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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A sinagoga de Tomar no coração de Portugal

Museu Hebraico Abraão Zacuto
 O Sonho e a Realidade
Samuel Schwarz adquiriu o edifício da sinagoga em 5 de Maio de 1923, para evitar o seu abandono, a sua mutilação, ou mesmo a destruição de um símbolo da comunidade hebraica tomarense. Deve-se a este ilustre investigador a salvaguarda do mais antigo templo hebraico de Portugal: o valor histórico deste modesto edifício (1)  é incontornável para o conhecimento da história de Tomar, sobretudo da comunidade hebraica aí residente.

Em 29 de Março de 1939, Samuel Schwarz doou ao Estado Português a «velha esnoga», com a condição expressa de instalar ali, o Museu Hebraico. Em 27 de Julho de 1939 é, por despacho ministerial, homologada a criação oficial do museu; mais recentemente o Grupo de Amigos deste monumento paradigmático pretende, com o apoio da comunidade internacional, avançar para a instalação de «um outro museu e biblioteca onde se documenta a História dos Judeus em todas as nações do mundo (2).

A Sinagoga de Tomar é a "única" que resistiu aos tempos históricos, conservando o espaço nuclear deste edifício hebraico. E de sublinhar o espírito científico e humanista de várias figuras da época de Samuel Schwarz, que, tal como o Homem, dedicava a sua vida à investigação, à divulgação e à classificação das múltiplas memórias das gerações hebraicas passadas.

A personalidade e a obra de Samuel Schwarz têm sido perpetuadas pela existência da Sinagoga de Tomar. No entanto, não basta. Cumpre-nos, a todos nós, e em particular ao Estado, ampliar a história da comunidade hebraica de Tomar, contribuindo para a salvaguarda e a valorização deste monumento nacional.
O despertar recente
As descobertas arqueológicas efectuadas em 1985 e 1987, e o estudo nuclear da cultura material exumada, foram determinantes para a avaliação interpretativa do monumento como centro vital de toda a comunidade judaica residente naquela área. No entanto, a argúcia e a lucidez científicas evidenciadas no estudo de Santos Simões sobre a orgânica arquitectónica da sinagoga, e os contributos preciosos de Garcez Teixeira e de Samuel Schwarz, respectivamente nos domínios da investigação artística e epigráfica, durante o segundo  quartel do século passado, foram os primeiros alicerces de um sonho em construção, e que tarda em tornar-se na memória viva da comunidade hebraica de Tomar.

Os últimos 20 anos do séc. XX são férteis, pelo renascimento de profícuos estudos sobre a história universal dos judeus, salientando a investigação recente sobre os Judeus de Portugal. E precisamente a divulgação da documentação medieval sobre a minoria judaica portuguesa, associada a outras memórias ainda "vivas" nos indícios estruturais subjacentes às práticas quotidianas das culturas identificadas, ou nas evidências estruturais classificadas, que nos permite uma abordagem mais alargada das memórias do passado e das vivências do presente, numa emergente tendência de evolução sobre o lugar, a mensagem e a herança cultural da comunidade hebraica tomarense do séc. XV.


A comunidade judaica 
São escassas as referências e os registos arqueo-históricos de judeus, em Portugal, anteriormente ao séc. XIII. No entanto, registámos em Tomar algumas estelas funerárias descontextualizadas, procedentes do cemitério medieval da Cerrada/João do Couto nos terrenos de Santa Maria dos Olivais, e do de Carregueiros. A excepção de uma ou outra lápida funerária (sécs. X-XI), a maioria não deverá ser anterior aos sécs. XIII/XIV-XV. A presença de vários grafitos geométricos em artefactos cerâmicos do período romano-germânico à Reconquista (­ sécs. VII/VIII/XII), achados em contextos arqueológicos seguros, poderá indiciar a presença ténue de indivíduos judeus em Tomar.

A existência de dois documentos escritos datados do séc. XIV - um, epigráfico (1315); outro, paleográfico (1384) - assegura, em Tomar, a presença de uma nova comunidade étnico-religiosa, no espaço urbano da recente Vila de Baixo tomarense. O primeiro trata de uma inscrição funerária dedicada ao judeu Rab Jo­ seph, de Tomar, falecido em 13 de Janeiro de 1315 em terras do Algarve (3); o segundo, de 27 de Dezembro de 1384, menciona pela primeira vez a Comuna Judaica de Tomar reportando-se à doação do serviço real dos judeus a Joao Rodrigues, criado do mestre da Ordem de Cristo (4).

É precisamente nas centúrias de Trezentos e de Quatrocentos da história recente de Tomar que verificamos um aumento demográfico significativo, resultante da fixação da comunidade hebraica no coração urbano tomarense. Houve, de facto, factores determinantes para a permanência de uma comunidade hebraica em Tomar, estando esta relacionada com a Ordem do Templo e, depois, Ordem de Cristo: o crescimento económico de Tomar é coincidente com a governação, em 1420, de D. Henrique, administrador da Ordem de Cristo, o qual obtém para Tomar uma série de privilégios mencionados na documentação régia da época. Tal facto explica as escassas referências anteriores à construção da sinagoga tomarense, durante a era de Trezentos.
A vitalidade económica e sociocultural de Tomar na centúria quatrocentista é evidenciada pelas memórias marcantes na actual paisagem tomarense.

O aumento demográfico, provocado essencialmente pelo impulso socioeconómico de Tomar. no séc. XV  motivou a necessidade de uma judiaria, e, consequentemente, de uma sinagoga. Desconhecemos o número aproximado de indivíduos que habitariam a judiaria de Tomar no séc. XV. A documentação régia compulsada por vários investigadores permite-nos calcular, em meados do séc. XV, uma população em cerca de 150 a 200 indivíduos.

onomástica 
A onomástica das famílias judaicas de Tomar (Chaveirol, Sapaia, Alfangi, Rondim, Maçarel, Alcaide, Alfandarim, Da Alva, Barzelai, Muala, Tovi, Da Faia, Grevi, Fasquia, Pichel, Naar, Matutel, Aziz, Levi, Sadiaz, de Leiria, Jacob, Cinfa, Aviziboa, Tevi, Capaio, Rina, Salomão, Santa, Adia, Baruc, Adida, Abravez, Cassuto, Arrondina (5) permite-nos verificar que alguns desses apelidos provêm das comunas de Guimarães, Viseu, Guarda, Leiria, Santarém e Abrantes. Parecem evidenciar, por outro lado, que algumas dessas famílias (Chaveirol, Matutel, em Santarém; Baruc, Da Alva, em Leiria; Sapaio, em Abrantes), nos inícios do séc. XV, em Tomar se fixaram, dado o surto económico registado no tempo do Infante D. Henrique.

As fontes escritas medievais dão-nos conta da estratificação social da comunidade judaica.

Os Sapaios constituíam a mais poderosa família hebraica tomarense, ocupando-se de actividades como medicina, ourivesaria e arrendamento das rendas públicas.

Este pequeno grupo de elite, constituído por mercadores ricos, rendeiros e físicos, distinguia-se dos hebreus de condição média, graças às mercês ou cartas régias de privilégios, e ao poder económico confortável de que desfrutavam nesta cidade quatrocentista. A classe média ocupava-se essencialmente da actividade comercial, de média e pequena escalas, bem como da indústria artesanal (tecelagem, tinturaria, alfaiataria, sapataria, ferraria, latoaria, etc.) e da agricultura. Em suma, a documentação medieva permite-nos rastrear algumas das profissões exercidas pela comunidade hebraica de Tomar, desde os mais poderosos (administradores da fazenda régia, de bens da nobreza e da Igreja, rendeiros dos direitos reais, banqueiros, médicos, físicos), passando pelos mercadores e pelos comerciantes de grosso trato, até aos mais humildes mestres ou artífices hebreus. Está por determinar o número exacto de habitantes judeus e cristãos-novos existentes em Tomar durante os sécs. XV e XVI.


A Sinagoga
Esta construção quatrocentista representa o "coração" da comunidade hebraica, significando, igualmente. a casa de oração, de convívio, o tribunal, a câmara de vereação e a escola. É também a simbólica da minoria hebraica numa comunidade tomarense em crescimento, sobretudo em tempo de surto urbanístico que Infante D. Henrique promoveu para Tomar.

A sinagoga da judiaria de Tomar, mandada construir pelo infante D. Henrique entre os reinados de D. Duarte e D. Afonso V, era frequentada tanto por homens como por mulheres.

É um edifício gótico com fachada virada a norte e cujo corpo central ou casa de oração é de planta quadrangular, com uma elevada abóbada de arestas sem nervuras, de tijolo, assente em quatro pilares centrais monocilíndricos e doze mísulas parietais (6). O núcleo central tem apenas 9,5 metros por pouco mais de 8 metros.

A estrutura orgânica da casa de oração é idêntica à conhecida cripta da Colegiada de Ourém. Ambas as construções sugerem modelos tradicionais batalhinos, onde o gosto requintado e peculiar de motivos estilísticos dos capitéis apontam para a presença da escola de artífices e construtores da Batalha, nos inícios de Quatrocentos.

Além do mais, torna-se bastante ingrato e duvidoso referir qual das duas é a mais antiga. A cronologia tardia de cerca de 1460 sugerida por Santos Simões é contrariada pelas descobertas arqueológicas de estruturas e de mobiliário cerâmico e metálico (7) datáveis do tempo de D. Afonso V, período de utilização daquele espaço hebraico.

Estas novas peças arquitectónicas permitem-nos a reconstituição volumétrica e morfológica da sinagoga "geminada". A axonometria virtual aqui proposta baseia-se em vários factores conjunturais: o códice quinhentista descrito por Pêro Alvares Seco, os testemunhos arqueológicos dos últimos 15 anos da centúria anterior, as hipóteses ventiladas por Santos Simões e de Samuel Schwarz, e, mais recentemente, as achegas preciosas de funcionalidade da sinagoga por Maria José Ferro Tavares.

A análise interpretativa proposta por nós é sobretudo resultante de todos estes contributos. procurando reproduzir os vários espaços conhecidos e identificados de uma mesma construção (sala de oração) ou casa quadrada; porta do levante; o mikveh e o forno, a poente; a logea e o piso sobrado.

A fachada principal da sinagoga, virada a norte,  constava de uma janela grande de pedraria, com entrada principal, do lado oriental, que abria para um pequeno pátio ou átrio de entrada (logea): este dava acesso à sala de "oração", pela porta com ogiva lanceolada, situada à sua direita (8), e ao piso sobradado (com alterações significativas), por meio de umas escadas, situadas no sul do pátio, que teriam servido de casa do hazan ou escola (9). Esta ala do edifício da sinagoga era frequentada apenas por homens judeus; daí a designação de sinagoga dos homens. As instalações a sul e a poente do núcleo central da sinagoga corresponderiam à sinagoga das judias. Ora, a logea situada à direita da casa de oração dava acesso a ambas as sinagogas "geminadas", formando um complexo e único corpo arquitectónico, do qual conhecemos uma ínfima parcela do edifício da sinagoga.

A sinagoga renovada
Há necessidade de assegurar, conscientemente, a perenidade da nossa memória colectiva, através da salvaguarda e da valorização das várias marcas culturais, que fazem parte da história tomarense, dela emergindo, no séc. XV, os papéis socioeconómico e cultural da comunidade hebraica.

É indispensável que o Estado Português cumpra a promessa de 1933, para a instalação, no local, de um "museu luso-hebraico". É certo que os objectivos e os princípios orientadores de requalificação do espaço físico, e as directrizes metodológicas de musealização, que propomos para a Sinagoga de Tomar são diferentes das de Samuel Schwarz, mas idênticos quanto à emergência de dignificar as vivências da comunidade hebraica de Quatrocentos.

A requalificação e a valorização do edifício da sinagoga passam, em primeiro lugar, pela cartografia arqueológica de peças construídas, prosseguindo a investigação arqueo-histórica no terreno e nos arquivos. É do conhecimento geral que a janela da fachada principal tinha uma grade de ferro para a Rua Nova (10) e uma série de janelas e frestas entaipadas nas paredes nascente, sul e poente; estas últimas permitiriam, assim, o arejamento e a iluminação do primitivo espaço religioso. Dois outros vãos na parede sul da sala de "oração” (11) são visíveis numa gravura por ambos publicada: uma serviria para um armário ou arca (aron), destinado aos rolos da Tora, e o outro corresponderia a uma outra porta, situada mais a sul da porta com ogiva lanceolada. É conveniente, no nosso entender, a confirmação desta hipótese, bem plausível, assim como proceder a várias acções arqueológicas em torno da casa de oração, a fim de podermos avançar para a reconstituição axonométrica do edifício da sinagoga.

Por outro lado, os muros do mikveh para o banho ritual, e o forno para cozer pão ázimo, situados numa cota inferior à da logea, estão ora interrompidos, ora sobrelevados por outros muros, ora no sentido das barreiras construtivas.

O poço situado num pequeno quintal, a sul, apresenta vestígios de uma conduta, em direcção aos banhos sagrados; são ainda visíveis, numa cota inferior à do piso térreo, vestígios de novas estruturas, que, no nosso entender, são por ora de interpretação duvidosa, mas que deverão estar relacionadas com o mikveh, na mesma cota que aquelas.

O mobiliário doméstico recolhido nas acções arqueológicas de 1985 e 1989 dá-nos uma visão aproximada do quotidiano hebraico, sobretudo do das judias.

Foram identificadas peças cerâmicas, metálicas e de vidro, destinadas à cozinha, à mesa e ao culto religioso. Citemos, neste último caso, os fragmentos de lamparina feitas de vidro incolor grosso; uma das candeias, de cerâmica, continha ainda vestígios de cera. As poucas alfaias litúrgicas e culturais encontradas no mikveh e, no acesso ao piso sobradado, do lado poente, permitem-nos determinar quão importante era a imersão do corpo, cuja finalidade consistia na purificação e na limpeza do espírito, antes de as judias se aproximarem do local sagrado.

Os artefactos cerâmicos aparecem, na generalidade, associados a fins domésticos, ora para a confecção de alimentos, ora para a conservação e o armazenamento de secos e molhados; as alfaias metálicas são sobretudo peças de uso doméstico e de mobiliário.

O grupo de moedas medievais recolhidas, sobretudo as mais antigas e referentes ao reinado de D. Afonso V, confirmam a existência, e não a construção, da sinagoga no 2.° quartel do séc. XV.

Seguir-se-á às paredes esventradas do edifício e à finalização futura dos trabalhos arqueológicos no espaço ocupado pelo edifício o estudo prévio de requalificação e musealização da sinagoga.

Estudo prévio 
O edifício e as ruínas das duas sinagogas deverão ser os pilares estruturais do Plano de Conceptualização Arquitectónica e Museológica.

O tema central do Museu Luso-Hebraico/Abraão Zacuto deverá funcionar como o estigma histórico para as gentes locais e para todos quantos possam rever o espaço ocupado e vivido pela comunidade judaica de Tomar.

A estrutura orgânica do edifício da sinagoga constituirá, em suma, a síntese do contexto e do conteúdo das memórias emergentes de uma vida dinâmica até ao édito de expulsão dos judeus, em 5 de Dezembro de 1496.

Seria igualmente interessante que a Sinagoga de Tomar fosse a mensagem museográfica sobre as relações desenvolvidas entre a minoria hebraica e o rei; o papel das comunas e das judiarias; as liberdades, os usos e os costumes outorgados pelas cartas de privilégios e de foral; o retrato administrativo e jurídico da população hebraica e cristã, que traduzisse o perfil e o estatuto social da comunidade hebraica de Tomar; o papel económico dos judeus em Tomar no séc. XV; a história de cristãos-velhos, cristãos-novos e o cruzamento dos sangues judeu e cristão. Por fim, os efeitos da Inquisição em Tomar.

Enfim, preconizo para o edifício da sinagoga a criação de um espaço museografado, com a imagética das pedras e as memórias vivas que emergem de um turbilhão de "genes" culturais, que são o suporte da profícua e complexa herança de uma sociedade multifacetada, de diferentes culturas, de um povo e de um país que é Portugal.


Referências 
1.     F.A Garcez Teixeira, “A antiga sinagoga de Tomar” Contribuições para a historia das Actas em Portugal
2.           L. Vasco, “Sinagoga de Tomar”
3.   Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Os judeus na época dos descobrimentos”
4.           Idem
5.           M. S. A Conde, “Tomar Medieval” O espaço e os homens.
6.           F.A Garcez Teixeira
7.           Salete da Ponte, F. Lapa
8.           J.M. Simões
9.           Maria José Pimenta Ferro Tavares
10.      J.M. Simões
11.      J.M. Simões, F.A. Garcez Teixeira


Leituras
História Universal dos Judeus. Da Génese ao Fim do Séc. XX, Élie Barnavi, Ed. Hachette Louvre, 1992

Lápides Judias em Portugal
Diaz Esteban STEBAN, F (1991), Estudos Orientais (2), Lisboa, pp, 207-215,

Tomar medieval. O espaço e os homens
CONDE, M. S. A., (1996), (Patrimonia Histórica), Cascais.

Mobiliário doméstico proveniente das escavações na Sinagoga de Tomar Os Judeus e os Descobrimentos
FERREIRA, M. A., (1992), Tomar, pp.l01-l09.

A antiga Sinagoga de Tomar,
Contribuições para a História das Actas em Portugal (IV)
GARCEZ TEIXEIRA, F. A., (1925), Lisboa.

Os Judeus de Belmonte
GARCIA, M. Antonieta (2000)
Os Caminhos da Memória.

A sinagoga de Tomar. Seu enquadramento na problemática da presença judaica em Portugal
LAPA. F .. (1989)
Boletim Cultural e Informativo da CMT (No 5) Tomar, pp 105-170

Guarda, Histórias e Cultura Judaica
Museu (2000)

A sinagoga de Tomar e os Descobrimentos, Os Judeus e os Descobrimentos
PONTE, S. (1992), Tomar, pp. 95-100.

Testemunhos e vivências arqueo-históricas de ambas as culturas em Tomar, Judeus & Arabes da Península Ibérica
PONTE, S. (1993), pp. 161-167.

O Infante D. Henrique em Tomar
PONTE, S. (1994)
Oceanos, no 17 - Março 94, pp. 26-31

Enterramentos medievais nas imediações de Sta. Maria dos Olivais
PONTE, S., e MIRANDA, J. (1994), (Tomar), Actas dos Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XXXIV - fasc.1-2, pp. 419-440.

Necrópoles medievais de Tomar
PONTE, S. (1997), Arqueologia Medieval (6), Porto, pp. 47-56.

A Sinagoga de Tomar: dimensão sociocultural e religiosa da Comunidade Hebraica, III Congresso de Arqueologia Peninsular, vol. VIII
PONTE, S. (2000): Terrenos da Arqueologia da Península Ibérica, Porto, pp. 151-160.

Texto:Dra. Salete da Ponte, Docente IPT
Bem hajam 
Carlos Fernandes 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Um pitéu alfacinha


Localizada na Baixa de Lisboa, desde 1930 na rua dos Bacalhoeiros, conserva para além de peixe, a traça e a calçada portuguesa original. Um local ainda à antiga, com coloridas prateleiras em madeira e um atendimento simpático e personalizado. As três marcas de produtos da conserveira são a Tricana, Prata do Mar e Minor, todas utilizam peixe fresco português. Aqui vendem-se conservas de sardinha como todos os sabores: limão, caril, tomate, cravinho, entre outros. Para além dos clássicos de atum e sardinha, salientamos as ovas de sardinha, as anchovas, o bacalhau, as lulas e o mexilhão. Para além da excelente qualidade do produto, a embalagem continua a ter os antigos rótulos, actualmente considerados vintage.

Um pitéu bem alfacinha, das sardinhas , cavalinhas ás postas de atum,um universo só nosso para descobrir .

Bem hajam 
Carlos Fernandes

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Paixões de Minho


A sobrecarga decorativa do traje, sobretudo
o uso e o abuso do ouro, no Norte do
País, esconde, ou melhor, revela a rivalidade
de ser a mais bela, a mais rica, a es -
colhida, em resumo, a mordoma. Esta
tem um traje próprio, azul-escuro ou ne -
gro, mas cintilante, nos seus bordados e
nos seus ouros. Na ânsia de apagar o
corpo, abria-se em profusão ornamental
adjacente. O poder económico também
se espelha na indumentária, na medida
em que o ouro corresponde a um investimento
que torna visível, perante a comunidade,
as posses da sua proprietária. Por
outro lado, o valor fiduciário dos ouros
era facilmente transaccionável, o que
equivalia a ser uma poupança utilizável
em momentos mais difíceis. Os ouros podiam ser vendidos e comprados
sempre que necessário. Convinha ter bastantes para valer em situações
financeiramente mais complexas. A ostentação deste luxo rural também en
gendrava conflitos e tensões, que deram azo a inimizades
entre as vizinhas e as próprias freguesias.
Amores e ódios que perduravam por gerações...
Voltando à mulher minhota e à simbologia real
da sua figura, não poderá deixar de se ter em con -
ta algumas formas do muito ouro que a reveste: as
laças, o coração, os brincos à rei e os brincos à
Noiva e noivo do Minho
Trajes de festa
Acessórios femininos de festa
Brincos «à rainha»
rainha. Qualquer destas peças essenciais da ourivesaria nortenha é, estilisticamente,
barroca, ou melhor, rocaille. Coincide, pela composição e pelos
ornatos, com a gramática designada como D. Maria.
A laça da ourivesaria popular deve o seu formato à intervenção real. Tem
sido tradicionalmente atribuída a D. Maria Ana de Áustria a célebre Laça de
Esmeraldas, pertencente às jóias da Coroa. Presumivelmente, a rainha tê-la-á
oferecido a uma das suas netas. Idêntica laça também está presente no
conhecido retrato da rainha D. Mariana Vitória, mulher de D. José, datado
de c. 1750. E mais laças se poderiam referir, nos retratos da aristocracia portuguesa,
nomeadamente dos finais do século XVIII.

A forma, o aparato e a magnificência das laças usadas pelas rainhas, não só
deve ter tido um enorme impacte visual, como criou o desejo entre as mu -
lheres portuguesas, ricas ou pobres, aristocráticas ou plebeias de ter algo de
semelhante, tendo-se transformado numa jóia popular. Algumas variações
da laça e a sua estilização vieram criar a peça mais original da ourivesaria portuguesa
que é comummente designada como a laça.
Não se poderá também esquecer o voto de D. Maria I e a sua devoção ao
Cora ção de Jesus: se tivesse um filho varão, mandaria erguer uma basílica.
Assim foi. E, em 1789, foi sagrada a Basílica da Estrela, «o primeiro edifício
no mundo a ser dedicado ao Coração de Jesus e que tanta divulgação haveria
de ter durante o romântico século XIX» 38. A forma do coração, que é
comummente ligada à simbologia do amor profano, remete, como se vê,
para a ordem do amor divino e da acção de graças pela dádiva do Céu. É
nesta época que se padroniza, até aos nossos dias, a forma deste coração assimétrico
e com ornatos ao gosto rocaille. É ainda o Coração de Jesus que, a
partir de 1789, D. Maria I manda timbrar nas mais importantes condecora-
ções portuguesas: as Ordens de Cristo, Avis e Santiago 39.
É, pois, o Coração de Jesus que as mulheres portu
guesas e, nomeadamente, as do Norte do País
usam ao peito. Apesar do aspecto barroco, estão
hoje apenas conotados com a forte e reconhecida
vertente lírica do Povo português. Também setecentistas,
barrocas e contemporâneas de D. Maria I, são
as formas dos brincos à rei e à rainha. A distinção
Acessórios femininos de festa
Pendente em forma de coração 
dos mesmos reside na forma esguia dos primeiros, representação estilizada,
com laço, do símbolo fálico, enquanto os outros, são volumosos, desenhando
formas arredondadas e curvilíneas. Tanto uns como outros contêm a configuração
ou a ideia de laça, uma das estruturas base da joalharia deste País.
Há a referir ainda a imagem da Senhora da Conceição, em esmalte, que fi -
gura em medalhas, medalhões e alfinetes de raiz popular. Esta figuração
constitui a resposta popular a um gesto real: D. Carlota Joaquina cria, por
favor régio, a Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, em 1804. Era uma
condecoração em honra da Rainha Santa, destinada só a senhoras, agraciando
assim as aias e damas que a acompanhavam e/ou a visitavam. A nível
popular, este gesto foi repetido com a prática generalizada a nível nacional
de ter a Padroeira de Portugal colocada ao peito. Este uso teve a sua moda.
Passou, desde meados do século XIX, a ser usado fora da capital, mas sobretudo
no Norte do País.


Além dos fios, cordões, grilhões e cadeias, compostos por elos de ouro, deverão
referir-se como peças invariantes da ourivesaria nacional, os colares de
contas, as argolas e as arrecadas. Qualquer uma destas peças tem raízes milenares
40. Constituem uma preservação de técnica e de formato. São indiscutivelmente
usadas por qualquer estrato social. São objectos do quotidiano.
Atravessaram os tempos, fiéis à sua concepção original, com pequenas varia-
ções. Representam mais três estruturas base da joalharia tradicional. Foram
celtas e castrejas, fenícias, romanas, visigodas e mouriscas, enfeitaram rainhas
e camponesas, compõem o colo e as orelhas da operária, da burguesa e
da feminista.
Espelham um modo de ourar português e reflectem o gosto por este material
nobre. Deverá todavia acrescentar-se que o diálogo espontâneo e natural
da mulher lusitana com estas peças de ouro é uma constante cultural 41.
Várias influências desembocam nesta tradição. «Une tradition, c’est l’action
par laquelle on transmet quelque chose; et, par extension, ce qui est transmis. La
tradition, selon Guénon, c’est ce qui est transmis à partir d’une origine humaine
et qui touche donc au surnaturel»
A associação do ouro com o Sol, a festa e a alegria é demasiado conhecida e
facilmente detectável entre nós, e poderíamos novamente invocar o grande
eixo geográfico cultural que separa o Litoral da zona serrana para delimitar
as gra dações do seu uso. Com forte incidência no Norte vai diminuindo a
presença do ouro para as planícies do Sul e rareando no interior do País. O
mesmo eixo é válido para a coloração dos tecidos, como se referiu anteriormente,
e para a manufactura dos têxteis.
Texto: Madalena Braz Teixeira


Bem hajam 
Carlos Fernandes

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A paisagem é tudo


O que é a paisagem?
A paisagem é tudo. É um diagnóstico de uma organização humana do
território. A paisagem não é natural. É construída com elementos naturais.
É do Homem, como uma casa. O Homem faz a paisagem com materiais
vivos e com solo duro. É uma construção artificial, baseada nas leis da
Natureza. Os seus elementos estão sujeitos à Lei da Vida. Portanto, há
uma dinâmica e lógica da paisagem, da parte essencial da paisagem. Não
podemos separar a paisagem e tratá-la como uma “coisa” para o turismo
ou como um valor apenas de cenário.
Com que olhos as pessoas da cidade vêem o mundo
rural?
O mundo urbano olha para o mundo rural de variadíssimas maneiras:
uns com saudades, porque se lembram da sua terra; outros como um
sítio óptimo para se passear e merendar e outros como algo que é 
miserável. São as três vistas urbanas. Aqueles que pensam que é miserável,
vieram da miséria, recentemente, para a cidade. Renegam as origens. Os
emigrantes fugiram porque se vivia muito mal nas aldeias. Foram-se
embora não com saudade, mas com inveja de cá não ser como lá. As
duas últimas gerações vêem a coisa de maneira totalmente diferente. Se
for ao Norte, a primeira geração de emigrantes tinha que mostrar que
não era miserável. As casas ostentavam luxo. Os filhos e os netos já não
querem aquela casa. Hoje, ou mora lá uma tia velha, a apodrecer de
reumático ou está fechada. Quando a segunda e a terceira geração
regressa, volta para recuperar as casas antigas da aldeia.
Numa entrevista à revista Visão (14 de Agosto de 2003)
referiu a existência de “uma política de desprestígio do
mundo rural” por parte do mundo urbano. Há uma
visão negativa do mundo rural por parte dos urbanos?
Não é uma visão das pessoas da cidade, é dos responsáveis. Senão não
víamos os disparates que vão aí pelas autarquias, em termos de
planeamento, com as fontes luminosas, os relvados à escocesa, etc. Estão
agora a começar a destruir Guimarães, destruíram Braga, destruíram
Vila Real, transformando toda a sua envolvência e intervenção rural em
espaços para construir desde moradias até blocos monstruosos.
Concretizando…
Os Governos, os responsáveis políticos, os economistas e a mentalidade
urbana, influenciada pelo poder, disseram que a agricultura estava
condenada no país, caso não se transformasse num sector de grandes
empresas agro-industriais e de monoculturas extensivas. Esta política
presidiu à florestação, para o fornecimento das empresas de celulose,
tendo o fim trágico a que assistimos este Verão e que, possivelmente, irá
repetir-se se não houver uma mudança de 360 graus do que se pensa
que é a agricultura e a ruralidade. As universidades viram na agricultura,
não uma cultura, mas uma economia. O que não quer dizer que uma
cultura não tenha que ter uma base económica. Não pode ser,
exclusivamente, uma economia. Tem que ter uma base cultural. Grande
parte da identidade do país e da sua independência resultam da identidade
cultural, tendo por factor fundamental a agricultura. A agricultura
condiciona totalmente, é a matriz da paisagem total, da paisagem global.
Gonçalo Ribeiro Telles
“A Paisagem é Tudo”
Gonçalo Ribeiro Telles, engenheiro agrónomo e arquitecto paisagista, ecologista desde a
primeira hora, Professor Catedrático, co-fundador do Partido Popular Monárquico e do
Movimento O Partido da Terra, mentor da política nacional de Ambiente e Ordenamento
do Território, Secretário de Estado do Ambiente, Ministro de Estado e da Qualidade de
Vida, deputado, alfacinha desassossegado e homem de bem e sapiência, é um marco
incontornável do universo semântico e físico da Paisagem tout court.
No atelier do mestre Ribeiro Telles, o Pessoas e Lugares recebeu uma lição sobre a
ausência de fronteiras entre a paisagem rural e a paisagem urbana...
A política florestal está a ser um desastre. Num país mediterrânico a
floresta faz parte do teatro agrícola e o teatro agrícola faz parte do teatro
da floresta. Agora dizem que vão manter uns corredores agrícolas por
causa dos incêndios. Mas com os corredores agrícolas, aparece população,
população que eles não querem lá, porque senão tem o problema das
escolas. Por que é que estão a despejar as escolas? Não há crianças. É
um círculo vicioso. É provocado pelo modelo económico, que não é um
modelo de desenvolvimento. Quando se fecha uma escola, a região é
mandada para o “galheiro”. Não tem gente, porque puseram lá uma
monocultura. A população não fica lá “a ver crescer o pau” que ainda
por cima não é deles.
Faz sentido optar por um modelo de “desenvolvimento”
em que mais de metade do país está despovoado?
Não faz sentido nenhum. O resultado está à vista. O mais grave é a falta
até de identidade cultural do país. Uma pessoa para poder ser patriota
tem que organizar-se em função do local onde nasceu, do local onde
vive, do cemitério, do futuro... Estragaram isso tudo. O indivíduo fica
ligado a uma empresa. Mais uma razão para as comunidades não serem
urbanas, mas sim territoriais. É terra, a “nossa terra”, ninguém diz o
“nosso urbano”. Isto é trágico.
Qual é o futuro da paisagem?
O futuro da paisagem está intimamente relacionado com o nosso futuro.
A paisagem não é um ordenamento, não é um bilhete postal ilustrado,
não é uma fonte de receita por si própria, representa a identidade cultural
do País e a natureza equilibrada de instalação da população. O futuro da
paisagem está comprometido pela agricultura, a floresta, o urbanismo,
por toda uma política que cria soluções temporárias de riqueza.
Continuamos a viver do quotidiano e com uma imagem errada do país.
Continuamos a viver do prestígio do carro, e agora que foi ultrapassado,
é o prestígio de ter um lareira. Ou seja, aumentaram-se as necessidades,
os valores que permitem a qualidade, mas não se aumentou a cultura. Eu
não vejo mundo rural e mundo urbano, eu vejo a situação gravíssima da
sociedade. Não temos uma sustentabilidade que nos garanta o futuro,
nem que nos garanta a independência. O que é mais grave! Porque sem
cultura, sem identidade cultural não há independência.
Entrevista de Luís Chaves (Minha Terra) e Maria do Rosário Aranha
Bem hajam 
Carlos Fernandes


Os bonecos de Santo Aleixo


Este grupo, de composição essencialmente rural, percorria o Alto Alentejo apresentando os seus espectáculos. Terão tido origem na aldeia que lhes deu o nome.Estas marionetas actuam num pequeno retábulo de madeira que possui uma rede dupla de cordéis, colocada verticalmente entre os bonecos e o público. A iluminação é feita através de candeias de azeite e possui cenários pintados em cartão. As marionetas são de varão, manipuladas por cima, extremamente simples e de dimensões reduzidas, podendo ter entre vinte a quarenta centímetros. O acompanhamento musical é feito por uma guitarra portuguesa. O repertório compreende peças de tradição secular, de teor mais especificamente religioso, bem como textos pertencentes à chamada literatura de cordel.Os seus personagens carismáticos são o Padre Chancas, representante da autoridade eclesiástica, e o Mestre Sala, o mestre de cerimónias, que por tradição tem uma moca, com a qual castiga ou abraça o Padre, enquanto o mesmo prega.Existem registos da sua existência já no século XVIII, como nos diz Padre Joaquim da Rosa Espanca in “Memorias de Vila Viçosa”, onde refere terem sido apreendidos e mandados queimar títeres de Santo Aleixo, em 1798.

Bem Hajam 
Carlos Fernandes