parecia ser de um grande agricultor da região.
Quando o dono da casa abriu a porta o viajante disse-lhe:
– Bom dia senhor, eu sou viajante e trago comigo uma pedra mágica capaz de fazer a melhor sopa do mundo, quer provar?

Ao dizer isto retirou do bolso uma pedra muito lisa e redonda. Era parecida com outras que o agricultor conhecia, mas como gostava muito de sopa decidiu aceitar provar a tal melhor sopa do mundo.
O viajante entrou e pediu uma panela grande com água e um pouco de sal, colocaram a panela ao lume e a pedra lá dentro. Quando a água começou a ferver o viajante provou e disse:

– Está quase pronta, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas batatas.
– Oh homem! Não seja por isso, eu sou um grande agricultor desta região, batatas é coisa que não me falta.
– Obrigado, assim a sopa vai ficar muito melhor.

Passado mais algum tempo voltou a provar.

– Está quase, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas cenouras

O agricultor lá foi buscar as melhor cenouras que tinha em casa.
Após provar várias vezes o viajante foi pedindo outros vegetais, couve, cebola, feijão, entre outros. Quando a sopa já estava rica em vegetais, o viajante disse:

– Caro amigo, a sopa está a ficar uma delícia.

O agricultor mal podia esperar para provar a sopa, que é uma coisa que ele adora.
O viajante após provar mais uma vez pediu:

– Oh amigo esta sopa ficava ainda melhor se lhe pusermos um pouco de carne de porco, tem ai alguma coisa? Chouriço, por exemplo.
– Mau, mau, já lhe disse que sou agricultor, coisas dessas não faltam cá em casa.

Mais uma vez foram colocando algumas carnes na sopa.
Provou mais uma vez e disse com um grande sorriso:

– Está pronta!!!
– Já não era sem tempo, vamos lá provar essa sopa

O viajante serviu a sopa para os dois.
Depois de a provar, o agricultor exclamou:

– Tinha razão, é mesmo a melhor sopa que já comi até hoje, essa sua pedra é realmente mágica. Não me a quer vender?
– Não está à venda, é muito valiosa para mim, foi-me oferecida por um mago de um país distante.
– Muito bem, obrigado na mesma por me ter deixado provar esta sopa.
– Obrigado eu.

Despediram-se e o viajante continuou a sua viagem por outras terras, utilizou várias vezes a sua pedra mágica e assim conseguiu comer sem ter vergonha de pedir e foi desta forma que a receita da sopa de pedra foi passando de terra em terra e hoje ainda a podemos provar em vários locais, com diferentes receitas.
Bem Hajam 
Carlos Fernandes 
Adicionar legenda

domingo, 29 de dezembro de 2013

O menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida, a do menino Jesus da Cartolinha, conta que Miranda se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica, quando surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando à revolta.
A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo (pois o cerco mantinha-se há vários meses), sendo a fome e a sede os principais inimigos. Como por milagre as forças renasceram e após a dura batalha, os invasores foram expulsos.
A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim desaparecera! “Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha - disse o povo.
Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.
Na defesa da praça (cercada de espanhóis) esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.
Os mirandeses têm tanta fé no seu “ Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “ Ai, Meu Menino!, Ai Meu Menino!”.
A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio.
Bem hajam 
Caros Fernandes 


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A flor de Natal

 Diz a lenda, que uma menina chamada Pepita, sendo pobre, não podia oferecer um presente merecedor ao menino Jesus, na missa de Natal. Muito triste, contou o facto ao seu primo Pedro, que ia com ela a caminho da igreja. Este disse-lhe que ela não tinha que estar triste, pois o que mais importa quando oferecemos algo a alguém, é o amor com que oferecemos, especialmente aos olhos de Jesus.Pepita lembrou-se então de ir recolhendo alguns ramos secos que ia encontrando pelo caminho, para Lhe oferecer.
Quando chegou à igreja, Pepita olha para os ramos que colheu e começa a chorar, pois acha esta oferenda muito pobre. Mesmo assim, decide oferecê-las com todo o seu amor. Entra na igreja e, quando deposita os ramos em frente da imagem do menino Jesus, estes adquirem uma cor vermelha brilhante, perante o espanto de toda a congregação presente. Este facto foi considerado por todos o milagre daquele Natal.
Bem Hajam 
Carlos Fernandes 

domingo, 22 de dezembro de 2013

A FADA DO CABEÇO DE CARVÃO

A FADA DO CABEÇO DE CARVÃO
Dizem alguns que se alguém desse sete voltas e meia ao Cabeço do Carvão, da meia-noite à uma hora da madrugada, sem olhar para trás, abrir-se-ia uma porta do Palácio Colossal, com divisões sem fim. E quem entrasse teria de levar um longocalabro a cingi-lo à cintura. Uma das pontas teria de ficar no exterior, porque se não fosse assim, como´são muitas as divisões ninguém daria com a porta de saída e ficaria encantado no lugar daMoura. Está lá uma Moura elegante, graciosa, coberta de esmeraldas, safiras e rubis, que passeia com o visitante mas não lhe fornece informações para tudo o que viu. A Moura encantada presenteia sempre quem a visita. De uma vez disse a um ganhão, despedindo-se dele à porta: “Toma uma bolsa de passas de figo muito boas”. Quando a porta se fechou atrás de si ele disse: “Ainda bem que tenho ali na cabaça uma pinga de aguardente e se as passas prestaram, com este frio de Dezembro será muito bom.” Quando foi para comer as passas estas transformaram-se em moedas de ouro.Tentou outra vez e então reparou que quando ia para trincar as passas estas se transformaram em moedas de ouro. Pouco depois viu-se com um saco cheio de moedas de ouro. Regressou a Alcains e o ganhão que era pobre tornou-se rico.
Recolha efectuada em Alcains – Concelho de Castelo Branco.»
Bem hajam 
Carlos Fernandes

domingo, 15 de dezembro de 2013

Lenda da Justiça de Fafe


A Lenda da Justiça de Fafe é um dos maiores símbolos referênciais maiores deste localidade. É para muitos o verdadeiro "ex-libris" de Fafe. Como tal, não podia deixar de haver um monumento evocativo dessa tradição. O "Monumento à Justiça de Fafe" foi inaugurado em Agosto de 1981. Associada ao monumento está uma curiosa e conhecida lenda, de que se apresenta a versão mais vulgarizada.

História

O símbolo da "Justiça" tem como base uma famosa lenda, com diversas versões, mas qual delas a mais próxima da "verdade"? Se é que as lendas testemunham alguma aproximação à verdade! Qual delas a mais mirabolante e fruto da imaginação popular?
A versão mais difundida desde o inicio do século XIX, foi objecto de um longo poema de Inocêncio Carneiro de Sá, o "Barão de Espalha Brasas", que se transcreve já a seguir. Fala de episódio, registado no século XVIII e protagonizado pelo Visconde de Moreira de Rei, político influente no concelho e homem de bem mas não de levar afrontos para casa. Deputado às Cortes, terá chegado atrasado a uma sessão daquele órgão monárquico, no que terá sido censurado grosseiramente por um tal "Marquês", também deputado, que chegou ao desplante de lhe chamar "cão tinhoso".
O nosso Visconde fingiu não ouvir o impropério e mostrou-se tranquilo durante a sessão mas, finda aquela, interpelou o Marquês petulante, repreendendo-o pelas palavras descorteses que lhe havia dirigido. Em vez de lhe pedir desculpa, este arremessou-lhe provocadoramente as luvas no rosto.
Na época, os conflitos resolviam-se em duelo, que se tornou inevitável.
Ao ofendido competia escolher as armas, e quando todos pensavam que iria preferir espadas ou pistolas, como era usual na altura, o Visconde apresenta-se para o recontro munido de dois resistentes varapaus. O marquês, é claro não sabia manejar tal arma, e assim, quando a sessão de bordoada começou, o Visconde, perito na arte do jogo do pau, tradicional nesta região, enfiou-lhe tanta fueirada no rival que, como escreve o poeta, "pôs-lhe o lombo num feixe".
À gargalhada ante o acontecimento, os assistentes não se contiveram e gritaram, em coro: "Viva a Justiça de Fafe". Esta é a versão mais corrente da origem da expressão "Justiça de Fafe", duas outras versões populares são referenciadas sobre a origem da "Justiça de Fafe".
Bem hajam 
Carlos fernandes

domingo, 1 de dezembro de 2013

Lenda de Dornes


Lenda de Dornes 

A vila de Dornes fica no concelho de Ferreira do Zêzere. Apesar de existirem provas documentais de que até ao século XV foi conhecida por Dornas, um velho manuscrito existente na Biblioteca Nacional de Lisboa explica que a etimologia da povoação proveio da lenda que vou contar.
Há muitos séculos atrás, as terras desta região pertenciam à Rainha Santa Isabel, mulher de el-rei D. Dinis. Era feitor da Rainha, na região, um cavaleiro chamado Guilherme de Pavia, ao qual atribuíam proezas milagrosas.
Conta-se deste homem que, certa vez, passou a pé enxuto o rio Zêzere, caminhando de uma margem para a outra sobre a sua capa, que lançara sobre as águas.
Um dia, andava Guilherme de Pavia atrás de um veado na banda de além do Zêzere, onde só havia brenhas e matos espessos, quando ouviu uns gemidos muito dolorosos. Tentou saber de que sítio provinham e, apesar de perder algumas horas nesta busca, nada conseguiu achar, pois os gemidos pareciam provir dos mais diversos locais. No dia seguinte voltou ali e de novo os gemidos se espalharam à sua volta, vindo agora de um tufo espesso de mato, depois de um rochedo, numa ciranda sem fim. Guilherme de Pavia sofria espantado, partilhando a dor daquele alguém que parecia fazer parte do universo. Ao terceiro dia tudo se repetiu como antes.
Tomou, pois, a decisão de partir para Coimbra onde estava a sua senhora, a fim de lhe relatar aqueles estranhos factos. Assim que chegou à cidade dirigiu-se imediatamente à pousada real e solicitou a sua visita a D. Isabel.
Esta, mal o viu, e depois das saudações devidas, disse-lhe:
-Vindes por via dos gemidos, Guilherme?

-Não precisais espantar-vos! Três noites a fio sonhei com eles e sei do que se trata.
-O que é então, Senhora? Procurei por todo o lado e nada vi!...
- Bem sei. Deus contou-me tudo nos sonhos. Agora vais voltar ao local e procurar onde te vou dizer: aí acharás uma imagem santa de Nossa Senhora, com o Filho morto em seus braços.
-Assim farei, minha senhora Dona Isabel! Mas, e depois, que faço eu dessa imagem?
-Guardá-la-ás contigo até me veres chegar junto a ti!
Despediu-se Guilherme de Pavia da Rainha Santa, levando na memória a localização exacta da moita onde a imagem de Nossa Senhora o aguardava gemendo, e partiu de Coimbra.
Já de volta a terras do Zêzere, o cavaleiro dirigiu-se à serra de Vermelha, como lhe dissera D. Isabel, e foi milagrosamente direito a determinada moita onde achou enrodilhada em urzes a imagem da Virgem pranteando a morte de seu Filho.
Durante algum tempo manteve-a consigo, na sua própria casa. Os gemidos haviam cessado e assim Guilherme de Pavia tinha a Santa Imagem na sua câmara, com um archote aceso de cada lado.
Um dia, a Rainha Santa foi, finalmente, às suas terras do Zêzere resolver o caso da imagem. Assim, junto a uma velha torre pentagonal que já aí existia, mandou erigir uma ermida para a Virgem achada nas moitas. E nessa torre - que provavelmente foi construída pelos Templários -, ordenou que se instalassem os sinos da ermida.
Em breve o povo começou a construir casas em redor da capela e da torre e, diz a lenda, a Rainha Santa deu a essa vila nascente o nome de Vila das Dores, nome que com o tempo se teria corrompido até dar Dornes.
É isto o que conta a lenda transcrita no velho manuscrito.
A capela com a sua torre sineira ainda hoje existem, e a imagem achada há muitos séculos atrás é venerada sob a designação de Nossa Senhora do Pranto.
in Frazão, Fernanda. "Lendas Portuguesas", vol. IV, pág. 75-79. Ed. Multilar. Lisboa: 1988
Bem hajam
Carlos Fernandes

sábado, 30 de novembro de 2013

Os Corvos de São Vicente

No tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros, estes ordenaram que todas as igrejas fossem convertidas em mesquitas muçulmanas. Os cristãos de Valência quiseram pôr a salvo o corpo do mártir S. Vicente, que estava guardado numa igreja. As Astúrias eram a única região cristã da península. Para levar o corpo para as Astúrias, fizeram-se ao mar. Como as águas estavam turbulentas, foram forçados a aproximar-se da costa. Perguntaram então ao mestre da embarcação que terra tão bonita era aquela. O mestre respondeu-lhes que era o Algarve. Pouco depois o barco encalhou e forçou-os a passar a noite naquele lugar. Na manhã seguinte, quando se preparavam para retomar viagem, avistaram um navio pirata. O mestre da embarcação propôs-lhes afastar-se com o navio para evitar a abordagem dos corsários, enquanto os cristãos se escondiam na praia com a sua relíquia. Depois viria buscá-los. O barco nunca mais voltou e os cristãos ficaram naquele lugar. Construíram um templo em memória de S. Vicente e formaram uma pequena aldeia à sua volta. Entretanto D. Afonso Henriques entrou em guerra com os mouros do Algarve. Como vingança, os mouros, arrasaram a aldeia dos cristãos de S. Vicente e levaram-nos cativos. Passados muitos anos, D. Afonso Henriques foi avisado de que existiam cativos cristãos entre os prisioneiros feitos numa batalha contra os Mouros. Chamados à presença do rei, um deles, já muito velho, contou-lhe a sua história e confidenciou-lhe que tinham enterrado o corpo de S. Vicente num local secreto. Pedia ao rei que resgatasse o corpo do mártir para um local seguro. D. Afonso Henriques resolveu viajar com o cristão a caminho de S. Vicente, mas este morreu durante a viagem. Sem saber o local exacto onde estava o santo, D. Afonso Henriques aproximou-se das ruínas do antigo templo. Avistou um bando de corvos que sobrevoavam um certo lugar. Os seus homens escavaram e encontraram o sepulcro de S. Vicente, escondido na rocha. Trouxeram o corpo de S. Vicente de barco para Lisboa e durante toda a viagem foram acompanhados por dois corvos, cuja imagem ainda hoje figura nas armas de Lisboa em testemunho desta história extraordinária.
Bem hajam 
carlos Fernandes

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Lenda do Pastor e da Estrela

Lenda do Pastor e da Estrela

— Porque razão não poderei atravessar aquelas serras?... Ir ver o mundo que fica do outro lado? Ah! Hei-de ir um dia... hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim… e aquelas serras são tão grandes... tão altas!... Que haverá para além das montanhas?...

Ora aconteceu, segundo conta a lenda, que certa noite o pastor, enamorado do luar e da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer pensou em deitar-se. Ficou-se para ali, sentado, sonhando de olhos abertos... E, a determinada altura — fosse realidade ou sonho — teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela descia até ele. Nessa estrela havia um rosto de criança. E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e infantil:
— Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o mundo? Não tens medo do desconhecido?
Surpreendido, o homem estremeceu.
— Meu Deus! Pois será possível que as estrelas tenham voz?
A vozinha meiga e infantil fez-se ouvir de novo:
— Sim, sou eu que te falo... Mas foi Deus que me enviou para te guiar! Quando quiseres, poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor.
— Partir?! Disseste que podemos partir?... Ah! Quem me dera, realmente, deixar tudo isto e correr aventuras, descobrir novas terras! Quem me dera!...
O pastor ficou-se extático, ouvindo o seu próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera do Alto interrompeu-lhe o êxtase, lembrando-lhe com vivacidade:
— Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua vontade. Quando estiveres disposto a partir, basta que chames por mim. Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E correndo, ligeira, a estrelinha foi juntar-se às outras estrelas.
O pastor seguia-a com o olhar. Mal podia acreditar no que vira e ouvira. A verdade, porém, é que a estrelinha brilhante não mais o abandonou. O pastor todas as noites a via, mais luminosa do que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele acabou por se resolver à grande aventura.
Uma noite em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou o céu e falou assim:
— Oh, minha pequenina estrela! Fosse loucura ou verdade, eu ouvi a tua voz. Pois estou decidido! Que se faça a vontade do Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela grande serra que vejo além, a maior de todas? Oh, minha boa estrela! Desce do céu e vem para me guiares!...
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia descendo sobre ele. E de novo o pastor escutou aquela vozita cheia de ternura que já ouvira uma vez:
— Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas em mim? Mas ainda bem que te resolveste!
— Então... a caminho!... Seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início à sua jornada, quando um obstáculo surgiu. O cão, fiel companheiro do pastor, sentiu decerto uma presença estranha junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura, pondo em sobressalto toda a aldeia!
Aflito com tamanha irreverência, o pastor apressou-se a impor-lhe silêncio:
— Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu? A estrela é nossa amiga... Vai levar-nos àquela serra. Vês? Vamos, acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou, e seguiu mansamente o seu dono pelos caminhos do desconhecido.
Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças. Era um louco que partia! Fora dali, só poderia encontrar a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos o pastor andou como que ao acaso, sem alcançar o seu destino. Foi uma caminhada longa e dura. O alto da serra ficava sempre mais além, e o caminho, que julgara curto, parecia não ter fim. Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando como fantasmas, sem que o pastor alcançasse o almejado cimo da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar a jornada. Ficou no caminho, marcado por tosco sinal de pedra. O pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria, enquanto algumas quentes lágrimas tentavam aquecê-la e disse:
— Deixo-te aqui... Tu foste o meu fiel e único amigo! Onde me levarão os meus passos? Não sei! Conseguirei eu alcançar aquela serra? Só Deus o sabe! Adeus, meu amigo! O teu destino parou. O meu tem de continuar!...
E silenciosamente seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um dia sonhara abraçar de lá todo o horizonte.

Muitos anos passaram. O pastor envelheceu — e a própria estrela também, segundo nos conta a lenda...
Porém, um dia — esse dia havia de chegar! — o pastor pôs o pé no alto da serra! A alegria que sentiu foi quase de loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte, e a cabeça parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre o vento o seu hino de louvor:
— Bendito seja Deus! Bendita sejas tu, minha boa estrela!... Chegámos!...
E o vento, rodeando as palavras do velho, resolveu subir com elas, cheio de cuidado, não fosse perder-se alguma, até lá onde os pés do homem não podem chegar...
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe e disse:
— Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... Envelhecemos ambos... Mas Deus fez-te a vontade!
Então, dominando o espaço, a voz do pastor soou potente e convicta:
— Aqui ficarei para sempre na tua companhia! Para sempre!
E o pastor instalou-se ali, mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude vasta do horizonte.

Então aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num pastor que habitava no alto da serra e que possuía uma estrela única no mundo com quem falava todas as noites. Sem hesitar, mandou emissários para que o trouxessem à sua presença.
Quando o velho pastor, um tanto surpreendido, chegou ao palácio do rei, este elucidou-o sobre o seu intento:
— Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres... farei de ti um homem poderoso para o resto da vida! Em troca, quero apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero.
— Pedis o impossível, Senhor! A estrela não é minha, é do Céu!
Furioso, o rei gritou-lhe:
— Que importa? Eu sei que ela faz o que tu ordenas... Se tu quiseres, ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca, o velho pastor replicou:
— Senhor, prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao rei poderoso, e abalou de novo a caminho da serra.
Quando lá chegou, a noite ia já alta. Ele atirou-se para cima da enxerga e mordiscou uma côdea de pão negro. Então, a tal estranha melodia já muito sua conhecida desceu do alto e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
— Ainda bem que as riquezas não te tentaram!... Ficaria tão triste! Deixei-te passar misérias para te expor ainda mais à tentação, mas confesso que receei muito! O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
— Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem sei desde quando nos conhecemos... Mas quero que fiques sabendo que não poderei viver sem ti, sem a tua luz, sem o teu brilho, sem a tua presença!...
A estrela explicou-lhe, num sussurro, fazendo amainar o vento que corria célere:
— Pois quando morreres, meu bom pastor, podes morrer descansado! Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso salpicava-lhe de luz os cabelos encanecidos. E o velho, numa voz de profeta, proclamou do alto das montanhas:
— Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante esta serra há-de chamar-se, e para sempre — a serra da Estrela!

E diz a lenda que no alto da serra desse nome pode ver-se todas as noites, entre as suas irmãs, uma estrela que brilha ainda hoje duma maneira estranha e diferente. O seu brilho derrama reflexos de saudade e de amor sobre a campa desconhecida daquele que foi e continuará a ser — o seu pastor!
Fonte Biblio

MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 117-12
Bem hajam 
Carlos Fernandes