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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

De Portugal para o Mundo


Elegante e imponente, a Grande Sinagoga Portuguesa é o símbolo da liberdade que os judeus desfrutaram na Holanda, no século 17, e do prestígio e prosperidade dos judeus  de Amsterdão..


De Portugal à Amsterdão
De 1580 a 1640, em Portugal, ainda funcionava os Tribunais da Inquisição. Neste período houve uma imigração maciça de judeus portugueses, assim como de judeus espanhóis, para os Países Baixos. Assim, com a chegada de judeus em Amsterdão foram se formando algumas comunidades, e em 1622 já havia três importantes congregações. A primeira, que surgiu por volta de 1610, Bet Jacob, mais tarde a Newe Shalom, que possuía um carácter mais hispânico, e por fim a comunidade Bet Israel. As três finalmente se uniram em 1639 para dar origem a “Congregação Portuguesa Israelita de Amsterdão”, Talmud Tora, que ainda existe com o mesmo nome.
A grande Esnoga possui um espaço para 1200 homens sentados e 440 mulheres, que sentam na parte superior da sinagoga e foi conservada com a mesma estrutura até hoje. A sinagoga possui algumas curiosidades. Uma das mais interessantes, é a falta de electricidade. A Esnoga,é iluminada por centenas de velas posicionadas em castiçais espalhados pelo ambiente e pela claridade vinda das suas 72 janelas . Outro detalhe é o Hechal (armário dos rolos da Lei) e a teba (onde o Hazan, cantor que leva as rezas, se posiciona) são feitos de madeira de jacarandá, importada do Brasil por um de seus freqüentadores, Moises Curiel.

A Grande Sinagoga Portuguesa de Amsterdão, chamada de Esnoga, "sinagoga" em português arcaico, era motivo de grande orgulho, pois nunca dantes, em sua Diáspora, tinham os judeus obtido a permissão de construir sinagogas tão monumentais. Em 1934, o jornalista checo, Egon Erwin Kisch, fez a seguinte afirmação em seu livro Emigrantes: local de residência - Amsterdão: "A Sinagoga Portuguesa não poderia jamais ser descrita como um local negligenciado, instável e escondido que servia de ponto de encontro para imigrantes ilegais - não, muito ao contrário, é uma construção esplêndida, poder-se-ia dizer, mesmo, uma "catedral judaica". Seu interior, sustentado por pilares de granito, ergue-se aos céus, quase o atingindo...".
Sem dúvida mais um marco de Portugal no Mundo 
Bem hajam 
Carlos Fernandes

( Revista Morashá www.shavei.org/).)



sábado, 17 de janeiro de 2015

Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima


Igreja Nossa Senhora de Fátima 1938 Lisboa 
O projecto foi encomendado a Pardal Monteiro em 1933 pela Sociedade Progresso de Portugal, tendo demorado um ano a realizar; teve colaboração de Raul Rodrigues Lima e de alguns estudantes então a trabalhar no ateliê de Pardal Monteiro, onde se destaca João Faria da Costa. A igreja foi consagrada em Outubro de 1938, sendo galardoada com oPrémio Valmor desse ano. Apesar do apoio expresso por parte da igreja, a modernidade do edifício seria contestada pelos meios mais conservadores da sociedade portuguesa.
Arquitecto Pardal Monteiro mais a sua  equipa 

O arquitecto fez coincidir a forma com o sistema estrutural, que foi deixado à vista no interior, sendo o volume desenhado a partir dos pórticos ritmados e repetidos como lâminas. "Essa estrutura foi envolvida por uma caixa formando a nave principal com uma cobertura em terraço plano, que se articula com os volumes mais baixos das duas naves laterais, e ainda com os corpos assumidos do batistério e da torre única e assimétrica na fachada, de formas puras". Herdeira de traços da art déco, patentes na fragmentação dos volumes e no modo como estes estão ornamentados, "a linguagem moderna reside essencialmente na assimetria, na cobertura em terraço e na exteriorização do programa e da estrutura"
O edifício teve colaboração artística de Almada Negreiros (vitrais), dos escultores Leopoldo de Almeida (Virgem e os pastorinhos de Fátima; Ressurreição de S. Lázaro; S. João Baptista) e Francisco Franco (Friso dos Apóstolos, pórtico de entrada); e ainda de Barata FeyoAnjos TeixeiraRaul XavierAntónio da CostaHenrique Franco e Lino António
Vitral Almada Negreiros 


Vitral Almada Negreiros
Igreja N.S. de Fátima vista interior 
Os anos 30 em Portugal,foram anos de charneira no que diz à arquitectura moderna. Dois grandes acontecimentos marcaram esse período: a Exposição do Mundo Português, preparada pelo governo de então, chefiado por Salazar e uma nova igreja para o Patriarcado de Lisboa, a primeira igreja modernista em Portugal, com a inovação de Nossa Senhora de Fátima, construída sob orientação do Cardeal Patriarca de Lisboa , D. Manuel Gonçalves Cerejeira . 
Esta que iria provocar grande impacto e polémica, foi encomendada para substituir a igreja de S.Julião, uma igreja da baixa lisboeta que se pretendia demolir, juntamente com o quarteirão em que
estava construída , para que ali se edificasse uma nova e monumental sede do Banco de Portugal (....)
Francisco Franco, Friso dos Apóstolos (fragmento)
António da Costa, Nossa Senhora de Fátima
Mais que um Templo de culto e recolhimento, um diamante da história arquitectónica de Lisboa , situada na Av. de Berna (Avenidas Novas ) um lugar a não perder !
Bem Hajam 
Carlos Fernandes
 

Xentra, Cynthia, Suntria, Sintria, Sintra a Fonte Mourisca


 Sintra é o único lugar do país em que a História se fez jardim. Porque toda a sua legenda converge para aí e os seus próprios monumentos falam menos do passado do que de um eterno presente de verdura.” ´Louvar Amar`, Vergílio Ferreira


Fonte Mourisca 

- Edificada em 1922, segundo projeto de Mestre José da Fonseca,a Fonte Mourisca substituiu o antigo Chafariz da Câmara, com o intuito de valorizar a entrada de Sintra e de «dignificar a água mais apreciada de Sintra». A sua grandiosa arquitetura revela certo formalismo académico, característico, aliás, do modernismo revivalista dos anos 1920. De facto, como o próprio topónimo indica, trata-se de uma estrutura de desenho neo-árabe. O edifício que alberga o fontanário é "dinamizado" por grande arco em Ferra-dura denticulado, no qual se rasgam três outros arcos em ferradura, também denteados e emoldurados por azulejos neo-mudéjares, impondo-se ao centro, a pedra d`armas do Município. As colunas assentam em socos elevados que as projetam nos capitéis de geométrica e diferenciada decoração. Esta pétrea composição desenvolve-se por entre azulejos ao estilo mudéjar e de intensa policromia, permanecendo ainda bordejada por possante friso relevado de cariz geometrizante que, no topo, se desdobra num ático sobressaliente onde assentam merlões escadeados, similares aos do Paço Real. No interior ovóide e cobertura abobadada, as paredes permanecem revestidas por azulejos também de inspiração mudéjar. E, ao centro, impõe-se o fontanário, cuja bica de bronze emerge de um florão e a água derramada resguarda-se em tanque oval com bordo concheado.
Inspire-se e faça parte desta preciosidade Sintra espera por si !
Bem hajam 
Carlos Fernandes

Senhoras e senhores, meninos e meninas .... Dom Roberto e suas gentes !!

Origens Históricas
A expansão da Commedia dell`Arte para além das fronteiras da Itália e a consequente disseminação de comediantes e bonecreiros itinerantes pela Europa constitui o fator determinante do surgimento dos heróis populares. Neste contexto irá evoluir o teatro de fantoches de raíz popular, em Portugal.
Durante a Idade Média os fantoches tinham tido uma ação preponderante nas representações litúrgicas e foi pois nas igrejas, nos conventos e nos mosteiros que os bonecreiros encontraram refúgio certo e ganha-pão seguro.
Este “estado de graça” terá durado vários séculos. Mas a irreverência dos fantoches, o seu espírito crítico e a sua natural tendência para a representação burlesca, o que provocaria, por certo, o riso no seio das multidões fervorosas, determinariam, mais tarde, a sua definitiva irradicação dos locais de culto, de acordo com o espírito da contrarreforma.
Em Portugal, este fator é particularmente sentido. A permanência dos fantoches nos atos religiosos é tão forte e o seu discurso tão povoado de sermões, através dos quais os “frades-fantoches” exaltavam a vida de Cristo e dos santos, que eles passam a ser designados por “Bonifrates” (“bonnus”+”frater”) e durante vários séculos as representações são ainda popularmente conhecidas por “presépios”.
Seria, pois, após o Concílio de Trento (1545) e particularmente do Sínodo de Orihuela (1600), que reiterou a proibição de representar “as ações de Cristo, as da Virgem Maria e a vida dos santos por meio de figuras móveis”, que acabaria o reinado religioso dos fantoches. Nascem então as pequenas companhias representando autos religiosos de delicioso sabor popular e os solitários bonecreiros que calcorreiam as ruas e as terras portuguesas em busca de um novo sustento.
É nos meados do séc. XVII que começam a chegar, em grande número, os artistas itinerantes estrangeiros, sobretudo franceses e italianos, que encontram público certo e generoso nas grandes cidades. E deste modo chega também Polichinelo, um ilustre emigrante, que conquista os corações do povo com as suas picardias. Sabida que é a apetência dos portugueses para o que vem de fora, não é de estranhar que o herói Polichinelo se tenha facilmente estabelecido, como acontecera já, aliás, em grande parte do território europeu. Por outro lado, o caracter português tende também a apropriar-se dos estrangeirismos. Esta simbiose de representações teatrais vindas do exterior com as já existentes terá resultado num processo de aculturização, aliás comum na história da cultura portuguesa, que origina o aparecimento de um novo personagem, um verdadeiro herói popular: Dom Roberto.
É certo que não terá sido este o seu primeiro nome. Roberto é apenas uma das muitas designações conhecidas no séc. XVIII, que se viria a impôr e, mais tarde, a generalizar-se. Duas hipóteses se colocam para a origem deste nome. Uma delas parece ter sido o grande êxito alcançado pela representação de uma Comédia de Cordel intitulada “Roberto do Diabo”, que as investigações confirmam tratar-se de uma importante peça do reportório clássico europeu de fantoches; outra origem estaria associada a um célebre empresário de Teatros de Fantoches, chamado Roberto Xavier de Matos, que terá deixado o seu nome ligado, para sempre, às representações de “robertos”. Mas, para além destas hipóteses, uma certeza existe: a palavra Roberto tem uma sonoridade ideal para ser produzida pela voz do bonecreiro que utiliza a palheta, técnica que limita consideravelmente o número de sons possíveis de articular com clareza – convém não esquecer que uma das características peculiares do Teatro Dom Roberto é o facto de, ao contrário de todos os outros teatros tradicionais europeus, todos os personagens falarem com “voz de palheta”. Por isso, o seu vocabulário se baseia num conjunto de “palavras-chave” que contém o som mágico da voz dos “robertos”, o “rrr”: porra, rapaz, carolada, touro, trucla-trucla, arroz, bruto, além de todos os nomes de mulheres, Rosa, Rata e Rita e de um grande número de estranhas onomatopeias: brrr, prrriu, turrrututu, quirrri…

Repertório
É ao nível do reportório que mais facilmente se detetam as influências que determinaram o aparecimento do Teatro Dom Roberto. A sua análise fornece-nos informações preciosas sobre os contextos sócio-históricos que marcaram a sua evolução através dos tempos, nos quais o fantoche sempre se assumiu como veículo do sentir popular.
No conjunto de peças conhecidas encontramos histórias “clássicas” do reportório europeu, reinventadas, outras que nasceram de ímpetos coletivos determinados por situações politico-sociais e até religiosas, de contos da sabedoria popular, de manifestações da cultura tradicional e ainda do chamado Teatro de Cordel (teatro de comédia ou drama muito em voga no séc. XVIII, que deve o seu nome ao facto dos textos serem apregoados nas ruas, impressos em grandes folhetos dependurados num cordel).
A mais famosa peça que chegou aos nossos dias, passada de geração em geração de bonecreiros, é “O Barbeiro”. Nela é evidente a simbiose da tradição europeia com a cultura portuguesa. Tudo começa de uma forma muito ingénua: no dia do seu casamento, Dom Roberto vai ao barbeiro para cortar a barba. A ação desenvolve-se por entre um sem-número de peripécias cómicas ao longo das quais o ritmo da ação vai crescendo. No final o nosso herói recusa-se a pagar, porque acha o preço muito caro (10 tostões) e envolve-se em grande pancadaria com o barbeiro, que acaba por morrer. Até esta altura, a trama é claramente inspirada nas representações burlescas dos ofícios (o do Barbeiro), que integravam as famosas procissões do Corpus Christi, nas quais, atrás de carroças exibindo alegorias religiosas, vinham grupos de gente representando os diversos misteres, quase sempre de forma caricata, para grande gáudio do povo que a elas assistia. Ainda hoje esta situação constitui um clássico do humor dos “palhaços” e, curiosamente, vamos também encontrá-la no reportório dos Bonecos de Santo Aleixo, as pícaras marionetas de varão do sul de Portugal.
A partir da morte do barbeiro, constituindo a morte um elemento ativador de uma nova ordem dramatúrgica, a representação segue de perto os passos da tradição europeia, ainda hoje visível em vários países. E os personagens, quase poderíamos dizer “arquétipos”, representativos dos poderes e dos medos que regem a existência humana, sucedem-se: o padre que vem fazer o funeral do pobre barbeiro, o polícia que pretende prender Dom Roberto, o Diabo que tenta arrebatar a sua alma para o Inferno e, finalmente, a Morte, o “castigo” máximo do homem. Naturalmente que o nosso herói acaba por sair vencedor de todos os confrontos e termina em delírio, gritando: “Eu matei a Morte! A Morte está morta!”.
Diante da barraca o público aplaude e vai-se dali feliz por o seu herói ter corporizado alguns dos seus mais profundos desejos.

Outras peças, bastante significativas, integram o reportório conhecido do Teatro Dom Roberto: “A Tourada”, recriação graciosa de uma tradição nacional; “A Rosa e os Três Namorados”, com origem numa comédia de cordel; “O Castelo dos Fantasmas”, adaptação do conto popular “João-Sem-Medo”, na qual Dom Roberto enamorado vai salvar uma princesa que está aprisionada na torre de um castelo, tendo, para tal, que vencer toda a galeria de monstros representativos dos medos (o fantasma, o gigante, o dragão e, claro, o Diabo); e ainda, sem dúvida, um grande conjunto de peças mais individualizadas ou de cariz regionalista que, por esse motivo, não se generalizaram, vindo a perder-se no longo caminho até aos nossos dias.
Uma curiosa obra, bem representativa do modo como o génio popular soube satirizar um trágico período da nossa história, é uma comédia intitulada “O Marquês de Pombal e os Jesuítas”. Através dela, o povo exteriorizou o seu ódio profundo à impiedosa Inquisição portuguesa e, uma vez mais, são as mãos mágicas do bonecreiro que dão forma ao sentimento popular: no final da peça, os Inquisidores, que se preparam para fugir para o Brasil, são atirados de um barco para as águas infestadas de tubarões, que os vão devorando. De cada vez que isso acontece, Dom Roberto exclama: “Mais um padreca!”. E a assistência rejubila e pede mais…
Tipologia do Personagem
O mais ocidental de todos os descendentes do grande herói Polichinelo não apresenta, como acontece com os seus familiares europeus, um tipo fisionómico próprio. Por vezes o personagem tende a diluir-se nos outros seus companheiros de ação – o que explica a designação popularmente usada de “robertos” para este tipo de teatro. Digamos que o que permanece em Dom Roberto como traço relevante herdado da grande família, é a alma, o carácter, e não o aspeto físico. Por isso, as poucas representações antigas que se conhecem do personagem Dom Roberto são diferentes entre si, não havendo nenhuma persistência ao nível da forma. Cada bonecreiro construía o seu próprio “herói”, poderá dizer-se.
Cabeça
A cara é sempre talhada com uma grande “ingenuidade escultórica”, os olhos são grandes e vivos, a boca sorridente, os restantes traços são sóbrios e discretos. Nesta singeleza formal o fantoche não perde nunca o ar matreiro, a “esperteza saloia” de herói popular. A cor, essa sim, é normalmente muito característica: o rosa forte, persistência, sem dúvida, do tom genérico da cerâmica popular do norte de Portugal, os célebres “bonecos de barro”.
Vestimentas
As vestimentas são tão singelas quanto a cara do fantoche e de cores bastante garridas. Quanto ao talho, o suficiente apenas para esconder a mão do bonecreiro permitindo, ao mesmo tempo, uma grande agilidade ao nível dos movimentos. Também aqui, poderíamos dizer, a construção do “roberto” aposta mais nas possibilidades de movimentação frenética do que na “nobreza” dos gestos e atitudes, que resultam de vestidos mais elaborados.
Acessórios da cena
Dom Roberto serve-se frequentemente de acessórios que, embora também muito simples, constituem um elemento fundamental da ação. A sua arma é, como habitualmente, um pau, mas um pau grotesco e robusto com um talho longitudinal que permite obter um som mais ruidoso nas frequentes cenas de pancadaria. Aliás, todos os adereços são uma espécie de instrumentos de percussão que pontuam ritmicamente a ação, transformando-a numa maravilhosa sinfonia de movimentos e estranhas sonoridades. Outros importantes acessórios da representação são: a frigideira, a vassoura, a navalha, o pano, o capote de toureiro, a caneca.
A Barraca
A singeleza do Teatro Dom Roberto, nos seus vários aspetos referidos, encontra particular expressão no dispositivo cénico, que é o mais simples de todos os conhecidos.
A barraca é aberta na parte superior, sendo constituída apenas por quatro lados que formam um quadrado com cerca de um metro de lado, medida máxima que permite a um único bonecreiro colocar dois bonecos em todos os pontos possíveis do espaço de representação. Este tipo de barraca possibilita ainda que o público se disponha “ao redor” e não apenas em posição frontal.
Construída numa estrutura leve de madeira, é tradicionalmente revestida de “chita”, um tecido muito popular e barato, estampado com cores garridas e belos desenhos. Os cenários não existem, ou melhor, digamos que desta conceção de barraca resulta que o décor passsa a ser constituído pelo meio envolvente: o céu azul, as árvores de um parque ou a fachada de uma casa, situação esta frequente nas representações efetuadas nas cidades. Elementos soltos de cenário aparecem, por vezes, não com uma função decorativa mas por necessidade das próprias histórias: um castelo, uma arca, um guarda-vestidos, as ondas do mar, um barco… e até aparelhos de circo que nas representações antigas serviam para ratos amestrados mostrarem as suas habilidades com o objetivo de atrair público para a função.
Em duas gravuras que nos mostram cenas típicas da Lisboa oitocentista, encontramos outras formas de representação: numa delas a barraca reduz-se a um simples pano que é dependurado no vão da porta de uma casa, atrás do qual o bonecreiro representa; a outra mostra-nos um espetáculo dos curiosíssimos “Títeres de Capote”, bastante populares em Portugal e no Brasil, e no qual um homem/músico se serve da sua própria capa para esconder um jovem bonecreiro.
Vida dos Bonecreiros
Muito pouco se sabe acerca das representações antigas de fantoches e dos homens que as faziam.
Heróis da marginalidade artística, eram nesses tempos vistos como gente pobre sem eira nem beira, que tinham a única virtude de divertir o povo. Os historiadores teatrais não lhes registaram a memória.
A partir da entrada deste século já se torna, porém, possível fazer um historial mais pormenorizado da vida dos bonecreiros. Infelizmente, este fio humano de vários séculos, que são as sucessivas gerações de bonecreiros desvanece-se no nosso tempo, por volta dos anos sessenta, com o advento de novas formas de comunicação e diversão.
Neste último período, as feiras são um dos locais privilegiados de atuação dos bonecreiros. Organizam-se companhias de feira que atingem grande celebridade e que fazem enriquecer os seus empresários. Estes teatros eram instalados em espaçosos pavilhões de madeira, desmontáveis, e neles se oferecia ao público um reportório popular baseado nas peças clássicas, mas com uma maior dose de sofisticação, com a introdução de cenários, vistosos efeitos de cena e até orquestras privativas. Mestre Faustino é o mais famoso empresário deste século ligado aos teatros de feira e que marcou todas as gerações de bonecreiros que se lhe seguiram.
Com o declínio das companhias de feira, os bonecreiros carregam de novo a barraca às costas e tentam a aventura solitária da sobrevivência, encarnando o verdadeiro espírito do Teatro Dom Roberto. Não é difícil seguir os seus passos de há algumas décadas atrás. Retomam a rota das feiras e romarias de Portugal, onde encontram público certo. No verão percorrem a costa marítima de norte a sul, apresentando os seus espetáculos nas praias e no inverno, quando o tempo o permite, representam nos jardins e ruas das cidades ou nos largos das vilas e aldeias.
Da última geração de bonecreiros populares merece justo destaque Mestre António Dias. Nascido de família humilde no Rossio-ao-Sul-do-Tejo, pequena povoação ao norte de Lisboa, foge de casa dos pais aos 16 anos e vai tentar a sorte na feira de Setúbal, onde arranja emprego no teatro de Mestre Faustino. Aí trabalha durante alguns anos, aprendendo a arte e saber dos “robertos”. Com a falência do empresário, António Dias monta o seu próprio teatro ambulante e dá espetáculos nas ruas de Lisboa e, mais tarde, por todo o país. Apesar das dificuldades crescentes de sobrevivência que foi encontrando ao longo da vida, que originaram que a maioria dos bonecreiros abandonassem a sua atividade para se dedicarem a outros ofícios, Mestre António Dias manteve o seu teatro vivo até aos últimos dias da sua vida, vindo a falecer no verão de 1986.
Alguns anos antes, tinha legado todo o seu saber e arte dos “robertos” a João Paulo Cardoso, numa atitude de dádiva e humildade que permitiu que o Teatro Dom Roberto não se perdesse para sempre da memória dos portugueses.

Bem hajam 
Carlos Fernandes
Bibliografia
“ História do Teatro Português”,
Luís Francisco Rebelo, Lisboa, 1968.
“História do Theatro Portuguez”,
Teófilo Braga, Porto, 1871.
“Teatro de Outros Tempos”,
Gustavo de Matos Sequeira, Lisboa, 1933.
“Feiras e Outros Divertimentos Populares de Lisboa”,
Mário Costa, Lisboa, 1950.
“A Arte Popular em Portugal”,
Guilherme Felgueiras.
“Lisboa dos Nossos Avós”,
Júlio Dantas, Lisboa, 1962.
“Artes, Usos e Costumes Portugueses”,
Armando Lucena.
“Teatro Popular Português”,
(Agradecimento: Museu da Marioneta do Porto )

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A.ruralidades: Os “Alinhavados de Nisa” ou “Crivos de Nisa”

A.ruralidades: Os “Alinhavados de Nisa” ou “Crivos de Nisa”: Mulher em traje tradicional de Nisa, confeccionando um alinhavado "As rendeiras estão sentadas em tripeças,junto ás portas, v...

Os “Alinhavados de Nisa” ou “Crivos de Nisa”



Mulher em traje tradicional de Nisa, confeccionando um alinhavado

"As rendeiras estão sentadas em tripeças,junto ás portas, vestidas com trajes característicos -
saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito,e mantinha curta na cabeça ou o clássico chapéu Nisense ; adornam.se com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Cristo, de ouro esmaltado.
Algumas delas com rebolo (almofada) sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, das mais complicadas, rendas de rebolo (bilros), ou fazendo renda de agulha, que servem a mais das vezes, para colchas, que levam anos a compor e que gerações guardam nas arcazes, servindo somente nos dias festivos,de bodas ou baptizados .
A indústria das rendas de Nisa, restringida ao uso local,nota certo desenvolvimento no labor das rendeiras, pela exportação de muitos e belos exemplares ".
In Bordados e rendas de Portugal, colecção educativa -Série N- nª 10 

Rebolo: utensílio com o qual se produz a renda de bilros

De tradição muito antiga, sendo embora a sua origem impossível de datar com rigor,os bordados de Nisa chegam até nós devido a um arreigado tradicionalismo das gentes locais, com principal ênfase no respeito pelos costumes do casamento: a cama da noiva, a que se dava o nome de cama grave, era normalmente adornada com colchas, cobertores, lençóis e toalhas, a maior parte  das vezes produzidas pela própria e que faziam o seu orgulho, as delícias dos visitantes e a inveja ingénua das moças casadoiras.
Pormenor de cama tradicional, com almofadões, lençóis e colcha bordados.
Mas se até meados do século XX , era em casa das Mestras ( na sua maioria mulheres idosas e eximias bordadeíras, que ensinavam a arte enquanto  davam vazão ás encomendas ) que as meninas aprendiam este labor, logo após a saída da escola, a mudança de hábitos de vida, com o aumento da escolaridade obrigatória e a possibilidade de continuar os estudos, retirou-lhes o tempo para a confecção do enxoval e para longa e laboriosa aprendizagem envolvida nesse processo secular.
Sem aprendizes, logo sem ajudantes, a arte das bordadeiras foi-se assim perdendo, por não ser mais rentável . E com ela a qualidade ancestral dos Bordados de Nisa , que passaram revestir-se de elementos decorativos cada vez menos cuidados e morosos elaborados muitas vezes através de fabrico mecânico .
Ora, juntando a isto o facto das encomendas exteriores, trazidas pelas "Senhoras", se basearem cada vez mais em desenhos importados das revistas de moda , se possível estrangeiras , o bordados nisense foi perdendo alguma qualidade e genuinidade que lhe conferiam a beleza e riqueza artística  inestimável de outros tempos .
Caramelo: alinhavado em linho, no estilo mais antigo
 
Bem hajam 
Carlos Fernandes 
(agradecimentos ao Museu do Bordado e do Barro de Nisa )

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Saudades do Senhor Olá



"Venho para a Praça Duque de Saldanha desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém. Nasci aqui perto, na casa da minha avó. Um palacete bonito que o Calouste Gulbenkian quis comprá-lo. A vida dá estranhas voltas, o meu destino é acenar a quem me cumprimenta. Estou sujeito a que me chamem maluco, mas não me importo. Da minha solidão sei eu", acrescentou Dizia ser o "Senhor do Olá"
Nem a chuva o afastava desta missão, que, nos últimos tempos, se alargou ao Restelo, onde passou a ir almoçar a casa de um irmão. "Havia quem o chamasse maluco, mas ele dizia que não se importava", conta Ana Coimbra. Do que não gostava muito era que o chamassem "Senhor do Adeus": preferia ser conhecido como "Senhor do Olá".
João Manuel Serra, o "Senhor Olá” ficou conhecido dos lisboetas por todas as noites acenar aos carros e às pessoas que passavam perto da zona do Saldanha, sempre com um sorriso estampado na cara e impecavelmente vestido.
Esta era a fórmula do "Senhor Olá”" para afugentar a solidão. "Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente", disse numa entrevista à revista "Única", do Expresso.
Lisboa ficou mais vazia, esteja onde estiver Adeus estamos com saudades..
Bem hajam 
Carlos Fernandes